Gilberto Almeida / Agência Estado
Gilberto Almeida / Agência Estado

Grampo mostra que Teixeira pediu ajuda para ir ao Catar sem ser preso

Brasileiro é suspeito de ter recebido propinas em contas em Mônaco em troca de votos pelo Catar sediar a Copa de 2022

Jamil Chade, enviado especial a Zurique, O Estado de S.Paulo

19 Janeiro 2018 | 12h16

O ex-presidente da CBF Ricardo Teixeira pediu a ajuda do ex-presidente do Barcelona, Sandro Rosell, para ir ao Catar, sem que fosse preso. O brasileiro foi indiciado nos EUA por corrupção e, se sair do Brasil, seria detido extraditado para Nova Iorque. O Catar é suspeito, por sua vez, de ter pago propinas a Teixeira em troca de seu voto na Fifa para garantir que a sede da Copa de 2022 fosse no país árabe. Mas numa conversa grampeada pela Justiça da Espanha, em 2017, o brasileiro deixa claro que buscava sair do Brasil e dava duas opções: Catar o Tailândia.

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O Estado revelou no final do ano, com exclusividade, novas contas relacionadas com Teixeira em Mônaco e depósitos originários do Catar. O ex-cartola nega qualquer irregularidade e diz que a conta estava declarada. Uma das gerentes do banco, porém, confirmou ao Estado que, nos documentos do brasileiro em Mônaco, a direção do banco exigia que fosse omitido qualquer referência ao futebol em suas transações e informações.

A existência da conversa entre Teixeira e Rosell já havia sido revelada pela Justiça da Espanha, no ano passado. Mas seu conteúdo era ainda mantido em sigilo. Rosell acabou preso por ser um dos organizadores de uma suposta rede criminosa que usava a seleção brasileira para desviar milhões de dólares. A denúncia foi revelada com exclusividade pelo Estado em 2013.

Teixeira, no Brasil, recebeu um mandado de prisão internacional. O Ministério Público Federal pediu que o caso fosse transferido ao Brasil e agora avalia medidas.

O pedido relacionando Rosell ao Catar não ocorre por acaso. O catalão foi quem fechou o acordo com o país árabe para patrocinar o Barcelona. 

Nesta sexta-feira, a Justiça da Espanha negou uma vez mais a Rosell um pedido para que ele acompanhe seu processo em liberdade. Para justificar sua manutenção em prisão, os juízes citam textualmente a conversa entre o catalão e o brasileiro, seu parceiro comercial. A conversa seria um indício da capacidade que Rosell teria para escapar da Espanha e evitar uma prisão.  

“Ele (Rosell) moveu suas influências para conseguir um refúgio blindado de extradição”, afirma, numa referência a uma conversa mantida por Rosell no dia 16 de abril de 2017 com Ricardo Teixeira.

A conversa cita um certo Tamine, sem detalhar quem seria o alvo da influência. O emir do Catar, porém, é Tamim bin Hamad Al Thani. O governo do Catar é suspeito de ter sido a origem do dinheiro de Teixeira em Mônaco, além de ter destinado recursos para bancar um amistoso da seleção, ainda em 2010.

Nos EUA e na Suíça, o Catar é investigado por ter comprado votos para a Copa do Mundo de 2022. Um dos suspeitos de ter sido comprado era justamente Teixeira. 

Na conversa, o brasileiro cita primeiramente Dubai, que fica nos Emirados Árabes Unidos. Mas depois é corrigido por Rosell, que o questiona se o que ele quer é ir ao Catar. Teixeira responde de forma afirmativa.

CONFIRA A CONVERSA

Teixeira – Outra coisa importante que queria te dizer é o seguinte: ele vai conseguir para mim, porque conhece pessoas na Tailândia e Dubai, você sabe, não?

Rosell - Sim, sim.

Teixeira – Ok. Pois me consegue uma licença para que eu va la sem que nada me ocorra. Que ruim está o telefone. 

Rosell – Não é meu. Mas ir onde?

Teixeira – Ao local.

Rosell – Mas onde? Na Tailândia? 

Teixeira – Sim

Rosell - Para que você possa ir a Tailândia?

Teixeira - Sim

Rosell – Maravilha

Teixeira – Mas o que eu queria não era isso. O que eu queria era que você olhasse a possibilidade de que eu conseguisse o mesmo com Tamine. 

Rosell – Ah, sem problemas. Para ir para o Catar?

Teixeira – Sim sim. Mas quero que me garanta que não me pegam. E também que não querem entregar as pessoas.  

Rosell – Não, não, não. Nada. O único lugar que penso que é perigoso para você, logicamente, é na casa dos gringos e, logicamente, na Europa. 

Teixeira – Não. Não. Europa, nem falar. 

Rosell – E os gringos tampouco, no resto do mundo, em minha opinião, não tem nenhum problema. Mas vamos estar seguros, porque em duas semanas eu estarei la. 

Estarei com Tamine e pergunto a ele. Vou pedir. Não perguntar. 

Teixeira – Você diz que Ricardo quer ir la, mas necessito uma garantia dele. Você o convida para ele entre e saia de la. 

Rosell, que perdeu uma vez mais seu recurso, tem mais de 30 milhões de euros em seus bens bloqueados pela Justiça. Se condenado, ele poderia pegar até nove anos de prisão. Uma oferta ainda foi feita para que ele depositasse uma fiança de 400 mil euros. Mas os juízes determinaram que isso não seria suficiente para impedir uma eventual fuga sua, já que ele teria negócios na África, Ásia e América Latina.

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