Tite mostra a Neymar um caminho que poderá fazê-lo mais importante do que já é

Tirá-lo do jogo com a Bolívia após sofrer uma cotovelada foi decisão acertada do treinador

Ciro Campos, enviado especial a Natal, O Estado de S.Paulo

07 Outubro 2016 | 10h56

Três vitórias em três partidas. Esse é o resumo da era Tite na seleção brasileira. Ainda é cedo para euforia, mas é inegável que o Brasil tem outra cara nas Eliminatórias, esbanja confiança e alegria e pavimenta seu caminho para a Copa da Rússia. Nesse curto período de tempo, Tite ganhou o grupo e tem tirado dele situações novas, como o fato de manter Neymar no jogo porque o time estava vem e de sacá-lo após uma cotovelada que recebeu na maldade de um rival. Tite percebeu que poderia perder o atacante 'de cabeça cheia' num possível revide. Preferiu chamá-lo para o banco. Nessas três partidas, Tite diminuiu bem o fardo das costas do principal jogador do Brasil, teme por sua condição física, dada a sequência de jogos no ano, e tem lhe mostrado um caminho que poderá torná-lo ainda mais importante do que já para o futebol mundial.

Como se sentiu com a torcida cantando o seu nome?

Já tenho a dimensão exata que é o grupo de trabalho que tem a responsabilidade grande. Então, fico feliz pelo desempenho deles, fico contente porque a torcida reconheceu isso. Não trabalho sozinho. Os fisioterapeutas fizeram um grande trabalho, o departamento médico trabalhou muito bem para recuperar os jogadores e deixar a equipe leve e solta do jeito que jogou aqui em Natal.

A atuação te agradou?

O que mais me deixou feliz foi a maturidade da equipe. O clima era de já ganhou. Mas isso é lá fora, não pode ser nosso. Sabíamos das dificuldades. Tivemos de reajustar todo o trabalho em função disso. Com o treinamento tático, os jogadores conseguiram manter o padrão do time. Isso gera confiança, que traz o bom desempenho.

O que achou da Bolívia?

Analisamos que a Bolívia poderia fazer pressão alta como fez contra o Chile. Assim, corríamos o risco de perder a bola na saída, mas sabíamos que, furando esse bloqueio inicial, daríamos chance para Neymar, Jesus e Coutinho chegarem ao gol em jogadas rápidas. Trabalhamos para encontrar os jogadores no último terço do campo e promover o talento que todos eles têm. A Bolívia parou demais o jogo, fez faltas para tentar desequilibrar emocionalmente, provocavam, falavam demais. Faltou ao árbitro coibir isso. O meu lado é orientar o Neymar para ter maturidade. Tanto que no intervalo, voltei com ele e falei para continuar a ser ofensivo. Nós jogamos de forma objetiva, procuramos fazer o gol e respeitar a Bolívia. 

A jogada do segundo gol foi um lance bastante coletivo. Isso representa o que você quer?

Vamos pegar números para refletir. Os dados estatísticos mostram que transitar mais rápido a bola na linha de quatro aumenta a efetividade e o número de chances criadas. 

A boa atuação do Giuliano coloca dúvida na sua cabeça?

Fico contente. Estou curtindo. Quando chegou o intervalo do jogo, eu estava chateado pelo cartão do Neymar, mas falei que estava com orgulho de ver o primeiro tempo dessa forma. Falei que ia fazer ajustes, pedi para manter pressão alta e alertei para marcar a jogada de pivô no Marcelo Moreno. Resumindo: fugi da pergunta porque não sei quem vai jogar (risos).

A virada repetina na campanha da seleção fazia parte dos seus sonhos tão rapidamente?

Não. Eu vou demorar para dormir. A adrenalina está a mil. Eu não esperava que os resultados aparecessem tão rápido. O que a comissão técnica trabalhou, foi demais. O quanto foi dificil ajustar a equipe para estar limpa como hoje... Tivemos de encontrar posição, analisar a função que exerciam nos seus clubes para eu não ficar que nem o Professor Pardal.

Gostou de ver a pressão render um gol logo cedo?

Nosso time é móvel, tem rodinhas nos pés. Quando você consegue isso, agride rápido. O jogador inteligente vê a linha de passe do adversário. O Neymar viu isso, cortou a linha de passe no pé direito do zagueiro, que ficou apavorado. Tenho jogadores com essas características. 

A dupla Neymar e Gabriel Jesus era o que a seleção precisava?

Temos vários atletas com boa mobilidade, com uma transição formada por jogadores muito agudos. Os laterais são construtores de jogadas também. É prematuro, mas começa a se desenhar um grupo que vai se consolidando. A classificação está muito embolada, mas não posso deixar de enaltecer esse desempenho.

Neymar estará na Venezuela? Quem joga na vaga dele?

Não sei qual será a escalação ainda. Ele vinha há quase dez jogos seguidos no Barcelona. O técnico deles, o Luis Enrique, tinha planejado tirá-lo do time, por medo de estourar. Eu estava em dilema para escalar. Tinha dúvida. Cheguei a ter medo de estourar, fiquei com medo pela saúde do atleta. Geralmente no quinto jogo seguido a possibilidade de ter uma lesão é grande. Mas lá no Barcelona ele não pode sair porque o Messi se machucou.

Como fica a euforia do elenco?

Eu olhava para o Papai do céu quando escutava o meu nome e pedia para ter luz e ficar feliz com o torcedor daqui. Só tenho a dizer obrigado a eles. Não é ser falso humilde. Temos de ficar felizes. Só pedi para que os jogadores mantivessem o respeito. Nada de tocar bola e virar o rosto. Não fizemos isso em momento algum. Começamos o segundo tempo com três chances seguidas. Todas com o Neymar pela esquerda. Ele sofreu falta, ficou quieto. Procuramos esse equilíbrio. 

O que muda sem Neymar?

É desumano colocar sobre o Neymar toda a responsabilidade. Da mesma forma que se o Neymar não nos ajudar na marcação e não cumprir sua função tática, ele vai sobrecarregar a equipe. Claro que ele é a liderança técnica. Um garoto bom que vocês não conhecem e estou começando a conhecer. Ele tem um coração enorme. Ele abraça os cinco meninos do Sub-20 que estão com a gente e  os ajuda a descontrair. A equipe tem de ser forte sem o Neymar e, quando ele estiver, ele precisa ajudar a fortalecer a equipe. 

Qual foi o objetivo de voltar com ele para o segundo tempo?

A equipe estava engrenada, ajustada, com um atleta que está em um nível de confiança altíssimo. Não vou prejudicar a seleção por causa do cartão dele. Faz parte da maturidade do atleta saber que as situações do primeiro tempo vão continuar, e você não deve falar com o árbitro, não responder ao adversário. Pedi para que jogasse, sem prejudicar a equipe.

Como vê a equipe com o esquema tático que trouxe?

Vimos a maturidade da seleção, que construiu esse resulado. O esquema tático quem colocou foi o Dunga, não fui eu. A estrutura e o posicionamento são meus, mas o esquema é anterior. Eu não dei essa nova dinâmica, foram os atletas e a qualidade deles que deram.

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