Fábio Motta/Estadão
Fábio Motta/Estadão

Time que revelou Ronaldo, São Cristóvão pode acabar com seu futebol

Prestes a completar 120 anos, clube que disputa a 3ª divisão tem dificuldades para se manter na ativa

Marcio Dolzan/RIO, O Estado de S.Paulo

30 de setembro de 2018 | 05h00

Manter a bola rolando no gramado ruim e de grandes marcas de chão batido é uma constante para o São Cristóvão. O clube que leva o nome do tradicional bairro carioca e que lançou para o mundo jogadores como Leônidas da Silva e Ronaldo Fenômeno completará 120 anos dia 12 de outubro em meio a dívidas e com dificuldades em se manter ativo no futebol profissional.

O clube não revela o tamanho de sua atual dívida. Estima-se que arrecade R$ 35 mil por mês e gaste R$ 70 mil.

A má condição do gramado contrasta com os bancos de boa aparência das arquibancadas, mas ao mesmo tempo combina com o tom de futebol raiz visto no placar - pintado na parede ao fundo do campo e que depende de alguém para substituir seus números a cada gol, como era em décadas passadas.

O marcador fica a poucos metros de onde está ostentado o nome da casa do São Cristóvão. “Estádio Ronaldo Nazário” é uma homenagem àquele que foi seu mais ilustre filho. Acima do nome do atacante, também em letras garrafais, a frase “Aqui nasceu o Fenômeno” não deixa dúvidas sobre quem é o grande orgulho da agremiação no Rio de Janeiro.

“Um deles”, apressa-se em dizer Renato Campos, que tem 57 anos de idade e 43 de dedicação ao clube. “O São Cristóvão é um celeiro de craques. Por aqui passaram grandes nomes, inclusive da Copa de 1938. O treinador saiu daqui, Ademar Pimenta, mais três jogadores (Leônidas, Afonsinho e Roberto). Teve também o Lazaroni, o técnico Parreira, Américo Faria, Djalminha, Válber, Catanha...”

O gerente, contudo, não esconde que o grande orgulho do clube é mesmo Ronaldo. Foi o mais antigo funcionário do São Cristóvão quem teve a ideia de escrever que lá deu seus primeiros chutes o jogador que seria conhecido como Fenômeno. A ideia de pintar a frase tinha por objetivo chamar a atenção dos que passassem pelas vias próximas. Para isso, ele se precaveu.

“Eu não podia colocar que era o Ronaldo, eu não tinha essa autorização dele. Então, coloquei “Fenômeno”. Se houvesse uma reclamação, diria que o Fenômeno era eu, que nasci aqui, trabalho aqui desde sempre. Que tem de ser um fenômeno para tocar isso aqui”, conta Campos.

Hoje, no entanto, nem a homenagem tem sido suficiente para atrair patrocinadores. A sede do time de futebol - há outra náutica, na Ilha do Governador - é pouco frequentada. Para piorar, o estádio não tem autorização do Corpo de Bombeiros para receber jogos e serve basicamente para treinos. A equipe principal, que este ano disputou a terceira divisão carioca e por pouco não acabou na quarta, manda seus jogos na Rua Bariri, sede do Olaria, zona norte.

O time de juniores, por sua vez, nem mesmo é formado por atletas do clube. O elenco que disputou a “Terceirona” foi composto por atletas da Soccer Fute, empresa especializada na formação e venda de jogadores.

“O São Cristóvão não tinha condições de bancar a categoria”, diz Felipe Lestayo, proprietário da empresa. “Para nós, isso foi bom. A gente representa um clube centenário e tem um local de treino.” O acordo prevê que as despesas fiquem a cargo da Soccer Fute. Caso algum atleta seja negociado, o clube recebe um porcentual.

Apesar de contar com uma equipe “emprestada”, o São Cristóvão mantém sua escolinha. São 120 alunos que treinam no campo de gramado ruim e chão batido. Renato Campos, o funcionário mais antigo, é um dos professores. “A escolinha se chama Fenômeno na bola e 10 na escola. Os meninos vêm aqui para ser o segundo Ronaldo”, diz. “Temos dificuldades? Temos. Mas temos uma camisa forte, um celeiro do futebol.”

TV japonesa gravou Ronaldo no clube

A última vez em que Ronaldo pisou no gramado do São Cristóvão foi em 2014, levado ao clube por uma TV japonesa por conta da Copa do Mundo. Os primeiros chutes no local foram dados quando ele tinha 13 anos. Ficou lá até os 16, para depois assumir a camisa 9 do Cruzeiro. Procurado pelo Estado, sua assessoria não respondeu.

 

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