Tapinhas e chutinhos

Não dá para o presidente do São Paulo minimizar agressões a jogadores em invasão ao CT

Antero Greco, O Estado de S. Paulo

28 Agosto 2016 | 03h00

Meu amigo, tento entender o que ocorreu no Centro de Treinamentos do São Paulo na manhã deste sábado. Em princípio parecem cenas absurdas, desconectadas da realidade. Se observarmos bem, notaremos que ocorrem com frequência. E, se formos mais a fundo, constataremos que elas não acarretam nenhuma consequência desfavorável para os autores.

Só para relembrar, para quem por acaso se distraiu e não viu o que houve. O episódio constrangedor e medonho veio na forma como um significativo grupo de torcedores resolveu mostrar insatisfação pelos resultados da equipe. Marmanjos, adolescentes, mulheres e até crianças invadiram o CT, na Barra Funda. Vários ameaçaram e agrediram jogadores. De quebra, alguns roubaram camisas de treinos e bolas. Uns tantos tiraram selfies, para postar a bravata em redes sociais.

Os arruaceiros entraram e saíram sem serem incomodados, com direito a marronzinho a controlar o trânsito na avenida São Marquês de São Vicente e com PMs atônitos a observar a movimentação. O reforço da ordem chegou só mais tarde, quando a turma da bagunça se retirava, após ouvir discurso apaziguador de Lugano e Maicon.

Para completar o momento surreal, o presidente Carlos Augusto de Barros e Silva fez um pronunciamento no início da tarde, depois de voltar de Cotia, onde se prestou homenagem à memória de Juvenal Juvêncio. O dirigente atual ia bem nas explicações, até o momento em que classificou o ataque como uns "tapinhas e chutinhos" em função do inconformismo de alguns.

Aí não dá. Quando um dirigente de agremiação do peso do São Paulo ensaia suavizar o que se viu é porque o caldo desandou de vez. Não há defesa para o que aconteceu neste sábado, assim como não há como justificar covardias semelhantes ocorridas em outras ocasiões em rivais como Palmeiras, Corinthians, Flamengo, Cruzeiro.

Houve coação, intimidação, assédio físico e moral. Os funcionários se sentiram ameaçados – de jogadores a integrantes de comissão técnica, de seguranças a faxineiros e porteiros. Todos ficaram à mercê da multidão e correram riscos. Qual o critério de avaliação da intensidade? Seria grave se houvesse linchamento, se alguém fosse parar num hospital? A invasão de um local privado já caracteriza crime.

Que tipo de estrago psicológico essa histeria pode desencadear? Como ficam os mais visados – Carlinhos, Michel Bastos, Wesley, para citar alguns – diante do quadro com que se depararam? Imagine, amigo leitor, você diante de centenas de pessoas iradas, que de uma hora para outra irrompem em seu local de trabalho para protestar. Não lhe passará pela cabeça a perspectiva de uma tragédia? Como se sentirá, em seguida? Continuará na empresa, ainda mais se o patrão minimizar?

Há mais detalhes equivocados nessa história. Os camaradas avisaram a arruaça, marcaram por redes sociais, o São Paulo diz que pediu reforço para a polícia. E havia só uma viatura na hora da confusão. Como assim?! Por que, então, não se reforçou a segurança com agentes privados? O clube que não dormisse de touca.

Os cartolas tricolores falharam ao não se manifestarem na quarta, ao final do jogo com o Juventude. E insistiram no erro, com o silêncio na quinta, na sexta e até ontem pela manhã. O comportamento esquivo estimulou os valentões, que se sentiram donos do pedaço. Aliás, estufam o peito por saberem da impunidade e do medo que espalham. Não são professores, nem estudantes, nem funcionários públicos; por isso, se sentem (e são) intocáveis.

Para não dizer que ninguém se estrepou: a polícia prendeu, em flagrante, rapaz que roubou uma bola. O elemento confessou o crime.

Turbulência alvinegra. O Corinthians se livrou de surra e tanto, no duelo com a Ponte, ontem à tarde, em Campinas. Perdeu por 2 a 0 e foi pouco, tal a intensidade do jogo do time campineiro. Vem mais pressão por aí em cima de Cristóvão Borges.

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