Fabrice Coffrini/AFP
Durante a Copa, Valcke tinha tratamento de chefe-de-estado no Brasil  Fabrice Coffrini/AFP

TEIXEIRA FORÇOU CONTRATAÇÃO DE VALCKE NA CAMPANHA DO BRASIL PARA COPA

Só caderno de encargos produzido para Copa custou R$ 1,2 milhão

Jamil Chade e Andreza Matais, de Genebra, O Estado de S.Paulo

20 de junho de 2015 | 17h00

Como presidente da CBF, Ricardo Teixeira forçou a contratação de Jérôme Valcke pela agência de publicidade MPM na época em que a firma trabalhava para a entidade na organização da campanha do Brasil para sediar a Copa do Mundo de 2014. A MPM, entre 2007 e 2008, era presidida pela publicitária Bia Aydar, amiga de Teixeira, e tinha como sócio majoritário o grupo ABC, dos publicitários Nizan Guanaes e Guga Valente. 

No total, a CBF pagou R$ 1,2 milhão para que a MPM e Valcke produzissem um caderno de encargos, documento que reúne informações do país em campanha para receber o Mundial. O Brasil concorria sozinho e existia um acordo entre as federações de que o Mundial seria no País. 

Por meio da assessoria, Bia falou pela primeira vez sobre a contratação de Valcke ao ser questionada sobre a contratação pelo Estado. “Houve uma determinação, uma ordem do presidente da CBF para que Valcke fosse contratado. O dinheiro era do contratante, não cabia a ela questionar uma determinação”, disse. No total, a MKM desembolsou 100 mil euros do contrato com a CBF para bancar a consultoria de Valcke na campanha pela Copa do Mundo. Procurada, a CBF disse que não comentaria assunto relacionado a gestão anterior.

TRATAMENTO VIP

Documentos aos quais o Estado teve acesso revelam oito anos depois que o “consultor” Valke recebeu da MPM tratamento de “chefe de estado”. Na primeira semana de fevereiro de 2007, ele saiu de Paris para São Paulo numa viagem que durou menos de 12 horas no Brasil. Valcke pousaria pela manhã e embarcaria de volta para a Europa no fim do dia.

No curto período, teve direito a quarto no luxuoso hotel Emiliano – onde ficaria menos de duas horas – e pegaria quatro voos de helicóptero para atender a seus compromissos.  Ele visitou e foi recepcionado da África por Guga Valente; conheceu a DM9 e, por fim, seguiu para a sede da MPM. Horas depois, desembarcou de volta a Paris. 

“A contratação de Jérôme Valcke foi realizada pela MPM, e todo o processo de contratação foi conduzido pela agência. A MPM levou Jérôme Valcke para conhecer o grupo do qual a MPM fazia parte”, afirmou ao Estado a assessoria da Grupo ABC.

No caderno aprovado por Valcke, a CBF apresentaria à Fifa 18 cidades candidatadas para receber a Copa. Apenas quatro estádios seriam construídos e o documento ainda apontava que o Morumbi seria o local do Mundial em São Paulo. Três anos depois e já na Fifa, o mesmo Valcke indicou que o Morumbi não teria condições de receber a Copa e o Itaquerão foi erguido.

O documento final seria produzido pela MPM e assinado por seu então vice-presidente, Rui Rodrigues, que estampou sua foto no caderno. O nome de Valcke não aparece no documento. Conforme o ABC, Rodrigues se desligou do grupo. Em 2008, a CBF anunciou que desistiu de contratar a MPM para atuar na Copa do Mundo.

FIFA

Meses antes do contrato como consultor da MPM, Valcke atuava como diretor de Marketing da Fifa. Ele deixou o cargo depois de a entidade máxima do futebol ser condenada nos Estados Unidos a pagar US$ 90 milhões por irregularidades nas negociações da Fifa com a Visa e Mastercard tocadas por ele. 

Segundo a corte americana, Valcke “mentiu” nas negociações. Ainda assim, ele não seria expulso da Fifa e continuaria recebendo salário. Em sua volta, seria promovido e ganharia um novo cargo: o de secretário-geral e braço direito de Joseph Blatter. Foi nesse período enquanto esteve afastado que ele foi contratado pela MPM.

Nos anos que se seguiriam ao cargo de consultor da agência de publicidade, Valcke construiu uma relação de proximidade com Teixeira. Nas festas de fim de ano de 2007 e 2008, o francês levou sua família para a casa do brasileiro em Angra dos Reis. Em 2009, antes do Congresso da Fifa nas Bahamas, Valcke também visitou o brasileiro, desta vez em Miami. Hoje, seu filho é consultor de Marketing da CBF. 

A relação entre Bia Aydar e a CBF também não se limitaria ao Mundial. Seria ela quem intermediaria em 2012 contratos da Nestlé para entrar como parceira da CBF.  Em 2014, a entidade ainda completaria 100 anos e, dois anos antes, todos os direitos dos eventos relativos à comemoração foram cedidos de forma exclusiva a Bia Aydar. Para evitar que a CBF tivesse de pagar a empresa da amiga de Teixeira, o então presidente da entidade em 2014, José Maria Marin, optou por não comemorar os 100 anos do futebol mais vitorioso do mundo.


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Ex-integrante da campanha australiana ataca cartolas da Fifa

'O objetivo era fazer o dirigente feliz', afirma a executiva Bonita Mersiades, que brigou para a Austrália receber a Copa de 2022 

JAMIL CHADE / CORRESPONDENTE GENEBRA, O ESTADO DE S.PAULO

20 de junho de 2015 | 17h00

A meta das campanhas de países para sediar a Copa do Mundo era descobrir o que faria cada um dos membros da Fifa feliz, e não ter o melhor projeto técnico. Quem faz a revelação é Bonita Mersiades, executiva do alto escalão da candidatura fracassada da Austrália para receber a Copa de 2022. 

A Fifa vive há três semanas um terremoto diante da prisão de cartolas e das revelações de que o FBI suspeita que governos e países compraram votos de membros do Comitê Executivo da entidade que escolheu as sedes das Copas. Entre aos Mundiais sob suspeita estão os de 1998, 2002, 2010, 2018 e 2022. 

Agora, uma das líderes de uma das campanhas para receber a Copa relata detalhes de como agiam para conseguir votos na Fifa. “O objetivo era fazer o dirigente feliz e descobrir o que é que lhe agradaria”, contou Mersiades. “Isso era mais importante do que ter um projeto perfeito para a Copa do Mundo ou um legado.” 

Ela chegou a ser entrevistada pelo investigador da Fifa, Michael Garcia, e garante que repassou a ele informações importantes. Algumas delas poderiam por si só invalidar o processo de escolha das sedes. 

Mas acabou sendo traída pela cúpula da Fifa e, apesar do depoimento ter sido secreto, o seu nome foi revelado ao público pela entidade no ano passado. Sua tese é de que teve seu nome revelado como punição por ter entregue as práticas das candidaturas e dos cartolas em Zurique.

Segundo ela, em 2009 os australianos chegaram a gastar US$ 2,5 mil para dar um colar de pérolas para a mulher de um vice-presidente da Fifa, Jack Warner. Outras esposas também receberam presentes parecidos. 

Em outra ocasião, ela conta como os australianos pagaram US$ 300 mil para que a seleção Sub-20 de Trinidad e Tobago viajasse para um torneio em Chipre. Quem recebeu o dinheiro das passagens e da operação foi justamente a agência de propriedade de Warner.

Ela ainda contou como o então primeiro-ministro australiano, Kevin Rudd, viajou até o Caribe para se reunir com Warner. Na viagem, o debate seria o presente que ele levaria. A ideia do político era uma garrafa cara de vinho. Mas ele foi desaconselhado e, no lugar de uma só garrafa, o presente foi substituído por uma caixa inteira de vinho. 

“Existia a candidatura oficial, que era a dos cadernos de encargos e todo o processo burocrático, e depois existia a candidatura extra-oficial, que envolvia tudo isso”, contou.  Ela diz que nunca conversou sobre a candidatura da Austrália com Ricardo Teixeira. Mas confessou que sua equipe havia montado um dossiê sobre o brasileiro. 

“Você pode ter certeza que eu sei tudo sobre ele. Onde tem suas fazendas, quais são seus hobbies e até que ele tem interesse especial por certos assuntos. Fizemos um mapeamento completo de Teixeira e do que lhe agradava.”

Segundo ela, tudo isso poderia ter sido legítimo. “O problema é que, ao final, o sistema convidada a que os países buscassem agradar o eleitor e não estabelecer um sistema pelo qual o melhor venceria.” 

Teixeira era acompanhado pelo lobista Fedor Radmann, que se ocupava em agradar e convencer o brasileiro da candidatura australiana. Se a Austrália fosse escolhida, o consultor levaria US$ 3,6 milhões. Radmann já havia trabalhado na candidatura polêmica da Alemanha para a Copa de 2006, e acabou sendo demitido em 2003 diante de um escândalo de conflito de interesses que foi revelado. 

Para Mersíades, a realidade das candidaturas revela que apenas mudar Joseph Blatter não será suficiente para romper com uma estrutura de poder na Fifa. “A reforma precisa ser completa, inclusive da forma pela qual países apresentam suas candidaturas.” 

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