Fernando Arbex/Estadão
Fernando Arbex/Estadão

Título do Santos e batalha em Rosário completam 15 anos

Conquista da Copa Conmebol quebrou tabu santista de 39 anos sem taças internacionais

Fernando Arbex, Especial para O Estado de S. Paulo

21 de outubro de 2013 | 08h43

SÃO PAULO - O jejum de grandes títulos do Santos não acabou oficialmente em 1998, mas aquela temporada deu um alento à torcida do clube antes do surgimento de Diego e Robinho. O time então comandado por Emerson Leão foi semifinalista da Copa do Brasil e do Campeonato Brasileiro, e nesta segunda-feira completa 15 anos do título da Copa Conmebol, a primeira taça internacional santista desde 1969. A conquista veio após uma batalha travada com o Rosário Central, o vice-campeão naquela oportunidade.

Para chegar à decisão, a equipe eliminou Once Caldas, LDU e o surpreendente Sampaio Corrêa, que disputava a Série B do Brasileirão e se classificou para o torneio sul-americano por ter sido campeão da Copa da Norte de 1998. Passados os confrontos com colombianos, equatorianos e maranhenses, o Santos foi encontrar na decisão os argentinos do Rosário Central, campeão de 1995 e que havia eliminado o Atlético Mineiro para fazer nova final.

JOGO NA VILA

O Santos decidiu o primeiro jogo na Vila Belmiro e fez valer o mando de campo. Aos 21 minutos do primeiro tempo, Anderson Lima cobrou escanteio do lado direito e Claudiomiro subiu para cabecear para o gol. Porém, a equipe santista não conseguiu furar de novo a retranca do Rosário Central e teve de se contentar com o placar de 1 a 0. O jogo ainda teve expulsos os argentinos Bustus Montoya, Marcelo Carracedo e Darío Scotto, além dos santistas Viola – artilheiro e destaque do time na temporada –, Jean e Leão. Um dos que poderiam ter recebido o cartão vermelho foi o ex-zagueiro/volante Narciso. Enquanto o jogo estava paralisado no segundo tempo, ele agrediu um jogador do Rosário. De costas, o árbitro uruguaio Jose Luis da Rosa acatou a reclamação dos visitantes,  mas expulsou o zagueiro Jean, que estava próximo ao lance. “O meia-esquerda deles passou por mim e me deu um beliscão, eu abri o braço e pegou nele”, contou Narciso, hoje técnico das categorias de base do Palmeiras, afirmando que foi um lance casual.

A CHEGADA

O incidente envolvendo Narciso e brigas entre as torcidas rivais em Santos, além de pedras atiradas no ônibus do elenco do Rosário Central, deram a tônica do que esperava os brasileiros na Argentina. Na chegada ao Gigante de Arroyito, o transporte santista nem conseguiu se aproximar do estádio, bloqueado por barras bravas. Os policiais fizeram uma barreira para isolar a delegação até a entrada, disparando para cima para dispersar quem quisesse tumultuar e atirar objetos. Não deu certo: “O isolamento se rompeu e cada um correu para um lado, foi um desespero. Eu entrei por uma porta que não tinha nada a ver e um senhor me conduziu até o nosso vestiário”, disse Zetti.

Depois da confusão, jogadores, diretoria e comissão técnica se reuniram para decidir se o time jogaria a partida. “Eu mandei todo mundo parar de aquecer e falei que não haveria jogo”, contou Leão. A falta de segurança e o histórico do técnico no país, que um ano antes havia quebrado um osso da face em briga campal após título do Atlético Mineiro sobre o Lánus, pesaram para que o time não se apresentasse naquele dia. “O nosso receio era de como iríamos sair, se não houvesse jogo”, afirmou Narciso, o capitão daquela equipe, que se reuniu com Zetti, Leão, os dirigente José Paulo Fernandes e Marco Aurélio Cunha, e o presidente Samir Habdul-Hack para decidir se haveria o duelo. A situação foi resolvida quando a Conmebol permitiu que treinador, apesar da suspensão, ficasse no banco de reservas.

“Onde eu ia ficar?”, indagou Leão. “Os argentinos não queriam que um brasileiro fosse campeão de novo lá dentro. O chefe de segurança me disse que não se responsabilizava por nós. Eu respondi que, se algo acontecesse conosco, o problema seria diplomático entre os dois países”, relatou o técnico. Resolvido o impasse, o Santos foi para o jogo com 50 minutos de atraso.

A DECISÃO

Até aquele dia, o Rosário Central tinha 22 vitórias, seis empates e duas derrotas em competições sul-americanas atuando no Gigante de Arroyito e, em 1995, devolveu placar sofrido de 4 a 0 para o Atlético Mineiro, na segunda partida final daquele ano, sagrando-se campeão nos pênaltis. Confiantes nesse histórico, 46 mil pessoas pagaram ingresso para assistir à decisão, torcendo para um time argentino desfalcado de três peças ofensivas por causa das expulsões no Brasil. Leão tinha ainda mais problemas. Além dos suspensos Jean e Viola, os titulares Argel, Aristizábal, Jorginho e Lúcio estavam machucados e nem viajaram, enquanto Alessandro Cambalhota atuou com uma lesão na virilha. Além da dificuldade na escalação, também não havia tranquilidade dentro do gramado. “Jogaram de tudo em mim, até um radinho de pilha que caiu funcionando. Eu o guardo até hoje”, revelou Zetti.

As novidades do time escalado no 4-5-1 – com apenas três atletas de linha no banco de suplentes – eram o zagueiro Sandro e os meio-campistas Élder, Eduardo Marques e aquele que foi um herói improvável. “O Fernandes foi importantíssimo. Ele segurou a bola e fez o relógio passar”, afirmou Zetti. O hoje aposentado meia, que fez apenas cinco jogos nos seis meses que ficou no Santos, elogiou a orientação de Leão para aquele confronto. “Ele foi fundamental no meu início de carreira me dando muita confiança. Eu tinha só 20 anos. Entrei no lugar do Viola e, como eu era mais técnico do que rápido, fiquei com essa função de reter a bola”, explicou Fernandes, elegendo Zetti o melhor em campo.

“Fui uma das melhores atuações da minha carreira, acho que a melhor pelo Santos”, disse o ex-goleiro, que fez nove defesas no jogo, algumas muito difíceis. Em duelo de 57 faltas marcadas, o Rosário teve 66% de posse de bola, teve chute na trave, mas não furou a retranca santista, empatando em 0 a 0 e perdendo o título. Nem o objetivo dos argentinos de agredir Narciso foi alcançado. “Terminou e ele estava perto do túnel, já desceu correndo”, lembrou Zetti.

COMEMORAÇÃO

A fila de conquistas importantes do clube iniciada em 1984 só terminou em 2002, mas a Copa Conmebol foi muito comemorada pelos torcedores – mesmo que nem tanto pelos atletas. A festa no gramado foi apressada pelos policiais e pelo batalhão de seguranças levados pelo clube, que, alegando falta de segurança, convenceram os jogadores a descer para o vestiário logo após rápida volta olímpica com o troféu. “A gente deixou o estádio e só celebrou no hotel lá na Argentina. A torcida ficou muito feliz, mas no fim de semana a gente já tinha jogo”, contou Narciso. Na volta da delegação a Santos, no dia 22 de outubro de 1998, os torcedores tomaram as ruas da cidade e acompanharam elenco e comissão técnica num desfile em carro de bombeiros pelas ruas da cidade. O endereço final da festa foi na Rua Princesa Isabel, sem número, onde fica a Vila Belmiro e até hoje a taça está exposta.

ROSÁRIO CENTRAL 0 X 0 SANTOS

ROSÁRIO CENTRAL -  Buljubasich; Marra (Cappelletti), Gerbaudo, Cuberas e Jara; Rivarola, Daniele, Hugo González (Equi González) e Walter Gaitán; Coronel e Macerateri (Ruiz). Técnico – Edgardo Bauza.

SANTOS – Zetti; Anderson Lima, Sandro, Claudiomiro e Athirson; Narciso, Marcos Basílio, Élder, Eduardo Marques e Fernandes (Baiano); Alessandro Cambalhota (Adiel). Técnico – Emerson Leão.

ÁRBITRO – Ubaldo Aquino-PAR.

CARTÕES AMARELOS – Sandro, Claudiomiro, Athirson, Marcos Basílio e Narciso (Santos); Darío Marra, Maximiliano Cuberas e Sebastián Coronel (Rosário Central).

CARTÕES VERMELHOS – Eduardo Marques (Santos) e Cristian Daniele (Rosário Central).

RENDA – Não disponível.

PÚBLICO – 46.000 pagantes.

LOCAL - Estádio Gigante de Arroyito-ARG.

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