'Tínhamos uma equipe sem condições de estar ali', afirma Benazzi

'Tínhamos uma equipe sem condições de estar ali', afirma Benazzi

Ex-treinador confirma salários atrasados e elenco inchado, com plantel de 47 jogadores, como principais motivos para a queda

Rafael Fiuza, O Estado de S. Paulo

28 de outubro de 2014 | 22h06

Seis técnicos passaram pela Portuguesa durante a temporada e nenhum deles conseguiu reverter a difícil situação da equipe na Série B. Nem mesmo o lendário Vagner Benazzi, na terceira passagem pelo clube do Canindé, tirou a Lusa da última colocação. Em entrevista exclusiva ao Estado, Benazzi falou sobre salários atrasados, os problemas do clube, a importância do STJD na queda da 1ª Divisão entre outros assuntos.

Você ficou sem receber nos dois últimos meses?

Não somente eu, o plantel todo. Para uns faltavam dois meses, para outros três e até quatro meses sem receber. E isso foi uma das grandes causas dos seis treinadores que passaram pelo time. Quando cheguei lá, tinha um plantel de 47 jogadores, conversamos com a diretoria, dissemos que tinha de rescindir com 15 atletas, mas não tínhamos dinheiro nem para demitir. Quando o grupo foi escolhido para as partidas, os jogadores afastados treinavam em outro horário. Só que tinham muitos e uns acabavam indo para o departamento médico e fazendo aquelas coisas de sempre para passar o tempo.

O que faltou para conseguir uma vitória na sua passagem?

Quando eu cheguei na Portuguesa faltavam três dias para fechar a janela de transferência. E a diretoria já tinha avisado que não ia investir mais. Então, contrataram jogadores que nunca tinham jogado nem na Série C. Com tudo isso, foi ficando cada vez mais difícil vencer. Tentamos conseguir isso neste um mês, mas não teve jeito. Nas outras passagens, conseguimos vitórias, acesso à série A-2. Mas não tinha como desta vez. Nós fizemos oito jogos com quatro empates e quatro derrotas, mas trabalhamos, buscamos, tentamos. O problema é que quando o jogador olha, já pensa: 'por que o treinador não manda sair o pagamento?' E realmente fica muito difícil com um plantel enorme onde 15 jogadores não tinham condições de jogar a Série B. Algo deveria ter sido feito quando chegou o segundo treinador. Agora, esperamos que o pagamento deles seja o mais rápido possível, porque, logicamente, se não der de um jeito, vai ter de ser de outro, por meio das leis trabalhistas.


Quem é o culpado pelo momento ruim vivido pela Portuguesa?

A diretoria assumiu uma situação complicada, mas colocaram três diretores do amador que não tinham condições de estar ali. No futebol, você tem de aprender com o futebol mesmo para depois poder exercer alguma função. Não adianta colocar lá apenas. É jogador que conhece jogador. É treinador que conhece treinador. Então, o treinador escolhe alguns jogadores, os diretores escolhem outros e o presidente indica outros mais. Quando está montando a equipe, precisa dar um passo para trás para poder dar certo. Os treinadores escolheram seus jogadores e foram saindo, os jogadores ficaram, sem vontade de jogar, sem conhecer a história da Portuguesa, até entrarmos nesta situação.

O que ocorreu com a Portuguesa do Paulistão para a Série B?

Não eram os mesmos jogadores nem os mesmos diretores, que vieram do amador para fortalecer o futebol e ocupar o cargo de outros diretores que saíram para resolver problemas de saúde. Tudo isso faz com que a equipe sofra. As dívidas aumentam, as famílias procuram os jogadores em busca da compra da casa, aquelas despesas naturais, e, sem receber salário, os jogadores não conseguem focar no jogo.

Qual seria a solução para sanar as dívidas do clube?

Eu acredito que formar um grupo de dez pessoas que gostam muito da Portuguesa poderia ajudar o clube a sair dessa situação. A Portuguesa nunca passou por uma situação semelhante. Nunca ficou devendo em todas as minhas passagens. Agora, eu fiquei triste, porque dois dias após minha saída, fizeram uma greve muito forte na Portuguesa, cobrando o que estão devendo. Infelizmente, isso é muito ruim. Daqui a pouco o cara que limpa o campo não vai limpar, o cara que cuida do vestiário não vai cuidar, o que acende a luz não vai acender, então isso reflete diretamente no time. Na hora do almoço, os funcionários encontram os jogadores e falam 'precisa ganhar, precisa ganhar'. E isso pressiona os jogadores. Mas a situação não é complicada somente na Portuguesa. Vários times na Série A também passam por isso. A situação ficou muito delicada depois da Copa do Mundo.

O que a Portuguesa precisa fazer para se recuperar no próximo ano?

A Portuguesa sempre teve grandes times no profissional. Precisa montar um time diferente, na parte financeira, mas bem estruturado. Tinham jogadores na Portuguesa que ganhavam R$ 6 mil, R$ 7 mil, R$ 8 mil, mas não têm condições de jogar na Portuguesa desta maneira. O jogador vai ter problemas em casa, vai ter problemas em todos os setores. Eu tentei convencer a diretoria a dar um bicho maior para os jogadores, mas não foi possível. Tem de ter o pé no chão para montar boas equipes. A Portuguesa sempre soube trabalhar e montar boas equipes. Não é vergonha nenhuma cair para a Série C. Lá na Europa, vários times grandes caíram e subiram, com estádio cheio, vibrando com a equipe. É isso que precisa fazer.

Qual a importância da decisão do STJD no último ano com os resultados da Portuguesa nesta temporada?

No caso de outros times as punições não são da mesma forma. Estão sendo liberados. Só a Portuguesa que foi punida? Não pode sair do campo como a Portuguesa saiu? Não pode, mas não pode dar uma pena como deu para a equipe e quando tem outras equipes passando por isso não são punidas da mesma forma. Tenho certeza de que ela é prejudicada neste quesito. Mas a Portuguesa vai conseguir se reerguer, principalmente se tiver Luis Iaúca na frente do time.

Quais são os seus projetos para os próximos meses?

Existe uma possibilidade de dirigir um clube da 1ª Divisão do Campeonato Brasileiro, mas nada concreto. Tenho também duas propostas para dirigir equipes da Série A do Campeonato Paulista. Mas ainda não há nada decidido. Estamos colocando no papel para ver o que é melhor e planejar bem. Se for para assumir uma equipe logo, esperamos terminar com sorriso no rosto.

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