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Antero Greco
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Telê e Tite

Em tempos estranhos, bicudos e nebulosos, de trapaças, conchavos e traições, refresca a alma lembrar de brasileiros honrados. O feriado desta quinta-feira reverenciou Tiradentes, aquele que 200 e tantos anos atrás morreu para não trair a pátria. Serviu também para homenagear a memória de Tancredo e Telê, mineiros batutas que há muito circulam em outro plano.

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

22 de abril de 2016 | 03h00

Mestre Telê partiu uma década atrás, carregado de títulos, carinho, prestígio e admiração. Não deixou discípulos fervorosos – por aqui não se ama muito o futebol ofensivo. Ao menos fez escola pela retidão, pela postura simples e direta no tratamento com cartolas e atletas. Nesse aspecto, tem em Tite sucessor à altura.

O treinador corintiano distancia-se de Telê na, com o perdão da palavra, filosofia de jogo. Não se mostra fervoroso defensor de esquemas agressivos como o gênio de Itabirito; tampouco é retranqueiro de carteirinha, embora suas equipes armazenem 1 a 0. Digamos que fica no meio-termo: ao ataque, quando possível, como na surra de anteontem no Cobresal (6 a 0), e à defesa com frequência. Para ser mais exato e justo: vive à cata do equilíbrio.

Eis o ponto. Os times sob o comando de Tite não costumam encantar pela exuberância ofensiva, como foram muitos de Telê, sobretudo Galo, Palmeiras e Seleção. Mas, à medida que o tempo passa e o professor gaúcho amadurece concepções, se tornam mais sólidos, eficientes, práticos e letais.

O Corinthians de hoje é exemplo pronto do Titeísmo, se o neologismo não ofender ouvidos sensíveis. Mantém o domínio do jogo, sem exagerar nos toques de bola, sem o rococó de rebuscar as jogadas. Quase minimalista: marca, pressiona, recupera a bola, vai à frente, aperta, arrisca a finalização. Se fizer o gol, ótimo. Caso contrário, recomeça tudo, e recomeça, e...

A constância levou o Corinthians a conquistar tudo sob o olhar atento de Tite. A convicção no caminho a seguir permitiu que, em três meses, reconstruísse uma equipe campeã destroçada pela baixa de meia dúzia de titulares. Não é tarefa para iniciantes e aventureiros remontar um elenco, em curtíssimo prazo e mantê-lo na rota do sucesso. Tite conseguiu, sem que em nenhum momento fizesse cara de choro, muxoxo ou apelasse para o discurso fácil do desmanche. Com escolhas certas, com respaldo nos bastidores, oferece conjunto estável e certeiro.

Alguém pode alegar que os desafios maiores estão por vir, que o Paulista não é parâmetro, que a primeira fase da Libertadores é meia-boca e assim por diante. Enfim, que não se pode fazer avaliação exata por ora. Verdade. O Corinthians não virou supertime, nem ganhou nada ainda, para ficar num bordão manjado. Assim como é inegável o ressurgimento como desdobramento de trabalho de quem é do ramo. Será que há dúvida de que Tite entende?

Competência sobra ao técnico alvinegro. O mérito dele foi o de juntar argúcia, experiência, estudo, observação a caráter. Parece conversa puritana, e conheço muita gente que não liga para índole, se o sujeito for profissional e executa suas tarefas de acordo com objetivos traçados. Considera secundárias atitudes, bobagem, valores como justiça, bondade, fidelidade a princípios éticos.

Pois Tite os tem em abundância, até prova em contrário. Não é por acaso que virou diamante raro num meio em que negociatas, arranjos, sorrisos traiçoeiros, tapinhas nas costas que equivalem a condenações compõem perfil usual. Nada diferente do que se vê na política. Tite é reto, direto – apesar do discurso às vezes messiânico, mas que lhe assenta bem. Lembra Telê – e isso deve ser visto como tremendo elogio.

BARCELONA EXAGERADO

Na crônica de anteontem, escrevi que as derrotas mostravam faceta humana e real do Barcelona, e que retornaria à estrada justa, se soubesse aproveitar as lições da hora. Dito e feito: no mesmo dia jogou como o Barça dos bons tempos e quem pagou o pato foi o La Coruña, na avalanche de 8 a 0.

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