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Tite evoca Telê

Desde os tempos do Mestre de Itabirito, nos anos 80, técnico da seleção não é tão aplaudido

Antero Greco, O Estado de S. Paulo

13 de novembro de 2016 | 06h00

Telê Santana há muito virou lenda do futebol brasileiro. Não por acaso, mas como consequência de trajetória ímpar, imaginação generosa do público, reconhecimento de quem trabalhou com ele e reverência de críticos que o conheceram. No espaço dos últimas quatro décadas, foi o técnico que mais obteve apoio popular. 

Quem chegou mais perto de arrebatar corações e mentes foi Felipão. O gaúcho conquistou reconhecimento amplo com o penta mundial, em 2002, na Ásia, e saiu arranhado com o desastre de 2014. Os demais foram da simpatia à rejeição total.

Eis que surge alguém, no comando da turma amarelinha, para entusiasmar a plateia como o fez o Mestre de Itabirito, nos anos 80. Também por motivo justo, e com direito a exageros. 

O início de trabalho de Tite supera qualquer previsão otimista. Ao assumir a bronca, depois de outros dois anos desperdiçados com Dunga, a equipe nacional estava em 6.º lugar nas Eliminatórias para a Rússia, desmoralizada, apavorada e com risco de ficar fora de Copa pela primeira vez na história. Zica demais acumulada num time só.

Tite pegou o boi à unha e, com raros períodos de treinos e convívio com o grupo, acumula cinco vitórias enfileiradas, 15 pontos e a liderança na região. Está com um pé e quatro dedos no torneio de 2018. O fantasma da eliminação foi sobrevoar outra freguesia, para ser bem preciso pelas bandas da Argentina. Os vice-campeões do mundo estão com a água no pescoço, e aperta o nó da gravata no pescoço de Bauza.

O desempenho do Brasil diante dos bravos vizinhos foi marcante para Tite e os jogadores que estão sob a guarda dele. Não apenas pelo resultado – se bem que 3 a 0 sobre rival tão garboso jamais pode ser considerado trivial. É um placar e tanto! Sempre foi, por que diabos deveria ser diferente agora? Só se for para diminuir o peso da proeza.

Valeu pelo comportamento do grupo, dentro e fora de campo. No gramado, Neymar, Philippe Coutinho, Gabriel Jesus, Marcelo e demais envolveram os argentinos numa teia da qual não tiveram meio de se desvencilhar.

Depois de início equilibrado, a casa portenha caiu ainda no primeiro tempo, com dois belos gols. E esfarelou-se com o terceiro gol. Foi um passeio em BH, e seria necessária enorme má vontade para desmerecer o show. 

(Se bem que teve gente que fez a ressalva: “O adversário vive fase ruim.” A Argentina, mesmo ruim, é melhor do que 90% dos times do planeta, oras.)

A outra razão da vitória estava ao lado do campo, na figura de Tite, participativo, atento, a gritar com os atletas, a incentivá-los, a festejar com eles o gol de Paulinho que fechou a conta. O “professor” foi decisivo sobretudo na montagem da trupe, nas mexidas ao longo do clássico no Mineirão. Desacorçoou a vida de Messi, Higuaín & Cia. 

Tite reconstrói a seleção em tempo recorde, molda-lhe um perfil interessante, condizente com o peso da camisa e com os tempos que correm. Não há a dependência, saudável e angustiante ao mesmo tempo, dos lampejos de Neymar. Outros começam a brilhar, num desses fenômenos de que só o futebol daqui pode proporcionar. Quando menos se esperam, brotam astros nesta terra, ou ao menos candidatos a craque.

A pouco menos de dois anos da próxima Copa, enfim desponta um novo Brasil. Favorito à taça? A caminho do hexa?! Calma lá, taí projeção prematura, não é (ainda) para tanto nem está sugerido aqui. Tampouco se trata de rascunho de seleção. A base foi lançada, a ideia de jogo também; o grupo encorpa, se solta e passa confiança para o torcedor.

Não foi à toa que Tite ouviu o nome cantado e aplaudido na noite de quinta-feira. Reação que, salvo engano, não ocorria desde Telê à frente de artistas como Falcão, Cerezo, Zico, Sócrates, Júnior, Oscar... O público não aguenta mais sofrimento.

Vende-se aqui a certeza de que, na atualidade, técnicos, jogadores – e, por extensão, futebol – de verdade só existam na Europa. Tite desmonta o veredicto. Que assim seja. 

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