Cristiane Mattos
Cristiane Mattos

Tardelli garante: 'Não vou ficar escondido na China'

Atacante deixa o Atlético-MG para fazer seu 'pé-de-meia' e conta ter conversado com membros da CBF para saber se poderia ir embora e não perder espaço com Dunga

Entrevista com

Diego Tardelli

Daniel Batista, O Estado de S.Paulo

02 de fevereiro de 2015 | 07h03

O atacante Diego Tardelli sabe bem o que significa “não deixar uma oportunidade passar”. Ídolo da torcida do Atlético-MG e ganhando cada dia mais espaço na seleção brasileira, ele resolveu correr o risco de perder tudo isso em nome da independência financeira. Com 29 anos, ele percebeu que essa seria a última chance de fazer um contrato pomposo, que lhe permitisse ter uma aposentadoria sem preocupações, por isso, vai jogar no Shandong Luneng, da China, ao lado do técnico e amigo Cuca.

Em entrevista exclusiva ao Estado, pouco antes de se aventurar em terras chinesas - ele viaja na quinta-feira-, o atacante contou sobre o que espera no novo clube, revelou ter conversado com pessoas da CBF para saber se iria, de fato, deixar de ser observado, e admitiu que está deixando o Brasil pela questão financeira.

Seu acerto com o Shandong pegou muita gente de surpresa. Vai para a China ficar um tempo e volta ou quer ficar mais tempo por lá?

Eu pretendo cumprir meu contrato de quatro anos inteiro. Falei com os brasileiros que jogam lá (Vagner Love, Aloisio e Júnior Urso) e eles falaram que dá para aguentar todo o tempo. Além da questão financeira, que foi muito importante, eu também quero fazer uma boa temporada para construir uma história na China e também me manter na seleção brasileira.

O que conhece do clube e da cidade de Jinan (onde fica o Shandong)?

Estou bem preparado. Sei que a cidade não é muito grande e não tem muito o que fazer, mas vou com minha família e isso ajuda. E tem algumas cidades e países próximos, que dá para visitar quando estiver meio cansado da cidade. Vou tentar me adaptar o mais rápido possível com a cultura, clima e comida deles. Vamos nos virar do jeito que dá. Vale a pena tudo isso.

Como entende que está deixando o Atlético-MG. Faltou algo?

Saio feliz de cabeça erguida e pela porta da frente. Enquanto estive no Atlético, honrei muito a camisa. De todas as formas, dentro e fora de campo. Hoje eu sou uma referência e um ídolo no clube. Acredito que deixei o meu nome na história do Atlético e saio bastante contente por tudo isso. Mas bate uma certa tristeza por deixar o carinho da torcida.

Pensou em recusar a oferta?

Acho que chegou o momento que eu precisava pensar um pouco mais em mim e escolher o que era melhor para minha carreira e para minha família. Tem horas que você precisa pensar mais em si mesmo.

Quando diz pensar mais em você, podemos entender que se refere a questão financeira?

Com certeza. Nos últimos dois anos, o futebol brasileiro passou por muitas dificuldades financeiras, então não poderia deixar essa oportunidade escapar. Quis garantir e fazer o meu pé-de-meia, porque a carreira de jogador de futebol é curta e talvez eu não teria uma outra oportunidade igual essa (Tardelli não revela os valores, mas o jogador vai ganhar cerca de R$ 1 milhão por mês).

É sabido que o Atlético teve alguns problemas financeiros. O clube ainda te deve algo?

Nada. Eu abri mão do que eles me deviam para poder sair. O Atlético estava com problema financeiro, então conversei com o presidente e entramos em um acordo.

E com o Dunga (técnico da seleção brasileira). Falou antes de aceitar ir para a China?

Com o Dunga, não, mas falei com o pessoal da CBF e depois vi uma entrevista do Gilmar Rinaldi (coordenador-geral de Seleções) falando que ninguém fica escondido, pois hoje eles conseguem acompanhar atletas em todas as partes do mundo. O futebol chinês vem crescendo muito nos últimos anos. O bom é que o pessoal da CBF me passou muita tranquilidade, talvez por isso tenha aceitado sem essa preocupação de perder espaço.

Então é um erro falar que você está abrindo mão da seleção brasileira em troca da independência financeira?

Claro. Justo agora que eu tenho oportunidade de me firmar na seleção eu vou me esconder? Não queria ser esquecido, por isso liguei e perguntei se essa transferência iria me atrapalhar. Me falaram que não, mas alertaram que um problema pode ser as viagens, por causa do fuso horário. Isso é o de menos para mim.

Quem te falou isso? E dá para acreditar nessa promessa?

Prefiro não falar. Bom, espero que o que me foi falado não seja da boca para fora, né? Só que eu também preciso ter consciência que terei de fazer a minha parte por lá. Se eu não jogar bem, não serei convocado. Algo que pode me ajudar é a chegada do Carlinhos Neves ao clube (o preparador físico também deixou o Atlético e foi para o clube chinês). Foi nas mãos dele que vivi meus melhores momentos fisicamente. Se Deus quiser, em 2018 eu estarei na Copa. Estou bastante empolgado e confiante na convocação. O primeiro passo é ser chamado na Copa América e nas Eliminatórias.

Como vê a disputa por uma vaga no ataque. Tem muitos concorrentes ou a briga está mais tranquila do que o esperado?

O futebol da seleção mudou um pouco com a chegada do Dunga e se tornou mais favorável para mim, pelas minhas características. Não sou referência, como o Fred, por exemplo. Sou um jogador que se movimenta bastante e o Dunga gosta disso, pois foge do tradicional camisa 9. E tem grandes jogadores que estão na seleção e disputam a vaga comigo. O Robinho é um grande concorrente. O Luiz Adriano também está muito bem. Mas estou na briga e vou lutar para conseguir o meu espaço.

Ainda pensa em jogar no futebol europeu?

Enquanto eu estiver em atividade, se surgir propostas, posso jogar sim. A seleção abre as portas e por isso é importante continuar jogando nela.

Você trabalhou com o Cuca no São Paulo, Flamengo, Atlético-MG e agora ele te levou para o Shandong. É diferente trabalhar com ele?

Tive três estágios com ele. No São Paulo, era jovem, faltou amadurecimento e acabei até sendo afastado. No Flamengo, ficamos pouco tempo juntos e voltei a trabalhar com ele no Atlético onde estava mais maduro e as coisas deram certo. Conversamos um dia e nos acertamos, tanto que tivemos sucesso na Libertadores de 2013. Ele sempre me deixou a vontade. Acho que nosso trabalho é bem feito, por isso ele gosta tanto de mim.

Você diz que faltou amadurecimento. Talvez se tivesse sido mais regrado, teria uma carreira diferente?

Não sei, mas está tudo dentro da normalidade. Com 17 ou 18 anos, as coisas aconteceram na hora que tinha de acontecer. Foi tudo muito rápido. Foi bom, serviu de lição para mim, até que resolvi jogar bola. Aproveitei bem a adolescência. Normal, não me arrependo.

Porque tantos brasileiros em alta indo para mercados alternativos como a China?

Parece que o futebol europeu não está mais acreditando nos brasileiros. Não sei, talvez pela Copa que fizemos. Eu mesmo esperava por uma boa proposta da Europa e ela não veio. Estão apostando em jovens promessas ou jogadores de outros países.

O que vai sentir falta do Brasil?

Da torcida, do estádio sempre cheio, da rivalidade, do equilíbrio do Campeonato Brasileiro e da torcida do Atlético. E tem também a comida brasileira. Na verdade, isso é o que eu vou mais sentir falta. Por isso estou levando uma cozinheira mineira que trabalha para mim. A Bia vai ter que cozinhar para gente.

Não vai nem experimentar grilhos, gafanhotos e outras comidas exóticas?

Isso não vai me pegar, não. No meio do ano eu fiquei uns dias lá, com o Atlético, e já fui com a seleção e deu para ter uma ideia. Estou fora (risos). Por isso estou levando a Bia. Ela vai fazer arroz e feijão todo dia e vai ser o “cara” lá em casa.

O Ricardo Goulart está indo para o Guangzhou Evergrande, também da China. Continuará a rivalidade?

Começa uma nova rivalidade, mas tudo na amizade, como era aqui. Já brinquei com ele uma outra vez e não sei se ele gostou, mas é um cara que tenho uma grande amizade e será legal enfrentá-lo novamente. 

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