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Tentando explicar

O futebol só vai melhorar quando esta nação melhorar

Ugo Giorgetti*, O Estado de S.Paulo

15 de julho de 2018 | 04h00

Acaba a Copa, acaba mal para o Brasil e não nos conformamos com isso. Tentamos explicar o que aconteceu exaustivamente. Se todos tentam por que não eu? O que está se passando é uma das costumeiras injustiças que, de tempos em tempos, desabam sobre jogadores de futebol neste país.

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Não somos nada, ou somos quase nada em todas as outras categorias em que comparações com outras nações são permitidas. Jamais fomos reconhecidos sequer como potência média em termos de conhecimento. Jamais obtivemos mais do que um lugar quase vergonhoso quando se trata do tratamento dispensado à população. Sim, estamos entre os primeiros em desigualdade social de qualquer tipo, e é tudo.

É uma colocação que nem o mais indiferente dos brasileiros gostaria de ostentar. Mas nenhum país é inteiramente nada. Sempre sobra uma migalha de respeito do mundo, mesmo que seja pequena, insignificante, às vezes. E o futebol apareceu para nos dar esse consolo. Junto com a música popular, mas muito mais do que ela, é a única coisa que conseguimos exportar sob admiração do mundo inteiro.

O problema é que tomamos o futebol como uma das riquezas naturais do País, como o café, a soja ou o minério de ferro, sem se dar conta de que, como essas commodities, o futebol sofre as oscilações da história e da economia mundial. Na verdade o futebol depende de um esforço concentrado e é fruto de educação pública de qualidade, saúde satisfatória, lazer garantido para crianças, etc., etc.. Como tudo isso jamais esteve no horizonte dos dirigentes deste País, o futebol, como resto da nação, caminha a passos incertos, oscilantes e trôpegos, enfim, ao acaso. 

 

Quando se aproxima alguma Copa do Mundo, as estações de televisão, ciosas de seus contratos de publicidade, que dependem de audiências, se lembram do futebol e sua obrigação de a cada quatro anos “honrar o nome” do Brasil. Descarregam sobre ele a tarefa única de mostrar nosso lado vencedor, de ser guardião da única coisa que produzimos aos olhos do mundo. É uma verdadeira sacanagem com jogadores que, sem ser Pelé, são vendidos como Pelés, sem viverem no País são vendidos como ídolos, sem terem a mesma dimensão humana e profissional de craques do passado, são obrigados, intimados a fazer o que eles fizeram.

Craques de apenas bom futebol, mas de maneira alguma excepcionais, vão a campo com a obrigação de ganhar. Mesmo antes de entrar em campo, por meses e meses são expostos ao público, como aqueles que vão resgatar a nossa grandeza cada vez mais abalada. Tudo é lembrado, por longos minutos, suas infâncias geralmente pobres, tudo para esmagá-los com a responsabilidade. É de estranhar que não aguentem? É de estranhar que seres humanos jovens, por mais ricos que sejam, mas precariamente educados, desmoronem diante de tanta responsabilidade? O futebol só vai melhorar quando esta nação melhorar. Antes disso, quando houver fracasso que se culpe quem merece.

*CINEASTA E COLUNISTA DO ‘ESTADÃO’

 

 

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