Timemania agrega transparência aos balanços de clubes do Rio

Loteria com objetivo de injetar receita nos clubes revela endivadamento junto aos cofres públicos

Roberto Lira, Agência Estado

02 de maio de 2008 | 15h00

A Timemania, loteria criada pelo governo federal com o objetivo de injetar nova receita nos clubes de futebol, agregou aos cofres dos principais times brasileiros um componente até então raro na apresentação de seus balanços financeiros: a transparência do endividamento junto aos cofres públicos. Nesta semana, Flamengo, Fluminense e Botafogo divulgaram seus números no Diário Oficial do Estado do Rio de Janeiro e o que se viu foi uma dívida milionária antes subdimensionada. Só o rombo do Flamengo com FGTS, INSS e Receita Federal alcança, segundo o balanço, inimagináveis R$ 163,78 milhões.  As situações de seus adversários diretos também não são melhores: o Fluminense reconheceu dever R$ 114,61 milhões com esses tributos e o Botafogo lançou em suas demonstrações financeiras R$ 89,75 milhões, embora tenha optado por não jogar tudo na conta da despesa do ano com provisões ou contingências. A reportagem não teve acesso aos números do Vasco da Gama em 2007.  Dos três grandes do Rio que apresentaram seus balanços, apenas o Fluminense teve queda na receita operacional no ano passado, a despeito de o clube ter conquistado a Copa do Brasil e garantido um lugar na Copa Libertadores da América. Como 2006 foi um ano em que o clube das Laranjeiras arrecadou recursos com a transferência do lateral-esquerdo Marcelo ao CSKA, a comparação ficou prejudicada. A conta de R$ 16,93 milhões no ano retrasado com repasse de direitos federativos caiu para parcos R$ 1,34 milhão em 2007. Com isso, a receita operacional do clube recuou 22,3%, de R$ 50,65 milhões para R$ 39,33 milhões. O Flamengo, por sua vez, fechou o ano com receita bruta total de R$ 89,49 milhões, 23,6% a mais que em 2006 e seu segundo melhor faturamento na década. Só com o futebol, a receita bruta somou R$ 71,71 milhões. O clube da Gávea conquistou avanço considerável na arrecadação com os direitos de transmissão na TV e com a bilheteria. Essa última, inflada pela conquista do Campeonato Carioca e pela campanha no Campeonato Brasileiro que levou o time à disputa da Libertadores em 2008. A receita operacional do Botafogo subiu 17,9% em 2007, para R$ 41,08 milhões, com destaque para o avanço das receita com bilheteria e cotas de participação, que dobraram, para R$ 12,67 milhões.   DESPESAS ACOMPANHARAM RECEITASO problema dos clubes é que as despesas operacionais crescem em proporções semelhantes às receitas, quando não maiores. O Flamengo teve despesas de R$ 84,66 milhões, 23,7% a mais que em 2006; o Fluminense gastou com o esporte profissional e amador um total de R$ 35,46 milhões, 14,7% a mais que no ano retrasado; e o Botafogo reportou gastos de R$ 21,88 milhões.  Com as despesas extras, que incluem pessoal não diretamente ligado às atividades esportivas, custos administrativos, despesas financeiras e as contingências diversas (como o reconhecimento dos débitos com a União), todos os clubes fecharam o ano no vermelho. O déficit do Flamengo chegou a R$ 59,233 milhões em 2007, o do Botafogo alcançou R$ 3,372 milhões e o do Fluminense somou R$ 139,456 milhões, mas apenas o tricolor optou por lançar toda a carga de débitos fiscais em seu balanço do ano passado.  Mas nem mesmo esse princípio de transparência nas contas dos clubes fazem com que eles sejam vistos como exemplos. Nos pareceres de auditores independente que são publicados aos final dos balanços há sérias ressalvas. Nas demonstrações do Botafogo, cita-se a sistemática do clube em não debitar o consumo de materiais esportivos, o que não permite a verificação precisa dos estoques. Também há uma citação sobre a "inexistência de controle patrimonial", que impede a validação do saldo contabilizado do ativos imobilizado. O passivo a descoberto - que no linguajar contábil significa que as obrigações do clube superam o valor dos ativos - do clube em 2007 somava R$ 169,80 milhões.  Sobre o Flamengo, é comentada a deficiência de capital de giro de R$ 92,50 milhões em 2007 e a exclusão do clube do Refis e do PAES por inadimplência. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.