Teremos um novo czar?

Disputa na Copa da Rússia tem só dois candidatos indiscutíveis: Messi e Cristiano Ronaldo

Maurício Noriega, O Estado de S.Paulo

14 Junho 2018 | 04h00

A palavra russa czar tem origem no latim Caesar. Tamanha foi a importância de Júlio César para Roma que depois dele todos os imperadores eram chamados César. Se o futebol consagrou Pelé como seu Rei incontestável no século 20, a Copa de 2018 pode apontar o czar da bola no século 21.

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A disputa tem só dois candidatos indiscutíveis: Messi e Cristiano Ronaldo. Os postulantes ao trono vão para a quarta participação em Copas. Ambos consagrados nos clubes, mas sem o selo imperial do evento maior. Embora ostentem números nababescos em seus times, Lio e CR7 têm participações discretas em Mundiais. Messi fez cinco gols, quatro deles em 2014. Cristiano marcou apenas três, um em cada Copa. A título de comparação, Neymar, um dos candidatos a ocupar o posto de melhor do mundo quando terminar o duopólio argentino/lusitano, anotou quatro vezes em sua estreia, precocemente interrompida pelo joelho grosseiro do colombiano Zúñiga.

As carreiras assombrosas de Messi e Cristiano foram alavancadas no espaço de 12 anos. Em 2006 (há três Copas), eles eram jovens promissores num universo dominado por estrelas do quilate dos Ronaldinhos Fenômeno e Gaúcho, Rivaldo, Zidane, Figo e Kaká. A partir de 2008, ambos tomaram conta da Bola de Ouro da Fifa, liderando Barcelona e Real Madrid em conquistas históricas, entre elas nove Ligas dos Campeões (5 a 4 para Cristiano) e cinco bolas de ouro para cada um. Messi e CR7 são os expoentes de uma nova ordem no futebol, na qual o jogo de clubes torna-se cada vez mais importante economicamente e faz com que eles sejam apontados como candidatos aos melhores da história sem ter (ainda) conquistado uma Copa. Pelé tinha 29 anos quando somou a terceira Copa ao seu currículo. Cristiano chega à Rússia com 33, e Messi completará 31 anos em breve.

A ciência esportiva afirma que um atleta de alto rendimento alcança o auge por volta dos 28 anos, quando acumula experiência, técnica, habilidade e desempenho físico. Messi e CR7 ultrapassaram essa barreira pulverizando marcas, majoritariamente atuando por seus clubes, autênticas multinacionais, as duas maiores marcas globais do futebol. Quando vestem as camisas de suas seleções eles ainda não alcançaram o patamar de outros grandes que não tiveram desempenhos próximos atuando em clubes. Messi sofre publicamente por não ter uma conquista pela Argentina (vamos combinar que para o futebol a medalha de ouro olímpica não é um tesouro dos mais cobiçados). Chegou a abandonar a seleção, em 2016. Cristiano foi campeão europeu com Portugal na mesma temporada em que o rival quase largou tudo após perder a segunda Copa América consecutiva.

O que importa é que “La Pulga” e “O Gajo” serão os mestres de cerimônias de uma Copa que promete ser das melhores de todos os tempos. Além deles, o exército de “coadjuvantes” é poderosíssimo. Gente do calibre de Neymar, que pode ser chamado de príncipe, Kroos, Griezmann, De Bruyne, Salah, Pogba, Mbappé, Coutinho, Jesus, Asensio, Dele Alli. Muitos grandes jogadores. Não, antes que o leitor me chame de maluco, eu não me esqueci de Iniesta. O espanhol é um capítulo à parte. Aos 34 anos, deve se despedir da Copa, provavelmente como o maior jogador da história de seu país. Cracaço de bola, um dos melhores de sua geração, deu o azar de ter atuado na mesma época de Messi e Cristiano. Além de ser um outro tipo de gênio, mais coletivo, que coloca seu incrível talento a serviço do time. Messi deve a Iniesta – e a Xavi. Ah, e além de duas Euros, Iniesta ganhou uma Copa.

Olho nele, gênios candidatos a czares!

*COMENTARISTA DO SPORTV

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