Amanda Perobelli/Reuters
Amanda Perobelli/Reuters

Tiago Nunes não entrega o Corinthians 'ofensivo' que prometeu e se vê muito pressionado

Ruptura com o futebol defensivo e pouco vistoso fica apenas no discurso e treinador sofre com protestos da torcida e maus resultados, como a derrota em casa para o rival Palmeiras

Marcius Azevedo, O Estado de S.Paulo

11 de setembro de 2020 | 09h51

A contratação de Tiago Nunes era uma tentativa de ruptura do Corinthians com o futebol defensivo, pouco vistoso, mas que rendeu três conquistas do Campeonato Paulista e uma do Brasileirão, sob o comando do técnico Fábio Carille. O novo treinador chegou ao Parque São Jorge ainda no fim de 2019 após levar o Athletico-PR ao título da Copa do Brasil. Havia muita esperança, que até agora não se confirmou. 

O treinador recebeu carta branca da diretoria. Dispensou dois ídolos do clube (Jadson e Ralf) sem se importar muito com o que ambos haviam construído antes de sua chegada, e exigiu contratações, entre elas a de Luan, do Grêmio. Os reforços seriam fundamentais para o novo estilo de jogo da equipe. Ocorre que Tiago não conseguiu em nenhum momento entregar o que prometeu. Pior. Depois de nove rodadas do Brasileirão, o time enfrenta protestos de sua torcida, ocupa coloção intermediária para baixo na tabela e não mostra caminhos para sair desta condição.

O treinador já coleciona tropeços. Fracassou de imediato, justamente na principal competição do ano ao ser eliminado ainda na fase preliminar da Copa Libertadores da Américas. Era a maior aposta do clube, inclusive financeiramente. O Corinthians caiu para o Guaraní do Paraguai. Derrota por 1 a 0 no jogo de ida, em Assunção, e vitória amarga por 2 a 1, na volta, em Itaquera, sendo eliminado pelo critério do gol anotado como visitante.  

A eliminação, claro, fez o torcedor ficar desconfiado. A situação de turbulência foi piorando pelos resultados no Campeonato Paulista. Antes da paralisação do torneio por causa da pandemia do novo coronavírus, o Corinthians estava ameaçado de não se classificar às quartas de final e até de rebaixamento. Não estava entre os dois primeiros do seu grupo. E teve de conviver com isso durante toda a paralização do futebol.

Tudo mudou no retorno, no entanto. Pelo menos nos resultados. Mesmo sem jogar aquele futebol ofensivo, bonito, que estava atrelado ao discurso da diretoria ao contratar o treinador, o Corinthians derrotou Palmeiras por 1 a 0 e Oeste por 2 a 0, contou com uma combinação de resultados e avançou no Paulistão. 

A torcida se manteve esperançosa com mais duas vitórias, sobre Red Bull Bragantino e Mirassol, e uma ida pouco provável (antes da paralisação) para uma decisão. A derrota para o Palmeiras nos pênaltis após dois empates, no geral, não proporcionou um estrago tão grande. O time quase chegou lá.

"Lutamos, infelizmente perder é do futebol. Bato palma para essa equipe que chegou à final, que se dispôs a sacrifícios e nunca desistiu de lutar. Saímos fortalecidos e mais unidos do que nunca. A temporada não termina aqui", afirmou o presidente Andrés Sanchez logo após aquele jogo.

A confiança estava de volta. Mas o futebol prometido não vingou. Tiago Nunes não conseguiu fazer o time jogar. Luan, grande esperança do treinador, continua apagado como nos últimos atos pelo Grêmio. Ídolos da torcida, Cássio e Fagner estão em fase ruim. O goleiro andou falhandi em bolas que ele normalmente defende. E, nesta quinta, o leteral ometeu pênalti numa mão na bola pelo mau posicionamento. Até Jô, o artilheiro dos clássicos, está sofrendo para colocar a bola para dentro do gol. Ela não chega limpa. 

Até aqui, no Campeonato Brasileiro, o Corinthians venceu duas partidas, contra Coritiba e Goiás, contra equipes que brigam para não cair e já trocaram de treinador na competição. São oito jogos disputados. Foram ainda três derrotas e três empates. Para piorar, dois revezes foram para rivais tradicionais: São Paulo e Palmeiras. O sorriso amarelo que Tiago deu ao abraçar Luxemburgo após a derrota em Itaquera em nada refletia o que ele deveria estar sentindo. 

SEM MUDANÇAS

Andrés Sanchez garante que Tiago Nunes está prestigiado e continua pelo menos até o fim do seu mandato - o pleito no clube será ainda neste ano. O discurso já foi utilizado por ele e outros dirigentes muita vezes antes de demissões de técnicos. Não é o que parece nesse momento, até por conta de uma temporada atípica com a pandemia.

Tiago se vê sem saída. O Corinthians não tem um padrão definido, como muitos outros times no Brasileiro, e se vê mais uma vez jogando pelos três pontos, tudo o que não era para acontecer sob o comando do novo treinador. Resta saber se ele vai suportar a enorme pressão da torcida, que protestou mais uma vez ao fim do clássico com o Palmeiras e promete não dar paz para o técnico trabalhar. Ele afirmou que não vai desistir. A única saída é entregar o que prometeu lá atrás.

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