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Técnicos na gangorra

Carille goza da fama crescente e foi para o mundo árabe. Jair sente a ameaça de dispensa

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

23 de maio de 2018 | 05h00

Carreira de técnico de futebol é instável pra chuchu, varia conforme os humores de dirigentes e torcedores – além, claro, de estar atrelada a resultados. Hoje, o professor ganha tudo e vira deus; amanhã, a equipe desanda a perder e o mandam para o quinto dos infernos. Como outra contradição, eis aí profissão em que o sujeito, mesmo que acumule demissões, sempre encontra uma portinha aberta no mercado. Para o ciclo recomeçar...

Por isso, há muito não fico do lado dos que consideram treinador um reles mercenário, disposto a trocar de casa por quaisquer trinta dinheiros. A relação dele com o clube não precisa caracterizar-se por amor e fidelidade – esses são atributos exclusivos e inalienáveis dos fãs. Taí por que acho que o Carille faz bem de aventurar-se.

Técnico e clube têm obrigação de relacionar-se com profissionalismo e respeito. Um paga e outro entrega o melhor de si na gestão de atletas. Quando não há mais compatibilidade, ou uma das partes acha que deve tomar rumo diferente, dá-se a ruptura e vida que segue. 

Agora mesmo dois “comandantes” de times importantes de São Paulo estão na berlinda – um pra cima (Fábio Carille), outro com a batata a assar, para ficar no popular (Jair Ventura). Um decidiu trocar de casa, por livre e espontânea vontade, o outro pode sofrer com a dispensa sumária. 

Momento perfeito é o de Carille. Ficou uma semana encabeçando o noticiário por causa da inicialmente suposta, eventual, pretensa possibilidade de transferir-se para o futebol árabe. A informação veio, esparramou-se, fez barulho e até estressou o personagem central. O técnico bicampeão paulista e campeão brasileiro chutou o balde, ao garantir que tudo era fruto de especulações, pois “grande parte da imprensa mente”. Mandou ver no alvo preferido de 100 entre 100 personalidades, a vilã do mundo. No final, toma o rumo da Arábia... Que coisa, não? 

Independentemente do desfecho da história, não tiro certa razão dele. De fato, neste meio tem quem goste de barulho, há os fissurados em cliques, “likes”, retuítes, acessos a vídeos e coisas do gênero. Enfim, existem chutadores e paraquedistas, fora os engraçadinhos e jornalistas de ocasião, a ocuparem espaço nos meios de comunicação à espera de “atividade melhor”. Esses não têm compromisso com ética e empurram os demais para a vala comum.

A maioria, porém, é gente honrada e batalhadora, como em toda profissão. Repórteres eficientes apuraram que havia interesse árabe e divulgaram a notícia. Informação que significava prestígio e não demérito para um treinador de talento. Carille reviu os termos do desabafo contra jornalistas, admitiu exagero e... assinou com árabes.

Escrevi na crônica anterior e repito: ele tem direito de decidir o que considera melhor para si e família. Se entendeu que a oferta é atraente, que encare o desafio e seja feliz. Sem preocupar-se com maledicências inevitáveis.

Com qual direito se vai criticar a perspectiva de alguém subir na vida, depois de ralar anos a fio à sombra de nomes famosos como Mano e Tite? Os corintianos farão bonito se amanhã, em casa, no jogo com o Millonarios, demonstrarem gratidão, aplaudindo Carille. E foco no futuro.

No outro lado, recomenda-se que Jair não guarde muitos objetos pessoais no armário e em sua sala na Vila. A fritura começou, e ele já se deu conta disso. O Santos oscila, aumenta o número de derrotas na mesma proporção do descontentamento de setores influentes. Não falta quem crave o fim da aventura (sem trocadilho com o sobrenome), se ocorrer tropeço diante do Garcilasso.

O Santos atual tem limitações, Jair sofre consequências disso e talvez não vença o desafio. Se cair, será apresentado à dura realidade da atividade dele. Quem sabe com saudade do reconhecimento que tinha no Botafogo.

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