Michael Dodge/EFE
Michael Dodge/EFE

Torcedor precisa se acostumar com som artificial dos estádios

Sem a presença de torcedores nas arquibancadas, clubes pelo mundo apostam em caixas de som como forma de fazer pressão sobre os adversários em seus domínios

Andrew Keh/The New York Times, O Estado de S.Paulo

18 de junho de 2020 | 10h00

O torcedor de futebol Andy Phillips, de Kent, Inglaterra, tem uma expectativa modesta em relação às partidas que assiste na TV: deseja apenas ver e ouvir algo que esteja acontecendo de verdade. A pandemia do coronavírus complicou um pouco as coisas para ele. Enquanto assistia, Phillips, de 53 anos, ficou “pasmo” ao descobrir que a emissora de TV tinha aplicado um barulho artificial de torcida à transmissão ao vivo a partir do estádio, fechado ao público por causa da pandemia e, por isso, bastante silencioso.

“Psicologicamente incomodado”, ele escutou o público falso celebrar gols, vaiar as faltas mais duras e fazer cada vez mais barulho conforme a bola se aproximava da grande área. “Para ser sincero, foi horrível”, resumiu ele. “Não tenho nada contra o barulho da torcida, mas aquilo era falso.”

Com o esporte profissional ensaiando um retorno aos campos e quadras, funcionários das grandes ligas e executivos de televisão de todo o mundo parecem ter chegado a um consenso: eventos esportivos sem o acompanhamento do barulho do público são estranhos demais, frustrantes demais e tediosos demais para que o torcedor médio os suporte.

Com isso, uma trilha sonora pré-gravada com o barulho da torcida se tornou a solução escolhida para acompanhar as transmissões de esportes tão diferentes quanto o futebol húngaro, o beisebol sul-coreano e o rúgbi australiano.

Para cada torcedor como Phillips, para quem a aceitação do artifício auditivo parece bizarra e existencialmente problemática — “Quem precisa de torcida no estádio quando podemos criar nosso próprio clima?”, disse ele —, há também aqueles para quem o ruído simulado traz uma sensação de conforto e normalidade.

“Qualquer coisa é melhor do que ouvir o eco de um estádio vazio”, afirmou Hunter Fauci, 24 anos, de Highlands, Nova York, membro da torcida americana do time alemão Borussia Mönchengladbach, que gostou do barulho artificial. “O silêncio deixaria muitos torcedores deprimidos.”

Parece que essas ilusões sônicas podem ser polarizadoras. Mas elas estão prestes a se tornar ainda mais presentes nas próximas semanas, com a lenta retomada de outros importantes campeonatos esportivos. O narrador de futebol americano da Fox Sports, Joe Buck, por exemplo, disse no mês passado em entrevista à SiriusXM Radio que era “praticamente certeza” o uso de ruído artificial de torcida nas partidas da NFL transmitidas ao vivo este ano caso ocorram em estádios vazios.

Quando for retomada essa semana, a Premier League do futebol inglês vai oferecer ao público uma simulação de barulho de torcida com a ajuda dos jogos de videogame da série “FIFA Soccer” (Electronic Arts). Enquanto o público doméstico da Premier League britânica e da Bundesliga alemã tem a opção de alternar entre canais de áudio paralelos, os espectadores americanos assistindo pelas emissoras NBC e Fox receberão o áudio reforçado como padrão para esses campeonatos.

A espanhola La Liga voltou na semana passada, também recorrendo ao ruído virtual de estádio emprestado do “FIFA Soccer”. De maneira semelhante, a The Athletic informou este mês que a NBA (basquete americano) debateu a possibilidade de usar o áudio da série de jogos de videogame “NBA 2K” para dar mais vida às suas transmissões. As reações à ideia de trocar a quietude da vida real por um ruído fabricado variaram da ansiedade distópica à resignação e ao alívio.

Vinte anos atrás, a emissora CBS foi criticada quando usou ruídos gravados da natureza para animar uma transmissão das partidas de golfe dos PGA Championships; especialistas em pássaros repararam que o som dos falantes da TV incluía espécies não nativas. Mas as circunstâncias atuais parecem ter criado um ambiente mais receptivo a experimentação.

“Estamos dispostos a tentar qualquer coisa”, assegurou Bob Costas, narrador esportivo de longa carreira. “Só não queremos que o resultado lembre a claque de uma comédia ruim dos anos 60.”

Mas o bom e velho riso enlatado pode ser a referência mais adequada para o que está ocorrendo hoje. Alessandro Reitano, vice-presidente de produções esportivas da Sky Germany, disse que o objetivo da iniciativa do “áudio incrementado” da Bundesliga era “esquecer por um momento que estamos assistindo a um estádio vazio” — esforço que também envolveu o uso mais generoso de ângulos de câmera mais fechados — e não deixar que as partidas ficassem com uma atmosfera de “crianças jogando no parque”.

Dessa forma, o público poderia novamente mergulhar na narrativa de uma partida. As emoções poderiam ser estimuladas. Ainda assim, os cartolas da Bundesliga hesitaram em relação ao projeto. A torcida alemã se orgulha muito da natureza orgânica e democrática dos esportes no país e, nos anos mais recentes, tudo que pareceu diminuir a importância do público ao vivo atraiu uma forte reação negativa, especialmente envolvendo a TV.

Mas, por causa das circunstâncias sem precedentes, a liga seguiu adiante na criação de um sistema próprio no qual um painel sonoro com mais de uma dúzia de amostragens de áudio cuidadosamente selecionadas — tão específicas quanto o nervosismo crescente dos aplausos enquanto uma equipe busca o gol de empate ou as vaias de indignação diante de um lance anulado pelo VAR — fica à disposição de um operador assistindo a partir de um estúdio em Munique.

Certa vez, há muito tempo, assistir a um jogo na TV era como escutar as conversas de uma festa ocorrendo em algum lugar distante. Agora, as partidas são criadas sob medida para o público da TV, e é na tela — seja da sala de estar ou do celular — que ocorre a ação.

Não faltam exemplos da longa jornada dos esportes rumo à hiper-realidade: telas eletrônicas que indicam à torcida quando gritar; camarotes de luxo que recriam o conforto de uma sala de estar dentro do estádio; sistemas de arbitragem que usam o vídeo e o replay instantâneo; indicadores na tela para as informações mais relevantes de cada esporte; e os esportes eletrônicos.

Cabe ao observador decidir se isso é bom ou ruim.

Dois meses atrás, Ross Hawkins, 44 anos, desenvolvedor de software de Auckland, Nova Zelândia, sentou-se para assistir ao evento de luta livre profissional WrestleMania 36, que foi realizado sem público este ano. Para ele, a ausência do barulho do público “acabou com o esporte”.

Várias semanas mais tarde, Hawkins sintonizou uma partida da National Rugby League australiana, que retomou as atividades no fim do mês passado com barulho falso de torcida. O doce zumbido da torcida falsa fez com que se sentisse subitamente calmo. Esqueceu que o mundo tinha sido colocado de pernas para o ar por causa de um vírus. Ele pôde desfrutar novamente dos esportes.

“Como alguém razoavelmente inteligente, percebi que era um barulho falso, e não esperava que fizesse tanta diferença, mas fez”, disse Hawkins. “É como se o cérebro pedisse uma gota de normalidade em 2020.” / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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