Técnicos na marca do pênalti

Atrasos nos salários, demissões e falta de direitos criam um calvário na vida dos treinadores das Séries C e D

GONÇALO JUNIOR, O ESTADO DE S. PAULO

18 Agosto 2013 | 08h30

SÃO PAULO - Luís Antonio Zaluar está no terceiro casamento. As duas primeiras esposas pediram o divórcio porque não aguentavam a vida cigana que obrigou o treinador a morar em oito cidades em sete anos. Ao longo da carreira, já foram 34 clubes, quase sempre pequenos, que nem sempre pagam em dia. Isso também pesou na decisão das ex-mulheres. Alessandra da Silva Tomé, sua companheira desde 2006, aguenta firme. “Sempre largamos a vida por um time, mas meu time é a minha família. Aonde ele for, eu vou”, diz a secretária, que cursa Administração de Empresas à distância para não precisar abandonar um curso presencial quando o novo emprego do marido chegar.

Zaluar conquistou alguns títulos estaduais e estudou bastante (tem pós-graduação e sabe falar inglês e árabe). Mesmo assim, está desempregado desde maio. Foi demitido do Goytacaz, de Campos (RJ), pelo telefone, sem muitas justificativas. Mais ou menos o que aconteceu com o tricampeão brasileiro Muricy Ramalho quando saiu do Santos. “Eu me sinto decepcionado e frustrado com o futebol, mas não vou desistir. Já estou estudando algumas propostas. Só queria uma oportunidade em um time grande”, conta o treinador de 50 anos.

Zaluar é a voz de um anseio que já dura décadas no Brasil. O treinador de futebol, principalmente aquele que atua nos clubes menores, briga para ser reconhecido. “Não existe uma legislação trabalhista para a categoria. Ele não é protegido pela lei. Se houver uma disputa com um clube, a corda sempre vai arrebentar do lado mais fraco”, diz José Teixeira, um dos diretores do Sindicato dos Treinadores de São Paulo, escorado em 55 anos de profissão.

A ausência de uma legislação trabalhista significa que os treinadores sofrem com problemas que para as outras categorias são simples. Como carteira de trabalho assinada, por exemplo, raridade nas Séries C e D do Campeonato Brasileiro. “Eu sei que sou uma exceção”, comenta Anderson Batatais, do Mirassol, que sempre trabalhou registrado, com fundo de garantia e férias, nos seus sete anos de carreira como treinador.

A responsabilização do técnico por qualquer sequência ruim de resultados e a consequente demissão não são os problemas maiores. Mandar embora é um direito do clube, reconhecem os técnicos. A questão é a maneira como são feitas as demissões. Na maioria delas, o contrato de trabalho (quando existe) simplesmente não é respeitado. Zaluar já entrou na Justiça cinco vezes para tentar receber salários atrasados e contabiliza três ações ganhas. Falta recebê-las. Paulo Roberto Santos, que tenta tirar o Santo André da Série D, ainda aguarda o desfecho de uma ação contra um ex-clube.

De tão abrangente, o problema dos técnicos virou questão parlamentar. Em 1993, foi sancionada pelo então presidente Itamar Franco a Lei 8650, que determina que os contratos dos treinadores com os clubes sejam registrados nas respectivas federações estaduais. É o básico para que o treinador comece a ser respeitado, mas ainda não saiu da gaveta, passados 20 anos. “Estamos lutando por uma lei que já existe, mas não é cumprida”, explica o treinador Fernando Pires, que atua na Associação Brasileira dos Treinadores de Futebol, no Rio de Janeiro. Pires aguarda uma audiência com o ministro do Esporte, Aldo Rebelo, para apresentar um ofício com a assinatura de grandes treinadores a favor da lei.

“Noventa por cento dos treinadores não têm direito aos benefícios trabalhistas. Eles vivem uma realidade diferentes dos técnicos das Séries A e B”, diz Vágner Mancini, do Atlético Paranaense (Série A), que está mobilizando os treinadores para a criação de uma federação para lutar pela profissão. “A Série A não reflete a realidade do treinador brasileiro”, concorda Ivan Baitelo, do Botafogo-SP, da Série D.

A categoria, inclusive os técnicos dos times grandes, é tão discriminada – termo usado por um dos treinadores – que não há estatísticas confiáveis sobre seu tamanho. O que se sabe com certeza é que o bolso dos técnicos dos times pequenos dói. Embora muito distantes da realidade dos grandes clubes, os vencimentos não são baixos – variam entre R$ 3 mil e 10 mil, de acordo com a estrutura do clube, a região do País e a divisão que se disputa. O valor mais baixo representa quase seis salários mínimos (R$ 678). O problema é que são “salários virtuais”, como mencionou um técnico, e não têm data para cair na conta. Os atrasos podem ser de dois, três, quatro, cinco meses.

Essa situação produz dificuldades na casa de Zaluar. É Alessandra quem está segurando as pontas financeiras com o emprego de assistente administrativa no Instituto Cultural Casa da Flor, em São Pedro da Aldeia, no Rio de Janeiro. Zaluar contribui com as economias feitas nas duas temporadas em que trabalhou na Arábia Saudita e no Catar. “As contas não esperam”, resume Alessandra.

Paulo Roberto também escapou da arapuca por causa de um pé de meia feito na Arábia Saudita. “Nós vivemos uma realidade muito instável, sem segurança. A Arábia me deu sustentação”, diz o técnico do Santo André, que se orgulha de ter conseguido comprar duas boas propriedades no interior de São Paulo. Nos anos 90, o mundo árabe era uma válvula de escape para os treinadores brasileiros, mas agora as chances estão rareando. Os árabes andam preferindo os espanhóis, que estão na moda. “Para o mundo árabe, foram os espanhóis que inventaram o toque de bola. Pode uma coisa dessas?”, questiona Zaluar.

Coerentemente, os sonhos desses treinadores também são modestos e bem próximos das pessoas comuns, que nem saberiam o que fazer com um salário de R$ 300 mil por mês, valor médio de um treinador de Série A. Junior Rocha é o técnico do Luverdense (MT), equipe sensação da Copa do Brasil – vai enfrentar o Corinthians – e que disputa a Série C por cinco anos seguidos, motivo de satisfação para a torcida. Diante da pergunta sobre o sonho de sua vida, o treinador de 32 anos se lembra dos pais, que moram em São Leopoldo (RS). “Queria trazer meus pais para morar aqui. Eles já trabalharam muito e acho que precisam descansar perto de mim”, conta ele, que dirige seu primeiro time profissional.

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