Edgard Garrido/Reuters
Edgard Garrido/Reuters

Temporada vai começar com a maior presença de técnicos estrangeiros da história

Brasil conta com quatro treinadores de outro país entre times da Série A, número que ainda pode aumentar

Ciro Campos, O Estado de S. Paulo

04 de janeiro de 2020 | 17h00

Em vez de gramado e goleiro, relvado e guarda-redes. No lugar de bola, balón. Palavras típicas de Portugal e vocabulário em espanhol vão se tornar comum entre os jogadores do clubes do Campeonato Brasileiro deste ano. O País inicia a temporada com o número recorde de treinadores estrangeiros. Apenas entre os times da Série A são quatro profissionais "importados".

Os portugueses Jorge Jesus (Flamengo) e Jesualdo Ferreira (Santos), terão as companhias do argentino Eduardo Coudet (Inter) e do venezuelano Rafael Dudamel (Atlético-MG). A presença do quarteto faz o início da temporada 2020 ser a de maior presença de técnicos estrangeiros no futebol brasileiro. Há ainda um quinto nome no mercado. Para a disputa da Série B, o Avaí trouxe outro português, Augusto Inácio.

A lista de estrangeiros pode aumentar. O Red Bull Bragantino está à procura de técnico e o favorito é outro português. Ex-auxiliar do Real Madrid, José Peseiro é cotado para assumir a equipe. O outro time da elite com o cargo vago de treinador é o Atlético-GO.

A grande presença internacional vem na esteira do sucesso de dois nomes na última temporada. O português Jesus levou o Flamengo às conquistas da Copa Libertadores e do Campeonato Brasileiro. O vice-campeão nacional foi o Santos, comandado pelo treinador argentino Jorge Sampaoli.

Pouco antes de ser campeão com o Flamengo, Jesus criticou a falta de receptividade de alguns colegas brasileiros ao seu trabalho e citou uma possível perseguição. 

"Não entendo essas mentes fechadas. Não me incomoda. Quero que meus colegas cresçam. Não sabem o que é globalização. Que de uma vez por todas tirem os fantasmas da cabeça, porque o Brasil tem grandes treinadores", disse. "Não vim tirar lugar de ninguém. Não vim ensinar a ninguém. Não sou melhor nem pior do que ninguém", completou.

Nos últimos dez anos, 13 estrangeiros trabalharam na Série A do Brasileiro. A imigração aumentou de 2016 para cá, quando oito profissionais vieram. A grande presença internacional conviveu por outro lado com alguns fracassos. 

O português Paulo Bento ficou três meses no Cruzeiro em 2016 e conquistou só 41% dos pontos disputados. Atual treinador da seleção peruana, o argentino Ricardo Gareca durou só 13 partidas no Palmeiras em 2014 e acumulou resultados ruins. No mesmo ano, o espanhol Miguel Ángel Portugal teve trabalho breve no Athletico.

Houve ainda os casos de quem teve a passagem abreviada por ter recebido o convite para dirigir seleções. O São Paulo perdeu o colombiano Juan Carlos Osorio para o México em 2015 no ano seguinte viu Edgardo Bauza partir para comandar a Argentina. O colombiano Reinaldo Rueda chegou ao Flamengo em 2017, foi vice-campeão da Copa Sul-Americana e logo saiu para assumir o Chile.

TRÊS PERGUNTAS PARA...

Juan Ramón Carrasco, ex-técnico da seleção uruguaia e do Athletico

1. A vinda de treinadores estrangeiros é positiva?

Com certeza. Os treinadores de fora levam o brasileiro a não fazer sempre o mesmo, chegam com outra mentalidade. Os atletas vão deixar de ficar tão acomodados, porque terão um treinador que pensa diferente.

2. Qual o principal legado que um estrangeiro pode deixar no Brasil?

O jogador brasileiro quando vai jogar como visitante, já entra em campo resignado de que o empate é um bom resultado. Os estrangeiros pensam diferente e sempre querem vencer. A contribuição do técnico é decisiva neste caso.

3. Os técnicos estrangeiros são mais preparados que os brasileiros?

Acho que o diferencial é que conhecemos mais o continente. Quem é uruguaio, argentino ou colombiano, teve mais intercâmbio com países da América do Sul e conhece mais jogadores e clubes. 

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