Nilton Fukuda/Estadão
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Robson Morelli
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Técnico sem fronteira

É preciso reconhecer que o futebol brasileiro precisa de mais inteligência e qualidade

Robson Morelli, O Estado de S.Paulo

29 de julho de 2019 | 04h00

Sempre nos encheu de orgulho ver um dos nossos brasileiros do esporte, futebol ou não, brilhar lá fora. Já tivemos muitos. No futebol, todos aqueles eleitos o melhor da Fifa depois comer a bola nos times da Europa levavam consigo um pouquinho do Brasil. Portanto, um pouquinho de nós todos. Nos bons tempos, e não faz tanto tempo assim, dizer que era brasileiro em Copas do Mundo, por exemplo, era motivo de reconhecimento por parte dos estrangeiros, mesmo sem nunca ter feito um gol sequer na carreira. De alguma forma, “carregávamos” também o DNA de Didi, Pelé, Tostão, Romário, Rivaldo, Ronaldo, Kaká e tantos outros que encheram o torcedor de alegria mundo afora.

Da mesma forma, ainda nos melhores momentos, passamos a exportar treinadores. Sempre fizemos isso. Mais recentemente, mandamos dois deles para grandes da Europa, para o continente que inventou o futebol e fez dele uma paixão. Mas não só. Vanderlei Luxemburgo, o estrategista, comandou o Real Madrid, e Luiz Felipe Scolari esteve à frente do Chelsea e da seleção de Portugal, mudando, inclusive, a condição de “vira-lata” desse país no quesito confiança. Eles eram, na época, o que tínhamos de melhor na profissão. Dava orgulho ver dois brasileiros comandando uma legião de craques que aprendemos a admirar.

Essa nossa condição foi perdida, e os jogadores brasileiros já não brilham mais como antes. Das últimas Copas, desde a conquista brasileira do penta em 2002, com Felipão, somente seleções europeias ficaram com o título mundial – 2006 foi a Itália; 2010, Espanha; 2014, Alemanha; 2018, França.

O futebol brasileiro desceu degraus. O Brasil é respeitado e sempre será, mas muito mais pelo passado do que pelo que anda fazendo no presente. Nosso melhor jogador na Europa é Neymar, nesse momento sem rumo. Os demais são coadjuvantes, embora continuamos a imaginar que surgirá um excepcional – o último brasileiro melhor do mundo foi Kaká, em 2007.

Dentro do País, afundamos. Praticamos alguma coisa que não é mais aquele futebol. Abolimos os carrinhos e passamos a andar de carroça em campo. Não há bons atletas. Não há boas jogadas. Não há dribles. Não há artilheiros. Não há mais paciência. Se ainda há, está no limite. Aplaudimos lampejos.

A conclusão então é óbvia. Temos de mudar. Temos de recuar. Temos de nos reciclar. Temos de nos resignar. Temos de nos reencontrar. O Estado se propôs recentemente a debater o futebol praticado no Brasil, ouvindo personalidades e pedindo soluções. Há boas ideias nesse trabalho. E nenhuma absurda. Melhor. Nenhuma que esteja longe das condições dos clubes. O que não temos mais em demasia, importamos, como atletas e treinadores. Ora. As fronteiras já estão abertas.

Me parece conclusiva e oportuna a decisão da CBF de entregar a seleção feminina de futebol para uma sueca, Pia Sundhage. Há uma mensagem aí. “Precisamos de técnicos estrangeiros no futebol”. Na verdade, defendo o que chamo de “técnico sem fronteira”, aquele que é bom e importante em qualquer lugar do mundo. Pep Guardiola é um deles. Carlo Ancelotti, outro. Não há muitos desses. Mas há uma fornalha indo para o mercado. Sampaoli, do Santos, é um. Jorge Jesus, do Flamengo, outro. O futebol nacional precisa deles no País, gostem ou não os “professores” brasileiros. Os humildes vão saber tirar proveito dessa presença e se tornar melhor. Vão ajudar a resgatar o futebol do nosso País e não a perpetuar o que se joga atualmente.

A verdade é que pouco interessa a nacionalidade do treinador. O que o futebol brasileiro precisa é de mais inteligência, ousadia, coragem, qualidade, confiança e todas aquelas características que nossos jogadores e técnicos tinham e não têm mais.

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