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Toda unanimidade é burra

O uso do árbitro de vídeo deveria ser precedido de amplo debate e informações

Marília Ruiz, O Estado de S.Paulo

28 de setembro de 2017 | 04h00

O inesquecível e incopiável Nelson Rodrigues (1912-1980) decretou com um quê de folclore que o videoteipe era burro. Para o cronista célebre e míope, valeria muito mais o que ele achava ter visto em campo do que a imagem fria poderia desmentir depois.

Assim, com toda licença poética que os “deuses” do Maracanã lhe davam, Nelson Rodrigues resistiu e desdenhou da verdade nua e crua que as invenções tecnológicas deram às transmissões esportivas. Aliás, a tecnologia avançou tão rápido quanto a mudança dos costumes, das leis e de muitas convenções sociais: não cabe em 2017 a “lei de Gérson”; e um gol de mão à la Maradona não tem mais trilha sonora de tango dramático, mas de funk com apologia ao crime. A cruzada ética chegou ao futebol e essa notícia é ótima. Só não é ótima a notícia da chegada dos cavaleiros do apocalipse da cruzada ética: a comissão de arbitragem da CBF tem se prestado a um papel patético.

Ao flertar com o auxílio da arbitragem de vídeo desde o ano passado, a CBF havia informado ter destacado pessoas para cuidarem do processo de transição e do treinamento dos árbitros (que nem profissionais são): mentira. O projeto “árbitro de vídeo” andou a passos de tartaruga desde então (para não dizer que não andou) e foi atropelado por uma sequência de polêmicas que fizeram o chefe de arbitragem cometer um erro pior do que a validação de um gol de mão ou de um impedimento legal por três metros: a CBF anunciou a adoção do árbitro de vídeo a toque de caixa. Não tem regra fixada oficialmente, não tem gente qualificada, não tem tecnologia (a Globo vai precisar ajudar e emprestar como der), mas tem uma possibilidade absurda de bagunçar ainda mais a estabilidade do campeonato.

Em modalidades como vôlei e tênis, sempre mencionadas quando analisamos a possibilidade do “desafio” no futebol, o uso da imagem é para decidir questões objetivas: bola dentro ou fora; bateu ou não na rede; tocou ou não em algum jogador. Ponto final. Não tem desafio para saber se o jogador teve a intenção de tocar na bola; se a falta foi violenta ou “violentinha”; se o jogador está em posição de impedimento apenas, ou se está efetivamente impedido porque participa da jogada. 

Parece-me óbvio que nove em dez pessoas que gostam de futebol querem o auxílio da tecnologia para melhorar as arbitragens (eu sou uma das nove), mas tenho certeza também que, enquanto os árbitros não forem profissionais e os critérios forem absolutamente subjetivos (para dizer o mínimo), o uso das imagens vai apenas aumentar a quantidade de confusões e desculpas esfarrapadas após as partidas. Depois de “a culpa é da imprensa”, e de “toda a imprensa é corintiana”, teremos a certeza de que todos os softwares de monitoramento de imagem também terão coração alvinegro.

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