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Tite e a diferença

Confiança vem do sentimento que se difunde entre os jogadores de que esse é “o cara”

Ugo Giorgetti, O Estado de S. Paulo

02 de abril de 2017 | 05h00

Procuro ver o que há de novo na seleção brasileira de Tite e não consigo ver nada. Sou informado que Tite gosta e aplica o 4-1-4-1, informação que agradeço quase comovido. Para mim é o mesmo método e a mesma tática do velho Tite do Corinthians e de sempre. É assim que reconheço a seleção. Muita troca de passes, compactação defensiva, aproveitamento do atleta no lugar perfeito para suas características e, sobretudo, confiança mútua entre elenco e técnico. 

Talvez devesse dar mais destaque para a confiança. Sou tentado até a dar todo o destaque para essa relação pessoal de Tite e seus comandados.

Não confundir com união. União é uma coisa que vem de fora, algo combinado. Pode se conseguir unir a despeito das desconfianças, num momento de particular necessidade, por exemplo. Mas geralmente não dá certo. 

A confiança vem de outra coisa. Ela vem de um sentimento que se difunde entre os jogadores, às vezes velozmente, de que esse é “o cara”. Esse é o responsável que vai conduzir o time em rumo certo. Em momentos ruins, de crise, “o cara” é sempre esperado. Não só no esporte, é claro. Na política também. O desespero, às vezes silencioso, de que alguma coisa precisa ser feita desencadeia a esperança pelo “cara”. 

A seleção brasileira, principalmente depois dos 7 a 1, tinha chegado no fundo do poço. Pior impossível. Ninguém sabia direito o que fazer, falava-se em técnico estrangeiro, procurava-se por toda parte e nada. De repente, quando tudo ia de mal a pior, ele chegou. E veio a modificação rápida, quase milagrosa sem que se perceba qualquer mudança fundamental, tática ou estratégica.

Mas não há nada de milagroso nisso. É um sentimento, primeiro do elenco de jogadores, depois, à medida que o time ganhava, da torcida, de que tinha chegado alguém. Falo “sentimento”, que é quando grupos, e depois multidões, identificam numa pessoa, só através de meios emocionais, não racionais, qualidades que apenas vislumbram, adivinham, mas que “sentem” que pode tirá-los da situação desesperada. Estamos, então, em presença do carisma. É isso o carismático. Alguém sobre o qual se depositam esperanças por qualidade apenas adivinhadas e suspeitadas. Só com esses indícios nos convencemos de que a salvação chegou. Tite é, sem dúvida, alguém com carisma. 

Embora a palavra seja agora usada a torto e a direito para classificar qualquer rostinho agradável, ou qualquer pessoas que se pretende “diferente”, carisma é muito mais e prevê qualidades especiais, a principal delas fé em si mesmo e nos demais em quem confia totalmente. Tite não inventou um só jogador, não tirou da cartola ninguém, só mostrou que confia em quem está com ele. O carismático exige, para que surja, primeiro uma situação desesperada, depois um pequeno número de fiéis, de preferência que já tivessem vivido com o carismático outras experiências. Desse grupo de fiéis, se o “cara” tiver mesmo carisma, a coisa se espalha e ganha cada vez mais corpo. E finalmente, num movimento irresistível, domina multidões.

Quem hoje grita ‘Tite!’ não são apenas corintianos, são brasileiros que não sabem explicar bem por que o Brasil mudou tanto nos últimos jogos, mas sabem que foi por causa dele. Já vimos isso em política muitas vezes, não é mesmo? É evidente que Tite é um carismático querido e benéfico. Porque, às vezes, a multidão se engana e o carismático tem muitos problemas para manter o cargo e, muito frequentemente, a pele. Carisma, portanto, é bênção e maldição ao mesmo tempo. Mas, de qualquer maneira, é animador ver alguém sobre o qual se deposita tanta confiança num País onde, com toda a razão, o povo não consegue enxergar qualquer espécie de carisma nos que o representam. 

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