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Todo Mundo e Ninguém

Reação de jogadores a críticas lembra personagens do teatro do português Gil Vicente

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

25 de abril de 2018 | 04h00

Dudu está aborrecido com o público, a ponto de não ter comemorado o gol da vitória sobre o Internacional, na rodada de domingo do Brasileiro. Tchê Tchê e Keno irritaram-se com postagens que os acusavam de se sentirem enfadados por terem de usar uniforme do clube nas viagens. Alguns se fecham e evitam entrevistas. Em suma: há jogadores do Palmeiras incomodados com o que se fala deles em redes sociais e com cobranças que ouvem nas partidas. 

Novidade nisso? Zero, nenhuma. Público azucrinar atletas é tão velho quanto o futebol. Não há nada mais instável na vida do que humor de torcedor. Num mesmo jogo, ele vaia, xinga, execra e idolatra o mesmo personagem. Por isso, não se devem levar muito a sério nem críticas nem elogios. Só vale ficar esperto se houver exageros em ameaças; daí é caso de polícia. 

Ao ouvir lamentações de Dudu e outros palestrinos, voltaram à memória as aulas de Português do professor Antônio Trivinho, no antigo curso Científico do Liceu Coração de Jesus, no milênio passado. Na época, estudava-se Literatura Portuguesa – e bem. Um dos autores do currículo era Gil Vicente, teatrólogo que fez sucesso enorme na Corte de D. João 3 no século 16.

Uma das comédias (ou Autos) que mais divertiam a rapaziada do Liceu era “Lusitânia”, de 1532. Num determinado trecho, o diabo (Belzebu) e seu auxiliar Dinato ouviam o diálogo entre um rico mercador (Todo Mundo) e um pobretão (Ninguém). Todo Mundo dizia: “Busco quem me louvasse tudo o que eu fizesse.” Ao que Ninguém emendava: “E eu quem me repreendesse em cada coisa que eu errasse...”

Então, Belzebu pedia para Dinato: “Escreve aí que Todo Mundo quer ser louvado e Ninguém quer ser repreendido.” No jogo de palavras, estava a graça da cena... E prosseguia na base de “Escreva que Todo Mundo é mentiroso e Ninguém diz a verdade”, etc. etc.

Pois o sentimento de Dudu e colegas é compreensível, não contém nada de anormal e vale para todos. Não nos sentimos confortáveis com espinafração, difícil alguém ficar indiferente a esculachos e reprimendas; precisamos de afago. Mas, como personagens com muita visibilidade, seria interessante se fizessem exercícios diários e autocontrole, como complemento às atividades físicas. E, se tivessem disposição para leitura, lhes faria bem perder uma horinha com a obra vicentina... Veriam como é possível abstrair das cornetadas.

Não dar ouvidos a grosserias não significa fechar-se à realidade e viver mundo à parte. Essa é tentação recorrente para boleiros, quando tratam de afastar-se dos mais exaltados. A turma do Palmeiras carece de autocrítica – e não pode ficar fora o técnico Roger Machado. A equipe que largou bem na temporada, freou o ímpeto, diminuiu a eficiência e viu aumentar a instabilidade.

Não esteve bem no segundo clássico da decisão do Paulista, falhou diante do Boca em casa, ficou a dever diante do Botafogo na estreia do Brasileiro e encontrou dificuldade para bater o Inter no Pacaembu – com erros de arbitragem a seu favor, sem nenhuma manifestação da cartolagem alviverde a respeito disso... 

Quer dizer, a origem de broncas dos fãs está no desempenho do time e não em má vontade popular. O incômodo que vem das arquibancadas cresce na mesma proporção em que o rival Corinthians acumula resultados satisfatórios. Não há como separar uma situação da outra.

Uma ocasião para iniciar arrancada é o duelo de hoje com o Boca Juniors. Se sair de La Bombonera com vitória, ou ao menos com empate digno, reconquistará a confiança por ora abalada. Teste de ferro para a maturidade de Dudu e companheiros, além do treinador, que tem sido conservador em suas decisões.

Afinal, Todo Mundo quer vitórias e Ninguém se interessa por derrotas.

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