JF Diório/Estadão
JF Diório/Estadão

Tempo de bola rolando cresce no Campeonato Brasileiro

Duração média efetiva das partidas no Brasil aumenta pouco mais de 4 minutos, de acordo com estudo feito pela CBF

ALMIR LEITE, O ESTADO DE S.PAULO

02 Julho 2016 | 17h00

A bola está rolando mais no Campeonato Brasileiro. Desde 2014, o tempo médio efetivo das partidas aumentou pouco mais de 4 minutos. É o que mostra o estudo da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), com base nas dez primeiras rodadas das duas competições anteriores e da atual. E a tendência é de crescimento.

Em 2014, as 100 primeiras partidas apresentaram média de 52 minutos e 27 segundos de tempo efetivamente jogado. Em 2015, a média subiu para 54min05 e este ano atingiu 56min32. 

São números melhores, por exemplo, que os definitivos das Copas do Mundo de 2010 (54min04) e de 2014 (55min14). A Fifa considera ideal que um jogo tenha no mínimo 60 minutos de bola rolando.

Curiosamente, essa evolução é consequência de uma medida que tem como objetivo combater as atitudes agressivas de jogadores e treinadores contra árbitros e auxiliares. Em 2015, a comissão de arbitragem da CBF lançou a campanha do respeito e determinou aos juízes que fossem mais rigorosos contra as constantes reclamações.

“A gente observou uma série de situações negativas contra os árbitros. Era árbitro sendo empurrado, jogadores partindo sistematicamente contra a arbitragem... Aí, instituímos a cruzada pelo respeito”, disse o presidente da comissão de arbitragem, Sérgio Correa.

A determinação foi para os juízes não tolerarem chiadeira exagerada e coações. A partir dela, aumentou o número de cartões e expulsões. A consequência foi que, com o tempo, as reclamações diminuíram em quantidade e intensidade e o jogo passou a fluir melhor.

“Esse (o aumento do tempo de bola rolando) não era o objetivo da CBF quando lançou a campanha do respeito, mas acabou acontecendo naturalmente”, considera o ex-árbitro Leonardo Gaciba, que tabula os dados para a CBF. “O objetivo era a diminuição do número de faltas, que realmente estava alto. Aí parou aquele negócio de jogador fazer bolo em volta do árbitro, que paralisa muito o jogo.”

Para Gaciba, no entanto, não é só isso. Ele vê outro fator importante para o crescimento do tempo de bola rolando. “Esse é um dos legados da Copa do Mundo. Os caras começam a ver o jogo mais intenso, mais jogado e começa a praticar. Estou falando de árbitro, jogador e treinador.”

O número de faltas também foi reduzido. Mas é o “ganho colateral” que chama mais atenção. A melhora é sensível. Considerando-se apenas as 10 primeiras rodadas, jogos com mais de 60 minutos ocorreram 6 vezes em 2014, 18 em 2015 e 34 neste Brasileiro, ou seja em 34% das partidas. Nos 100 primeiros confrontos de 2016, 5 tiveram mais de 70 minutos de jogo efetivo – Santa Cruz e Flamengo teve 73min17.

NADA DE META

Embora comemore, Sérgio Correa diz que a CBF não persegue um índice específico. “Não estabelecemos meta e sim o conceito. Se a tendência se confirmar, vamos ultrapassar os 100 jogos (com ais de 60 minutos, ao fim do campeonato). Mas não estamos preocupados com isso”, garante o dirigente, enfatizando que 4 minutos a mais em um jogo representa 1 quilômetro a mais percorrido pelo jogador.

Essa intensidade preocupa jogadores e treinadores, por causa do desgaste maior. “Os jogos são muito intensos e, para piorar, o desgaste dos atletas não são unicamente pelos 90 minutos. Temos que somar as viagens, o pouco tempo de descanso e para recuperação”, lamenta o técnico do São Paulo, o argentino Edgardo Bauza.

COLABOROU CIRO CAMPOS

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Intolerância à simulação ajuda bola a rolar mais

Árbitros são instruídos pela Comissão a não tolerar jogadores que fingem contusões para ganhar tempo

ALMIR LEITE, O ESTADO DE S.PAULO

02 Julho 2016 | 17h00

Além da exigência de maior respeito aos árbitros, uma outra “cruzada’’ poderá contribuir no curto prazo para o aumento do tempo de bola rolando no Campeonato Brasileiro: é a “cruzada contra a praga da simulação’’, como define o presidente da comissão de arbitragem da CBF, Sérgio Corrêa.

Os árbitros estão sendo instruídos, de acordo com o dirigentes, a não tolerar a simulação. São lembrados constantemente que, quando induzidos ao erro, viram alvo de críticas pesadas, enquanto o simulador passa incólume.

“A simulação é nociva e faz parte dessa condição de respeito. É contabilizada contra o árbitro’’, afirma Corrêa. “Quando ele erra, tem de ser cobrado, mas também é preciso cobrar do jogador que simula. Se um atleta não quer que sua equipe seja prejudicada por simulação, tem de agir de forma correta.’’

Há quem esteja do outro lado e concorde. É o caso do técnico do Fluminense, Levir Culpi, que também diz condenar as ações deliberadas para enganar o juiz. “A simulação sempre deixa o árbitro em situação muito difícil. A gente já nasce querendo enganar o árbitro.’’

O responsável pela comissão de arbitragem diz que essa cruzada está em fase inicial, mas destaca que a exigência de maior respeito também já resultou em outro fator positivo: a redução do número de faltas, e de cartões.

No ano passado, o Campeonato Brasileiro já apresentou índice compatíveis com os principais campeonatos europeus, com exceção do Inglês, em que normalmente só as faltas mais violentas são marcadas. “A média de cartões amarelos pelo mundo é próxima da brasileira. A de vermelhos, em seis países, também. Depois de comparar anos e anos, vimos que o Brasil está no mesmo patamar dos outros’’, diz Corrêa.

O ex-árbitro Leonardo Gaciba enfatiza, porém, que essa melhora é recente e está bastante ligada à “cruzada pelo respeito’’. “O futebol brasileiro era mais faltoso, mas em 2015 veio para o bolo (está dentro da média dos principais campeonatos)’’, observa.

SEM REPRESSÃO

Reservadamente, alguns árbitros têm reclamado de que se sente pressionados a deixar o jogo correr, visando redução no número de faltas. Corrêa vê a reclamação como descabida. “A média de faltas caiu e as pessoas acharam que demos ordem aos árbitros para não marcarem. Isso é absurdo. O árbitro pode marcar 100 faltas numa partida, se elas existirem. Mas se ocorrerem 100 contatos físicos que não são falta, não devem marcar.’’

Intolerante mesmo os árbitros devem ser com os treinadores que azucrinam suas vidas à beira do campo. A orientação é para punir com expulsão. Gaciba defende a medida. “Tem técnico que é especialista em incendiar o público, joga para a torcida’’, diz o ex-árbitro. “Em 1999, a área técnica foi concedida ao treinador para que falasse com a equipe dele. Mas o sentido foi deturpado. Tem treinador que está ali (na área técnica) mais para cobrar do arbitro do que para falar com seus atletas.’’

Nas primeiras rodadas do campeonato, muitos técnicos foram tirados das partidas, mas o número de expulsões têm diminuído. Recém-chegado ao futebol brasileiro, o português Paulo Bento já teve problemas com a arbitragem, mas afirma que uma das funções do treinador é orientar os jogadores a ter disciplina em campo.

“Acho que o futebol deve ser valorizado pelo positivo, ou d seja, que meus jogadores joguem de uma forma leal, e que tentem fazer um jogo com maior tempo útil possível’’, definiu o português.

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