Torcedor de poltrona

Há fenômeno interessante no Brasileiro deste ano: a média de público aumentou muito. As cenas de estádios lotados, ou com grande ocupação, são frequentes e mostram que existe mercado fértil para atrair torcedor. Mais gente anda disposta a sair do sofá para ver o time no campo. 

Antero Greco, O Estado de S. Paulo

05 Agosto 2015 | 03h00

Os números encantam; no entanto, cabe uma observação. Arrastam plateias são os que têm mais simpatizantes pelo País. Pode conferir como Palmeiras, Corinthians, Flamengo, Inter, Atlético, São Paulo apresentam os melhores retrospectos, tanto em renda como em gente que levam às praças esportivas, como é tradição. A diferença está na afluência atual, surpreendente e animadora.

Motivos são variados, e perambulam entre os projetos de sócios-torcedores, as novas construções, os investimentos das equipes em elencos, até em modismo. Isso mesmo, parece contradição, mas há quem queira viver a experiência de acomodar-se nas arquibancadas porque é programa descolado. Muitos não entendem nada de futebol e acham cool estar na multidão, no mínimo para fazer selfies e postar nas redes sociais. Não há mal algum nisso e não vamos cornetar a diversão de ninguém.

Ao contrário, é preciso estimular essa iniciativa, antes tão integrada à rotina que nem merecia comentários. “Ir no campo”, no meio ou em fins de semana, sempre foi um dos passatempos corriqueiros do brasileiro. Razão para encontros entre amigos, oportunidade para curtir um espetáculo, desabafar, desestressar e se emocionar. Viver. 

Com o tempo, várias interferências surgiram para desencorajar o cidadão a sair de casa. A lista é enorme, vai de horários a condução difícil, preços dos serviços a insegurança, partidas ruins a campeonatos monótonos e assim por diante. Cada um pode acrescentar razões complementares. Tem até a comodidade da televisão e do pay-per-view.

Chega-se a um detalhe fundamental. A tevê é excelente meio de divulgação e entretenimento, além de ser comandada por profissionais competentes. Os executivos perceberam o potencial do negócio, encontraram cratera nas finanças dos clubes e na mentalidade dos cartolas, e não demorou para tomarem conta do mercado. O avanço foi sutil, progressivo, ano a ano, quota a quota aumentada e antecipada. Quando caíram em si, as agremiações notaram que havia um tutor a controlá-las. 

A parceria não é nociva - tomem-se os ingleses como exemplo. Os times ganharão fortunas, nas próximas temporadas, com os direitos de transmissão, assim como espanhóis e alemães faturam alto com a telinha. A questão nacional está na divisão dos valores, na exposição dos times, nos horários. Enfim, na dependência imensa da tevê - que banca um produto e dele dispõe como melhor lhe aprouver. A ver como vai comportar-se a comissão formada para discutir interesses dos clubes, desde tabela, formato de competições, regulamentos, tevê e publicidade. 

Aspecto importante a ser abordado é o da visibilidade. A tevê lida com ibope, a rentabilidade vem da audiência. Daí, a preferência por colocar regularmente times populares com destaque na programação. À custa de olhar para as próprias metas, existe o risco de difundir poucas marcas, quase impô-las ao público. Repete-se, assim, o que fazia a antiga Rádio Nacional, cujas ondas curtas alcançavam o Nordeste e, com isso, divulgava os times cariocas. 

A tevê de hoje é mais poderosa que o rádio de ontem na persuasão das massas. Vai em busca de telespectadores, sem atentar para o risco de tirar fãs de times de centros esportivamente menos competitivos. Não é por acaso que no Nordeste se veem na tela mais Fla e Corinthians, para citar dois ícones, do que equipes da terra. 

Mais fácil cativá-los a simpatizar com gigantes do que com agremiações domésticas. Só que, em vez de torcedores, no sentido amplo, se cria plateia de poltrona, a curtir os “times de coração” só virtualmente, enquanto o mercado local míngua.

O tema vale reflexões das tevês, dos clubes, dos cronistas esportivos.

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