Rodrigo Coca/Ag. Corinthians
Rodrigo Coca/Ag. Corinthians

Licença de técnico na América do Sul vai valer para dirigir times na Europa

Parceria da Conmebol com a Uefa resolve antiga reivindicação dos treinadores brasileiros, que reclamaram da dificuldade em conseguir emprego nos times do Velho Continente; confederações vão abrir escritório em Londres para vender seus campeonatos

Robson Morelli, O Estado de S.Paulo

17 de dezembro de 2021 | 15h00

A Conmebol e a Uefa estão de mãos dadas para uma série de parcerias em 2022. Uma delas é a unificação da licença para treinadores. Isso significa que os técnicos sul-americanos poderão trabalhar normalmente na Europa. A decisão derruba as fronteiras que sempre separaram os dois continentes. Os últimos acertos já estão sendo redigidos. Para os treinadores brasileiros, a regulamentação das duas confederações abre um mercado maior de trabalho, sem a exigência e necessidade de cursos complementares.

Conversas nesses sentidos, de aproximar o futebol e as regras sul-americanas da expertise europeia, já estão sendo firmadas há pelo menos três anos, muito antes de as duas confederações se unirem para combater as novas ideias da Fifa, a principal delas diz respeito à realização de Copas do Mundo a cada dois anos. Conmebol e Uefa são contrárias à iniciativa. 

Tanto para a Conmebol quanto para a Uefa, o torneio de seleções da Fifa inviabilizaria a aposta nas competições de clubes, como Liga dos Campeões e Libertadores, duas das principais disputas de times dos dois continentes. A Fifa perde terreno nessa briga porque o calendário dos torneios de clubes são mais extensos e cada vez mais interessantes, enquanto que a disputa de seleções, embora mágica, é feita a cada quatro anos e durante um mês apenas. Em 2022, a Copa do Mundo será no Catar, começando dia 21 de novembro e com a final marcada para 18 de dezembro.

A licença conjunta para treinadores da Confederação Sul-Americana de Futebol (Conmebol) e Uefa é o primeiro passo dessa união. Todos os técnicos sul-americanos serão beneficiados. A Conmebol pode ainda se valer da experiência de um de seus maiores problemas, inclusive no Brasil: o uso do VAR. O árbitro de vídeo já se mostrou eficaz, mas ele sofre no futebol brasileiro, com árbitros ruins e despreparados, diferentemente das partidas dos campeonatos nacionais na Europa, como Inglês, Alemão e Espanhol, por exemplo. Uma parceria para aprimorar esse uso pode ser feita em breve.

A Conmebol já tem como modelo algumas decisões adotadas pela Uefa, como a decisão da Libertadores em jogo único e em um país neutro, como foi a deste ano, entre Palmeiras e Flamengo, em Montevidéu, no Uruguai. As cotas pagas em dinheiro ao campeão também faz com que os clubes da Libertadores se interessem cada vez mais pelo torneio. Há dinheiro e prestígio em jogo, uma cópia fiel da Liga dos Campeões da Europa, cujo vencedor da edição passada foi o inglês Chelsea.

Escritório em Londres

Um escritório em Londres também está sendo montado para que as duas confederações possam ter um ponto em comum para negociar melhor seus torneios. A Uefa já está por lá. O futebol sul-americano está chegando. Para se ter uma ideia da importância desse local físico na Inglaterra, basta tomar ciência de que a final da Libertadores deste ano foi mostrada para 192 países ou territórios. Vender e negociar o futebol da Conmebol é o que move a iniciativa. A CBF está junto com os dirigentes da Sul-Americana nessa empreitada. Quatro países levantaram a mão para falar na cerimônia dos cartolas em meio a decisão do Palmeiras com o Flamengo: Brasil, Colômbia, Argentina e Uruguai. Todos eles apoiam a Conmebol em tudo o que ela faz. E estão de olho no que podem ganhar com essa parceria na Europa.

De Londres, Conmebol e Uefa poderão mostrar a força de suas competições de clubes para o restante do mundo, globalizar suas marcas e oferecer o jogo praticado nos países sul-americanos. O futebol brasileiro e argentino são os que mais despertam interesse nos torcedores, patrocinadores, agentes e público em geral.

Espera-se, com a aproximaçção do futebol dos continentes, que a classe dos dirigentes sul-americanos evolua, de modo a deixar os torneios nacionais mais fortes e mais bem organizados. Um terceiro passo pode ser a unificação dos calendários, seguindo o padrão europeu. Isso tornaria o trabalho de transferência de jogadores brasileiros, por exemplo, mais fácil.  

"Sentimos uma grande satisfação pelos frutos que estamos colhendo junto com a Uefa a partir do excelente relacionamento entre nossas instituições. Com a assinatura desta renovação e extensão de nosso memorando de entendimento, estamos lançando as bases para que esta cooperação cresça e se desenvolva. A abertura de nosso escritório conjunto em Londres nos permitirá assumir novos projetos com agilidade e vigor para o benefício de milhões de torcedores em nossos continentes e ao redor do mundo", disse Alejandro Domínguez, presidente da Conmebol. Em 1º de julho, um desses eventos juntos já está marcado. Trata-se de um jogo entre Argentina e Itália, do campeão da Copa do Brasil com o vencedor da Eurocopa. A partida será em Londres.

Conmebol mais forte politicamente

Além da troca de experiência, que pode fortalecer o futebol menos desenvolvido no sentido de gestão e arrecadação, a união entre Conmebol e Uefa também tem interesses políticos. Juntas, as duas confederações são mais fortes na mesa de negociação. Vale lembrar que a América do Sul tem apenas dez votos em todas as decisões propostas pela Fifa. Ao lado da Uefa, a representatividade da América do Sul cresce e ganha importância para, por exemplo, escolher o próximo país-sede de uma Copa do Mundo.

Uma quarta intenção da parceria, segundo o Estadão apurou, é fortalecer o futebol feminino. O Brasil já está mais avançado nesse segmento em relação aos seus vizinhos do continente. Clubes como Barcelona, PSG e outros estão muito mais adiantados do que seus colegas da América do Sul. A licença de treinadores também vale para o futebol feminino, o que coloca as duas modalidades em condições de igualdade.

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