Arquivo pessoal
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Saga de Tiago Rech: torcedor solitário que virou presidente de clube vai virar filme

Obra vai contar relação de Tiago Rech com o Santa Cruz-RS que envolve paixão, sofrimento, resiliência e redenção

Toni Assis, especial para o Estadão, O Estado de S.Paulo

06 de fevereiro de 2022 | 05h00

Luz, câmera, ação... gravando! A história de Tiago Rech, que em 2012 foi flagrado pelas câmeras de TV como único torcedor do Santa Cruz gaúcho na arquibancada do estádio Olímpico em um jogo do time com o Grêmio, está destinada a ganhar as telas de cinema. Paixão, adversidade, sofrimento, recomeço, resiliência e redenção são os elementos do roteiro.

A emblemática cena da comemoração solitária de um gol diante de quase sete mil gremistas, que teve mais de 200 mil visualizações no Youtube, correu o mundo e inspirou a Pé de Coelho Filmes, a Supernova Filmes e a Faksanto Entretenimento, produtoras da cidade de Santa Cruz do Sul, a encabeçar o projeto. O título, pelo menos por ora, é O Torcedor Solitário.

O mote central da trama conta a sina do torcedor que, aos 28 anos, assume a presidência do clube. O preço pela falta de experiência administrativa é duro. Além de enfrentar uma depressão, o então mandatário precisa tirar dinheiro do bolso para arcar com as despesas. Quatro anos depois, com o time na terceira divisão, Tiago retorna ao poder contra a vontade da família e o desfecho não poderia ser mais cinematográfico: volta por cima da equipe e os primeiros troféus da história do Santa Cruz. 

As primeiras gravações já foram feitas. O personagem principal da trama foi levado de volta ao estádio Olímpico uma década depois daquele fatídico dia. “Olha, foi um filme que passou na minha cabeça. O Santa Cruz abriu o placar e eu vibrei muito. Depois tomamos a virada e perdemos de 4 a 1. Gravei o depoimento na arquibancada. Fizeram imagens minhas chegando ao estádio, andando próximo ao campo, enfim, foram várias tomadas. Quando pediram para entrar no gramado, olhei para o lugar onde fiquei torcendo e a emoção bateu forte. Chorei mesmo”, disse Tiago do alto dos seus 35 anos, em conversa com o Estadão.

AMOR DE FAMÍLIA

A relação de Tiago com a equipe vem de uma tradição caseira. “O estádio (dos Plátanos) ficava a poucas quadras de casa. Meu avô levava meu pai ao campo e a história se repetiu comigo.”

Em 2013, Tiago foi morar nos Estados Unidos. De volta no ano seguinte, virou assessor de imprensa do clube e passou a conviver com a rotina do Santa Cruz. Depois, se tornou presidente. No entanto, o sonho de comandar o time do coração virou pesadelo. 

“A folha de pagamento girava em torno de R$40 mil com a comissão técnica. Incluindo viagens, alimentação, medicamentos e outras despesas, o valor subia para quase R$ 100 mil mensais. No terceiro mês, já não tinha mais como bancar’’, conta. “Meus pais fizeram uma previdência para mim e tiveram que tirar o dinheiro de lá. Paguei do bolso em torno de R$ 60 mil. Não me candidatei a reeleição. Fiquei doente, tive depressão, precisei tomar remédios. Foi um momento difícil.”

Mas a história de Tiago com o clube do coração voltaria a ter mais capítulos a partir de 2019. E num cenário bastante desencorajador. No ano anterior, o Santa Cruz havia caído para a Terceira Divisão e existia a possibilidade do fim das atividades. Contra a vontade da família, ele voltou a ser presidente.

“Meu pai quando soube quase teve um troço. Não queria de jeito nenhum. Passamos o período da pandemia e disputamos a Copa FGF (também chamada de Copinha) no segundo semestre. Tínhamos cotas de patrocínios e recebemos um valor de R$ 120 mil do mecanismo de solidariedade da Fifa por conta da venda de atletas que começaram no clube, como foi o caso do goleiro Tiago Volpi, contratado pelo São Paulo.”

O título da "Copinha" não foi apenas o primeiro da história do clube fundado em 1913, mas o início de uma nova era. Além do troféu, a equipe se credenciou a jogar a primeira fase da Copa do Brasil e garantiu mais R$ 500 mil aos cofres pela participação.

Com mais estrutura e planejamento, os ventos começaram a soprar a favor. Veio o título da Série B (Terceira Divisão do Estado) e no ano passado, na disputa da Recopa Gaúcha, contra o Grêmio, mais um troféu na conta, mesmo com o vice-campeonato. 

Diante de tantas reviravoltas, Tiago garante estar cada vez mais ligado ao clube, hoje na Segunda Divisão estadual. “Hoje sou presidente do Conselho Deliberativo, mas o Santa Cruz é a extensão da minha casa. É minha vida.”

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