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Torcedor de treinos

Com ingressos caros, resta aos mais pobres a opção de ver ensaios abertos dos times

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

18 de abril de 2018 | 04h00

A cena tem virado corriqueira: milhares de torcedores paramentados ocupam arquibancadas de modernas arenas nacionais e fazem tremenda festa para acompanharem... treinos das equipes. Só nos últimos dias, o fenômeno foi visto no Allianz Parque (Palmeiras), em Itaquera (Corinthians) e ontem no Maracanã (Flamengo). Se não ocorre lotação esgotada, sobram poucos lugares vazios. 

Um sucesso de público, pois não? Manifestação de carinho e apoio, não é verdade? Demonstração de amor incondicional, não lhe parece? Ode ao fascínio do futebol, certo?

Sim é a resposta para todas as indagações do parágrafo anterior e outras do gênero. Sobretudo por estarem envolvidas três das agremiações mais populares do País, que arrastam multidões até em embarque e desembarque de avião. Mas há um quê de amargura sob a reação de euforia de homens, mulheres, crianças espalhadas pelas cadeiras de plástico dessas catedrais, erguidas ou reformadas para a Copa de 14. 

Muitos dos que dedicam manhãs, tardes ou noites para tal programa de lazer têm ali a única (ou rara) oportunidade de pisar num local que lhes ficou proibitivo. Estádio de futebol até um tempo atrás era dos recintos mais acessíveis, democráticos e favoráveis à miscigenação social. Nas gerais, nas numeradas descobertas, e até nas cobertas e nas tribunas especiais, misturavam-se ricos, pobres, jovens, velhos, indiferentes a padrões econômicos. Por duas, três horas, anulavam-se as diferenças de casta e prevalecia apenas a paixão comum a todos: as cores do clube.

O futebol era do povo e para o povo. Agora não. Como assim?!, alguém pode perguntar. Basta ver como vivem cheias as casas de palmeirenses e corintianos. Ambas são provas indesmentíveis que havia demanda reprimida. Muitas vezes ingressos são disputados à tapa, exageros à parte, porque somem num instante. Abriu a venda e, em poucos minutos, eles evaporam.

Verdade. Mas vão para os bolsos de plateia que apresenta pequena variação. São os beneficiários dos programas de sócio-torcedor. Nada contra a iniciativa, uma forma de fidelizar e cativar o fã. Aquele que compra entradas com regularidade tem pontuação maior e, por extensão, preferência na hora da abertura dos guichês virtuais.

No entanto, os planos que dão mais vantagem para os sócios são também os que têm preço maior. Isso, de cara, exclui grande parte dos contingentes que antes iam ao estádio, com regularidade ou em ocasiões eventuais. Ah, mas há um pequeno lote disponível para compra avulsa. Fato, mas a preços exorbitantes, impeditivos, assustadores até para carteiras abonadas. 

Os clubes dizem que é necessária essa política para estimular a adesão aos planos de associados. E, dessa maneira, não se rompe o círculo vicioso. Numa ponta estão os que podem pagar, e se tornam cativos (no que há de bom e ruim); na outra, a massa excluída do espetáculo, que se limita a ver pela televisão (quando o sinal é liberado) ou a curtir pelo rádio.

Exceto por iniciativas isoladas, os dirigentes não se importam em buscar meio-termo, que continue a premiar os abastados que pagam mensalidades e os que contam o dinheirinho em troca da emoção de ver o time ao vivo. Perde-se, com a postura elitista, parcela significativa de torcida “raiz”, aquela que transforma as arenas em caldeirões. 

Para os antigos geraldinos e arquibaldos fica o consolo relés desses treinos abertos. Por um quilo de alimento entregue na portaria, ganham um convite para ver atletas a fazer aquecimento no gramado, bater bola, brincar de bobinho, dar chutes despretensiosos ao gol. E só. 

Meninos talvez curtam o passatempo. Adultos devem ficar com aperto no peito ao constatarem que o “esporte do povo” virou para poucos. 

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