Time com medo

Parece que jogadores travam ao vestir a camisa do São Paulo em vez de se sentirem ousados

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

11 Março 2018 | 04h00

O São Paulo tem medo. Muito. A sensação desconfortável não é recente e já deu o ar da desgraça, em menos de dois meses de bola a rolar na temporada de 2018. A movimentação dos jogadores em campo tem revelado insegurança, hesitação, perplexidade. O temor de cometer erros que levem a fiascos trava o grupo e alimenta um círculo vicioso interminável, feito de dúvidas, falta de confiança e de iniciativa, resultados ruins.

Moral da história: repetem-se erros do ano passado, e do outro, e do outro, que desembocam em frustração dos profissionais do clube e impaciência do torcedor. Recorre-se à tradicional saída da troca de comando, para ver se há choque de realidade, motivação renovada, métodos eficazes. Enfim, o papo furado de sempre.

Desta vez, foi Dorival Junior, como anteriormente haviam sido outros. O São Paulo da última década, recheada de insucessos, triturou reputações de treinadores de todos os calibres, de interinos como Milton Cruz e Doriva a gente consagrada ou candidatos ao estrelato. A lista dos professores que passaram pelo Morumbi desde 2009 contém Ricardo Gomes (2 vezes), Sérgio Baresi, Paulo César Carpegiani, Adilson Batista, Emerson Leão, Ney Franco, Paulo Autuori, Muricy Ramalho, André Jardine (interino), Rogério Ceni. Todos dispensados. Fora o colombiano Juan Carlos Osorio e o argentino Edgardo Bauza, que pularam da barca furada para dirigirem seleções.

Não importa se outras agremiações de igual grandeza tiveram mais ou menos mudanças de técnicos no período. Os vizinhos não devem servir de parâmetro agora. Esse vaivém é inconcebível num lugar que já foi referência de administração e de conquistas. As mexidas indicam que algo vai mal nas entranhas tricolores. E não é de hoje.

O São Paulo entrou em parafuso desde que alterou estatutos e aprovou reeleições seguidas do saudoso Juvenal Juvêncio. A guinada escancarou envelhecimento de mentalidade e deu a lógica, ou seja, isso se refletiu no futebol. Não há como dissociar o declínio de bastidores com a década sem lustro nos gramados. As incertezas nos gabinetes acarpetados estenderam seus malefícios ao trabalho no tapete verde.

O São Paulo extraordinário virou time mediano, que incomoda o próprio público e não os rivais, numa inversão de valores inédita. Os dirigentes conseguem a proeza de montar elencos empobrecidos com o passar do tempo. Porém, em todo início de ano anunciam a trupe de momento como se fosse de primeiríssima grandeza. Após o primeiro impacto, vêm derrapadas, eliminações, explicações e revolta popular. Até a ladainha ser retomada.

Vestir a camisa do São Paulo era motivo para inflar o ego de qualquer atleta, fazer com que subisse vários degraus na carreira, atingisse o topo. Um estimulante emocional que tornava a mente ágil e os pés ligeiros. Além da pressão que tascava nos adversários. Algo como ocorreu com o Real Madrid no duelo com o Paris Saint-Germain durante a semana.

A situação mudou. O rapaz coloca o manto são-paulino e parece que treme, bloqueia, perde a naturalidade. Dá a impressão de que joga sem vontade. O que soa como desleixo é paúra de cometer bobagens e ser execrado. Isso explica, em parte, o retrospecto de 5 derrotas, 2 empates e 4 vitórias no Paulistão. Num Estadual que não é grande coisa.

O demitido Dorival tinha a ver com isso? Sim, uma vez que era o responsável pela preparação, precisava aguentar a bronca. Trata-se de pessoa séria, mas tem as limitações dele. Ajudou no processo que evitou a queda no Brasileiro, mas deu sinais de estoque esgotado já no fim de 2017. Se a direção não confiava, deveria ter feito a substituição nas férias. O problema é que os dirigentes não confiam sequer em si mesmos...

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