Felipe Trueba/EFE
Felipe Trueba/EFE

Técnico islandês diz que estreia será 'maior jogo da história do nosso futebol'

Heimir Hallgrimsson afirma que objetivo da equipe é passar para a segunda fase no grupo com Argentina, Croácia e Nigéria

Jamil Chade, enviado especial / Moscou, O Estado de S.Paulo

15 Junho 2018 | 08h58

Enquanto Lionel Messi e sua seleção atravessam turbulências e um dos melhores jogadores da história terá sua última chance de ser campeão do mundo, do outro lado estará um time que quer provar que sua popularidade e resultados inesperados não fazem parte apenas de um "conto de fadas". A Islândia entrará em campo neste sábado para o jogo mais importante da história de seu futebol e com um grupo que, finalmente, sente que colocou o minúsculo país no mapa mundial.

+ Com meio de campo habilidoso e faca nos dentes, Uruguai desafia Egito

+ Seleção de Tite troca 'jeitinho brasileiro' por futebol científico

+ Marrocos e Irã fazem 'duelo de coadjuvantes' na Arena Zenit

"É o maior jogo da história do nosso futebol", disse o treinador Heimir Hallgrimsson. "Mas não achamos que foi um milagre estar aqui. É trabalho", afirmou.

A Islândia é o menor país do mundo a se classificar para uma Copa e o resultado levou um quinto da nação a comprar ingressos para o Mundial. Se o sentimento é de que a mera participação no torneio já é uma vitória, seu treinador, um dentista nos tempos livres, diz que o time vai entrar para ganhar.

"Nosso objetivo é passar de fase para as oitavas de final. Se isso ocorrer, significa que teremos deixado para trás duas grandes seleções (Croácia e Nigéria), e não iremos mais temer ninguém", disse, referindo-se aos rivais do Grupo D.

O jogo deste sábado é uma batalha entre Davi e Golias e os islandeses sabem que, mesmo que realizarem o melhor desempenho de suas vidas, ainda assim poderão perder. Mas os jogadores do país à beira do Oceano Ártico alertam que eles se classificaram em campo e que a Eurocopa de 2016 foi uma prova de que a equipe pode ser competitiva.

"Não concordo que nossos resultados são milagrosos", repetiu o treinador em pelo menos quatro ocasiões numa coletiva de imprensa nesta sexta-feira. "O time está estável por quatro anos já e somos o 20º colocado no ranking da Fifa. Vencemos jogos importantes e fomos o primeiro em nossa Eliminatória. Merecemos estar aqui", disse.

Uma das tarefas da Islândia é de provar que o resultado há dois anos no torneio europeu, com vitória até sobre a Inglaterra, não foi um acidente. De fato, o time por pouco não se classificou para a Copa de 2014. Numa repescagem, eles acabaram caindo diante da Croácia.

 

Para ele, o trabalho de equipe, organização de sua federação e unidade entre jogadores é o segredo. "Nossos resultados não podem ser um choque. Se alguém ainda está surpreso, não sabe nada sobre nós", declarou. O treinador acredita que seus jogadores desembarcarão amanhã para a partida mais experientes que em 2016 na Eurocopa. "Estamos melhor preparados", disse.

Aron Gunnarsson, o capitão, não escondeu que apenas entendeu a dimensão da partida contra a Argentina quando entrou na sala de entrevista coletiva do estádio do Spartak e se deu conta que estava lotada de jornalistas.

Mas ele garantiu que não está nervoso. "Mal posso esperar para levar o time para campo" , disse o jogador que ficou conhecido mundialmente ao ser o puxador oficial da comemoração coreográfica da torcida islandesa. "Esperamos por anos por esse momento", disse. "Estamos prontos. Claro que será um jogo difícil. Mas não temos muita pressão sobre nós e não temos nada a perder", admitiu. Gunnarson insiste que seu time quer uma vez mais "surpreender". "Queremos começar com força total", disse.

O que ninguém na Islândia sabe responder é como vão parar Lionel Messi. "Não tem fórmula mágica. Já tentaram tudo e ele sempre conseguir marcar [gol]", lamentou o treinador. "O que vamos fazer é que todos terão de ajudar. Não é justo dar a apenas um jogador o papel de marcar Messi", completou.

TORCIDA

Outra arma é a torcida. O capitão lembra que, há poucos anos, um jogo da seleção em sua capital sequer conseguia lotar um estádio de 15 mil lugares. "Hoje, temos os melhores torcedores do mundo", disse.

Já o treinador adotou como estratégia ir até os bares do país para buscar apoio da torcida local e criar um clima de confiança. "Conhecemos nossos torcedores e essa proximidade nos da confiança", disse. "Isso mostra unidade e o respeito que podemos receber", explicou.

Mas ele também aproveita a popularidade da imagem do time pelo mundo. "Como é que alguém pode não amar a Islândia. Não atacamos ninguém e só tivemos a guerra do bacalhau e ninguém ficou ferido", disse.

FUTURO

Se a seleção do minúsculo país entra em campo para um jogo histórico, o treinador e seu capitão sabem que essa Copa não é o final da história. "Não vamos cair por apenas três jogos. Nosso objetivo é melhorar o time e olhar para o futuro", disse. "Vamos ter de progredir", insistiu.

Desde 2016, a federação passou por um processo de profissionalização. Um novo preparador físico foi contratado e a entidade aumentou seu número de funcionários para atender à seleção.

A trajetória mostra, de fato, que a classificação não ocorreu por azar. No ano 2000, a federação e o governo fecharam uma estratégia para difundir o esporte pelo país, inclusive para lidar com as drogas e envolver a juventude num país gelado. Centros de treinamentos cobertos foram erguidos, enquanto todas as escolas do país passaram a ter locais para jogar futebol. Dez anos depois, a Islândia entrou para o grupo das 100 melhores seleções no ranking da Fifa e hoje está entre os 20.

Se a atenção também aumentou, a pressão também passou a ser uma novidade para os atletas. Antes da Eurocopa, os garotos do time eram apenas jogadores de futebol numa ilha distante da Europa. Hoje, são heróis nacionais.

Com ou sem o fim de um conto de fadas, o treinador admite que continua mantendo seu outro emprego na ilha ao sul da Islândia, Heimaey. "Sou dentista e continuarei sendo dentista o resto de minha vida", completou.

Segundo ele, se a Islândia passar de fase, o sentimento é de que eles poderão vencer "qualquer um". A batida dos relógios de Moscou à meia-noite, portanto, não significarão que voltarão a usar uma carruagem de abóbora.

 

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.