Lucas Figueiredo/CBF
Lucas Figueiredo/CBF

Tite vive uma montanha-russa emocional na Copa do Mundo da Rússia

Tenso, aliviado, feliz: técnico da seleção viveu 'um turbilhão' de emoções, como ele mesmo definiu

Almir Leite, Leandro Silveira, enviados especias / Sochi, O Estado de S.Paulo

01 Julho 2018 | 00h00

Ansiedade, tensão, alívio, alegria, confiança, felicidade. O técnico Tite experimentou várias sensações na primeira fase da Copa do Mundo da Rússia. Da angústia que precedeu a estreia contra a Suíça à retirada da carga dos ombros que o fez planejar tomar uma caipirinha para comemorar a vitória sobre a Sérvia e a classificação para as oitavas de final, o treinador da seleção brasileira viveu um “turbilhão de emoções”, como ele mesmo admitiu. Turbilhão revelado por meio de expressões faciais e frases sinceras, muitas delas em bom “titês”, a cada momento que passou na Rússia.

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Na semana do jogo com os suíços, Tite estava inquieto por estrear em uma Copa – assim como ele, o Mundial da Rússia é o primeiro da maioria de seus jogadores e de quase todos os membros da comissão técnica (as exceções são o preparador de goleiros Taffarel e o preparador físico Fabio Mahseradjian). Nos treinos, por vezes, o técnico caminhava de um lado para outro e em determinado momento olhava para o céu, como se estivesse pedindo ajuda.

“Não tomo remédios para dormir, mas tento administrar meus fantasminhas de alguma forma. Tenho o meu lado humano também”, disse, na véspera da estreia no Mundial. Sua tensão era visível e ficava clara pelo sorriso nervoso e testa franzida durante o contato com os jornalistas. Mesmo ressaltando confiança no trabalho de preparação, que definiu com “bem feito”, Tite tinha receio de que algo desse errado para o Brasil. 

Após o empate por 1 a 1, o treinador reconheceu que a ansiedade “bateu forte” na seleção brasileira. “Atingiu os jogadores e o técnico também.” 

Além de ansioso, ele ficou irritado com o gol suíço por ter sido marcado após um “empurrão claro” de Zuber em Miranda, mas procurou se controlar. Revelou, no entanto, que no vestiário o zagueiro demonstrou arrependimento por não ter se atirado ao chão no lance. “Disse a ele: ‘Não, aí seria simulação, e eu não quero isso de vocês’.”

 

Nos dias que se seguiram, Tite tentou evitar ficar excessivamente pilhado. A tensão pela estreia deu lugar à aflição pela obrigação de vencer a Costa Rica. O treinador fez de tudo para se descontrair, até mesmo participar de uma roda de bobinho com os jogadores (no dia em que Neymar abandonou o treinamento mais cedo por sentir dores no tornozelo direito). Em algumas ocasiões, pareceu calmo até demais. Estava se esforçando para se controlar.

“Tudo na seleção tem uma pressa maior na sua execução. Porém, antes da pressa, tem coerência, discernimento, confiança, análise”, ponderou. Ele temia que os atletas continuassem ansiosos e que isso atrapalhasse a equipe contra os costa-riquenhos no segundo jogo. 

O Brasil sofreu para vencer, só chegou aos gols nos acréscimos, Neymar demonstrou total descontrole em campo, mas Tite preferiu enxergar outro aspecto na seleção. “Deu aula”, analisou sobre o segundo tempo brasileiro em São Petersburgo.

O resultado deixou o treinador aliviado e confiante. O alívio se deu pelo fato de a classificação ter ficado próxima – um empate diante dos sérvios seria suficiente – e a confiança pelo desempenho na etapa final. Tite viu evolução na equipe.

TOMBO

O treinador só lamentou não ter podido comemorar o primeiro gol contra a Costa Rica, marcado por Philippe Coutinho, porque levou um tombo cinematográfico. “Sensacional porque não foi tu”, respondeu a um repórter que adjetivou a queda. “Me deu uma fisgada, não estou andando direito”, comentou, dando risada. “Eu ia comemorar junto, mas o Ederson bateu (nele), o Cássio junto. Aí, ferrou. Tive de voltar pro banco.”

Tite ainda sentia algum desconforto na entrevistas, com auditórios tomados e muitos jornalistas estrangeiros. Mas voltou a brincar. Sentiu-se mais leve após a segunda rodada.

Ele confessou, antes do jogo com a Sérvia, que ainda não estava tranquilo totalmente e sim com “expectativa”. Mas já conseguia descontrair e fazer piadas sobre si mesmo na Copa. 

Tite é um defensor ferrenho de seus jogadores. “Quando eu era jogador, não gostava que me expusessem. Eu não exponho os meus atletas”, justifica. Não diz o que fala para eles, “por uma questão de ética”, e são raras as situações em que admite, mesmo que seja claro para o mundo, que um dos seus escalados não jogou bem.

Nesta Copa, abriu uma exceção na estreia ao reconhecer que “Paulinho não estava muito feliz” e, por isso, foi substituído. O mais comum, no entanto, é protegê-los, como fez contra as críticas ao excesso de individualismo de Neymar. “Do Neymar, não vou retirar a característica do transgressor. Último terço (do campo)? Vai dentro! Finta! Característica do futebol brasileiro. Não vou retirar.”

Além do xodó da seleção, o treinador também se preocupa em defender os outros remanescentes do fracasso de 2014 – Thiago Silva, Marcelo, Paulinho, Willian e Fernandinho. “Se pegássemos todo mundo que foi criticado na Copa do Mundo, seria terra arrasada. A vida e o futebol não são assim.” É assim que Tite pensa, e age.

 

 

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