Hélvio Romero/Estadão
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Topa tudo por dinheiro

Entram em campo cercados por frieza, distância, como quem cumpre uma obrigação

Mauro Cezar Pereira, O Estado de S.Paulo

14 de outubro de 2019 | 04h00

Quatro jogos, contra Colômbia, Peru, Senegal e Nigéria, dois nos Estados Unidos e outro par de amistosos sem graça em Cingapura, do outro lado do planeta. Empates, apenas empates colecionados pela seleção brasileira nesse período. Resultados tão desanimadores, desestimulantes e sonolentos quanto o desempenho do time escalado por Tite

As aparições da equipe cebeefiana fazem parecer mais absurda toda a discussão que precedeu essas partidas de viés mais comercial do que técnico. O treinador desfalcou time brasileiros, reféns do calendário, que é feito de acordo com as conveniências da CBF. Quatro sequer entraram em campo: Weverton (Palmeiras), Santos (Athletico-PR), Marcinho (Botafogo) e Rodrigo Caio (Flamengo).

Outro integrante do elenco da equipe que lidera o Campeonato Brasileiro, Gabigol atuou por 27 minutos diante dos nigerianos. Everton Cebolinha (Grêmio) esteve em ação nas duas partidas por 76, Daniel Alves (São Paulo) jogou ambos os compromissos, do início ao fim, e Matheus Henrique (Grêmio) participou de 22 minutos contra os senegaleses.

Fossem essas pelejas disputadas no Brasil, pelo menos os atletas não teriam de viajar por mais de 48 horas entre ida e volta. Mas os interesses financeiros falam mais alto do que o aspecto técnico. Com isso, a camisa amarela desfila em ambientes como o grande e semideserto estádio cingapuriano. Algo melancólico como o que se viu em campo.

Ontem, no 1 a 1 com a Nigéria, o time brasileiro fez um primeiro tempo de acomodação, como três dias antes quando Senegal foi o adversário. Levou 1 a 0 em jogada na qual Joe Aribo passou como quis para abrir o placar. Marquinhos chegou a virar de costas enquanto o jogador do Rangers, da Escócia, nascido na Inglaterra e filho de nigerianos, passava. 

Chidozie Awaziem, do Leganés, da Espanha, dominou seu setor. Atuando como lateral-direito, não deu chances a Everton Cebolinha, que sequer voltou para o segundo tempo, tampouco a Renan Lodi, que teve sua chance como titular. Antes do intervalo, o que se viu em grandes trechos do cotejo foi o time brasileiro marcando em seu campo ante o toque de bola africano.

Postura típica do futebol praticado no Brasil, o esperar em seu campo, o atrair a equipe adversária para contra-atacar, especialmente quando se tem a vantagem no placar. Neste caso, especificamente, ela sequer existia quando os comandados por Tite, muito mais experientes e tecnicamente qualificados, se resguardavam em sua metade da cancha.

Por que não pressionar a Nigéria em seu campo? Como se vê nos times brasileiros treinados por estrangeiros, o Santos de Jorge Sampaoli e o Flamengo de Jorge Jesus. Talvez a falta de intensidade vista em quase toda a primeira metade do jogo fosse apenas reflexo do pouco interesse dos jogadores. De certa forma compreensível, pela atmosfera fria, pelo amistoso sem sal.

Sim, esses jogos que a seleção disputa dentro do denominado "Brazil Global Tour" não trazem com eles desafio esportivo. A motivação é baixa e jogadores que frequentam as listas de convocados não têm razões para encará-los como fazem em jogos valendo três pontos. Entram em campo cercados por frieza, distância, como quem cumpre uma obrigação.

Essa postura protocolar é mera consequência da forma como a CBF trata seus jogos, financeiramente rentáveis, mas fracos esportivamente. Quem joga uma grande liga europeia, a Champions League, ou mesmo a Libertadores e o Campeonato Brasileiro deve sentir enorme diferença lá dentro do campo. Por que do lado de fora, é impossível não sentir isso.

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