Título paulista de 1982, o 1.º da Democracia Corintiana, completa 30 anos

A turma de Biro-Biro, Wladimir, Casagrande e Sócrates fez história no futebol brasileiro

Pedro Proença, especial para o Estado, O Estado de S.Paulo

12 de dezembro de 2012 | 15h15

SÃO PAULO - Há 30 anos, em 1982, com dois gols de Biro-Biro e um de Casagrande, o Corinthians derrotava o São Paulo por 3 a 1 diante de 66.851 torcedores. Dessa forma, conquistava o 18º dos 26 títulos estaduais que ostenta em sua história. Seria apenas mais uma conquista do clube, não fosse a primeira de uma fase no Parque São Jorge que ficou conhecida como Democracia Corinthiana (com H mesmo), na qual os jogadores, respaldados pelo diretor de futebol, o sociólogo Adilson Monteiro Alves, começaram a votar e a opinar em todas as questões do elenco. O grupo de jogadores participava desde coisas simples, como se o time iria para o Rio de ônibus ou avião, até assuntos mais complexos, como contratações.

Tudo começou pouco mais de um ano antes da conquista, nos primeiros dias de novembro de 1981, quando Adilson foi apresentado ao elenco. Sua condição para aceitar foi que não houvesse interferência de outros dirigentes no vestiário.

Sociólogo, barbudo e usando jeans e camisa, ele era totalmente diferente de qualquer dirigente que os jogadores já haviam visto. Em seu discurso, se disse emocionado por estar perto de seus ídolos (Wladimir, Sócrates e Zé Maria) e que não sabia como mudar o rumo do Corinthians (que ficara em 26º no Brasileiro e em 8º no Paulista, sendo obrigado a disputar a Taça de Prata, que equivalia à segunda divisão), mas tinha certeza de que não seria capaz de conseguir nada sozinho, por isso se mostrou solícito a ouvir os jogadores e decidir com eles o futuro do clube.

O entusiasmo dos jogadores com o dirigente era enorme. Wladimir dizia que "queria ter 15 anos para recomeçar". Sócrates lamentava que Adilson tivesse chegado com o campeonato perto do fim e Zé Maria declarou que nunca vira nada igual em toda a sua carreira. "Estou transmitindo a eles que não devem aceitar a vida tal qual ela se apresenta. Devemos questionar, discutir. Mudar, se for preciso. Foi assim que o povo brasileiro conseguiu a abertura. E é assim que o Corinthians pode se tornar um time espiritual e financeiramente mais forte que Flamengo e São Paulo."

Além de Adilson, havia Mario Travaglini no banco, um treinador calmo, de fala mansa e afável. Ele escutava os jogadores e até perguntava a eles sobre o modo como se sentiam mais à vontade em campo. Apesar dessa nova mudança de rumo, o Corinthians começou 1982 desacreditado. Do outro lado da cidade havia o São Paulo, bicampeão paulista em 1980 e 1981 e vice brasileiro no ano anterior, que contava com Serginho Chulapa, Darío Pereyra e o bom goleiro Waldir Peres. No Brasil, ainda havia equipes fortes, como o Grêmio, de De León e Renato Gaúcho, campeão brasileiro em 1981; o Flamengo, de Zico e Raul, campeão da América e do mundo; além do Atlético Mineiro, de Toninho Cerezo e Luizinho.

O regulamento confuso daquele ano permitia às equipes ascenderem da Taça de Prata à segunda fase da de Ouro (que equivalia à Série A de hoje) no mesmo ano. O Corinthians fez uma campanha invicta - 2 a 0 contra o América (RJ), 0 a 0 com a Catuense (BA), 5 a 1 diante do Guará (DF), 0 a 0 contra o Colatina (ES), 3 a 1 sobre o Lêonico (BA), 4 a 2 em cima do Fortaleza (CE) e 2 a 1 diante do Campinense(PB), que o deixou em primeiro lugar no seu grupo na Taça de Prata. Esses resultados colocaram o Alvinegro na mesma chave de Flamengo, Internacional e Atlético Mineiro. Os dois primeiros garantiriam uma vaga nas oitavas de final do Brasileiro.

CAMPEÃO PAULISTA

Logo no início do campeonato, o Corinthians já mostrou sua força: conquistou seis triunfos nos oito primeiros jogos. O principal aconteceu no clássico com o Palmeiras. É verdade que o arquirrival não era nem sombra do que fora na década de 1970, mas ainda assim inspirava temor. Nessa partida, Casagrande, então com 19 anos, fez misérias na zaga palestrina, marcou três gols na vitória por 5 a 1. Para completar a festa corintiana, o zagueiro palmeirense Luís Pereira foi obrigado a vestir a camisa alvinegra e dar uma volta olímpica carregando o lateral corintiano Wladimir nas costas: fruto de uma aposta.

O Corinthians seguiu firme em sua campanha e se sagrou campeão do primeiro turno. Após um segundo turno igualmente regular, chegou à última rodada com chance de ser campeão antecipado. Para isso, bastaria vencer o São Paulo na última rodada do returno, que liderava o turno. Wladimir abriu a contagem aos 25 minutos, mas, dois minutos depois, o zagueiro uruguaio Darío Pereyra acertou um sem-pulo e empatou e, aos 39 minutos, Serginho pôs o São Paulo na frente. Aos 22 do segundo tempo, Ataliba trouxe de volta a igualdade ao marcador. No fim, contudo, Renato decidiu em favor da equipe do Morumbi. "O que acontece é que o Corinthians jogou tudo, pois a vitória evitaria todo o desgaste que terá pela frente. Agora serão duas partidas nas quais poderá acontecer qualquer coisa, e os torcedores que vierem a campo certamente não se arrependerão", declarou Darío Pereyra aos repórteres que cobriam o jogo.

No dia 8, as duas equipes voltaram a duelar no Morumbi, desta vez pelo primeiro jogo de uma eventual melhor de três que valia o título. O São Paulo contava com uma ausência significativa: o intempestivo Serginho, que havia recebido cartão amarelo no jogo anterior. Mas desta vez nem toda a garra uruguaia de Darío Pereyra seria capaz de parar Sócrates, que anotou o gol que deu a vitória aos 14 minutos da etapa inicial. O São Paulo bem que tentou empatar, mas esbarrou no goleiro Solito, cria do Parque São Jorge.

No dia 12 de dezembro, bastava um empate para o Corinthians ser campeão. O São Paulo, por sua vez, precisava de qualquer vitória. O preparador físico do tricolor, Gilberto Tim, provocava: "O São Paulo é um time de machos. O Corinthians tem um bando de meninos que vai tremer." A bravata não teve efeito nenhum. Diante de 66.851 torcedores, o Corinthians soube segurar o ímpeto do São Paulo na primeira etapa e decidir a fatura no segundo tempo.

Esbanjando vitalidade, Biro-Biro abriu o placar aos 26 minutos da etapa final, após receber belo passe de calcanhar de Sócrates. Darío Pereyra decretou a igualdade pouco depois, aos 32, aproveitando rebote do goleiro Solito, e o São Paulo chegou até a ter um gol de Serginho anulado poucos minutos depois. O dia era do Corinthians. E de Biro-Biro, que, aos 37, foi servido por Zenon e colocou entre as pernas de Waldir Peres. Para completar, aos 41 minutos o jovem Casagrande recebeu um passe de Ataliba e, com categoria, bateu rasteiro no contrapé do goleiro são-paulino. O título estava mais que sacramentado.

O FIM DA DEMOCRACIA

Em 1983, o termo Democracia Corinthiana apareceu efetivamente. Era o nome da chapa de Waldemar Pires, que concorria e venceria a eleição no Corinthians. Sócrates, Wladimir, Casagrande e Adilson viraram os grandes baluartes do movimento, dando inúmeras entrevistas e propalando aos quatro ventos o movimento. Dentro de campo, o time não estava se acertando e ficou fora da fase final do Brasileiro. No decorrer da campanha, o técnico Mario Travaglini deu lugar ao lateral Zé Maria, que se aposentaria naquele ano.

Para o Campeonato Paulista, os jogadores escolheram Jorge Vieira, que, formado em colégio militar, não era adepto de práticas de liberdade e viveu em constante conflito com os 'democratas'. Apesar disso, o Corinthians foi bicampeão paulista em cima do São Paulo.

SÓCRATES

A Democracia começou o ano de 1984 fortalecida pelo bi e pela excelente fase de Sócrates, cuja popularidade aumentaria ainda mais com a participação nas Diretas Já. Wladimir, Ataliba, Juninho e Casagrande também subiram no palanque. O meia corintiano condicionou sua permanência no Brasil à aprovação da emenda Dante de Oliveira, que tinha por objetivo reinstaurar as eleições diretas para presidente da República. Como a emenda não foi aprovada, o jogador deixou o Corinthians e rumou para a Fiorentina, na Itália. No voo para a Jamaica, local no qual Sócrates faria sua última partida pelo clube, houve um episódio que enfraqueceria o movimento: a demissão de Vieira. O treinador ficou sabendo que Casagrande declarara que se Vieira quisesse renovar com o Corinthians deveria, no mínimo, rever seus métodos de trabalho. Revoltado, ele disse ao presidente que Casagrande não embarcaria. Entretanto, Adilson Monteiro Alves tomou as dores do atacante e Sócrates se recusou a jogar sem o amigo.

Vieira deixou o cargo. Mas Casagrande não passaria incólume pelo episódio: Valdemar Pires o emprestou ao São Paulo até o fim da temporada. Sem o principal líder e com Casagrande desprestigiado, o movimento perdeu força e morreu de vez em abril de 1985, quando Adilson Monteiro Alves perdeu as eleições presidenciais para o industrial Roberto Páscua.

OS NÚMEROS DA CAMPANHA DO PAULISTA DE 1982

39 jogos

25 vitórias

8 empates

6 derrotas

74 gols marcados

32 sofridos

Artilheiro: Casagrande, com 28 gols

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.