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Torcedor que virou presidente e reergueu clube gaúcho sonha em ser premiado pela Fifa

Tiago Rech conquistou dois títulos com o Santa Cruz, e viu sua história repercutir até fora do Brasil

Ricardo Magatti, O Estado de S.Paulo

13 de julho de 2021 | 15h00

Tiago Rech, 34 anos, é protagonista de uma história que reforça que o futebol extrapola o campo de jogo. Jornalista de formação, ele, movido pela paixão, uniu esforços para resgatar o Santa Cruz, modesto clube do Rio Grande do Sul. De “torcedor solitário” tornou-se presidente da equipe e foi um dos principais responsáveis pelos dois únicos títulos do clube em 108 anos de existência. Agora, o dirigente sonha alto e quer ser premiado na Fifa.

Tiago ficou conhecido como o “torcedor solitário” em 2012, quando assistiu sozinho, das arquibancadas do antigo estádio Olímpico, a goleada sofrida pelo Santa Cruz para o Grêmio, pelo Campeonato Gaúcho daquele ano. No fim de 2020, quando veio a primeira conquista, passadas muitas dificuldades e decepções, o torcedor que virou presidente do clube decidiu fazer uma postagem com duas fotos que representam fielmente a sua trajetória de fã abandonado até a glória. “O início de um sonho… deu tudo certo”, escreveu ele, para resumir a insólita jornada. A publicação se tornou viral e a imensa repercussão, até fora do Brasil, com publicação na tradicional revista inglesa FourFourTwo, ajudou Tiago a continuar sua caminhada à frente do Santa Cruz.

“Meu sonho é colocar o clube na primeira divisão estadual e encerrar meu ciclo”, planeja o presidente, que está em seu segundo mandato, em entrevista ao Estadão. Ele era assessor de comunicação da equipe e assumiu o “Galo” em 2014. Em seus primeiros anos, lidou com problemas conhecidos na rotina de um time pequeno, como falta de dinheiro e um calendário curto. Até por isso, não teve sucesso em sua primeira passagem. Pensou em desistir da vida de cartola, e voltou a atuar como jornalista. No entanto, a paixão falou mais alto. Retornou à presidência em 2019 com experiência acumulada e o roteiro foi diferente dessa vez.

Depois de vencer a Copa FGF (Federação Gaúcha de Futebol) em dezembro de 2020, ver o clube disputar a Copa do Brasil pela primeira vez nesta temporada - foi eliminado pelo Joinville - e a Recopa Gaúcha, para a qual perdeu para o Grêmio, ele ainda está eufórico pela conquista da terceira divisão estadual, no início deste mês. Foram duas taças conquistadas em sete meses que reergueram o Santa Cruz e, sobretudo, deram perspectiva a uma equipe antes afundada em dívidas.

Tiago sonha em catapultar a equipe à elite do futebol gaúcho. Mas sua meta, antes disso, é ser indicado ao Fifa Fan Award. A premiação da entidade que rege o futebol mundial é destinada ao torcedor do ano. Nas últimas duas temporadas, a honraria foi concedida a torcedores brasileiros. Silvia Grecco, que narra os jogos do Palmeiras no Allianz Parque para o filho deficiente visual, venceu em 2019. No ano passado, a conquista ficou com o incansável Marivaldo, que anda cerca de 60 km e atravessa três cidades para assistir aos jogos do Sport. Então, por que Tiago não pode sonhar?

“Quero conectar essa minha história de passar de torcedor solitário a presidente e trazer mais recursos para o clube e ter, daqui a pouco, um orçamento de R$ 1 milhão”, justifica o mandatário. As indicações para o Fifa Fan Award são feitas por um júri fechado, mas a mobilização nas redes sociais pode ajudar. O ex-jogador Wendell Lira, ganhador do Prêmio Puskás de gol mais bonito de 2015, foi um dos que já fez coro para Tiago estar na premiação em Zurique no fim do ano. 

A última folha salarial do Santa Cruz era de R$ 70 mil, e os gastos mensais giravam em torno de R$ 120 mil. Hoje, todas as dívidas de curto prazo estão quitadas e as finanças, em dia. Havia quase R$ 100 mil em pendências. “Nós temos estádio que vale cerca de R$ 15 milhões e uma situação financeira invejável. Hoje, somos um clube organizado”, resume o orgulhoso mandatário.

Mas como se deu a reestruturação do modesto clube gaúcho? Segundo Tiago, o sucesso de gestão passa pela escolha de bons profissionais, a mobilização da cidade para ajudar o time, o investimento de parceiros, a chegada de um técnico competente (William Campos), a ousadia em arriscar e o dinheiro proveniente do mecanismo de solidariedade da Fifa. Só a compra de Tiago Volpi pelo São Paulo junto ao Querétaro, do México, rendeu R$ 100 mil ao time gaúcho. O experiente goleiro teve parte de sua formação no Santa Cruz. A transferência do meia-atacante Pedro Henrique do futebol grego para o turco trouxe R$ 30 mil aos cofres do clube.

“Pode parecer pouco, mas pra um clube pequeno do interior ajuda muito”, ressalta Tiago. “Nosso orçamento anual geralmente nos campeonatos é de R$ 500 mil o ano inteiro”. Para comparar, só pela participação na primeira fase da Copa do Brasil em 2021, o clube ganhou R$ 530 mil.

Mas vieram mais recursos importantes para resgatar o Santa Cruz. A comunidade se mobilizou e Tiago conseguiu patrocínios locais relevantes. Supermercado, site de apostas, loja de materiais elétricos e empresa de bebidas foram alguns dos que apoiaram financeiramente a equipe. Além disso, a história de Tiago se espalhou tanto que até a Ambev, gigante multinacional de bebidas, por meio da Brahma, fez uma ação de marketing com o dirigente. 

“Foi o primeiro clube fora da Série A em que eles investiram. Não foi nada absurdo, mas foi o maior valor que a gente recebeu de patrocínio. Foi divulgado um vídeo com a minha história”, conta Tiago. Depois de um tempo afastado da sua profissão, ele voltou a atuar como jornalista e, paralelamente à gestão do clube, é coordenador de comunicação da prefeitura de Santa Cruz do Sul. 

Sem calendário 

O jovem dirigente sonha alto, mas a curto prazo as medidas são cautelosas. Tanto que ele decidiu que o clube não vai disputar a Copa FGF nesta temporada e, portanto, não terá calendário até o fim do ano. Com isso, todo o elenco foi dispensado. O plano é conseguir pagar os salários dos funcionários até o fim do ano e, em 2022, montar um novo grupo forte para disputar a divisão de acesso com chances de ascender à elite do futebol gaúcho. 

“Voltamos à realidade de clube do interior. Vamos ter que começar tudo de novo”, define Tiago. “A gente poderia jogar a Copa FGF, e tentar de novo uma vaga na Copa do Brasil, mas seria muito arriscado. Eu poderia antecipar a receita e depois não ter dinheiro. Nosso ideia é se manter financeiramente e talvez jogar alguma competição de base e se organizar para vir forte no ano que vem”, explica.

Roteiro de milagres

Se Tiago protagoniza uma história incomum, com o clube do qual é presidente não é diferente. O título da terceirona ocorreu com um roteiro com mais reviravoltas que qualquer jogo da Eurocopa. A final foi marcada por uma imponderável virada do Santa Cruz, que flertou com o fracasso, mas no fim desfrutou da glória.

No jogo de ida da final, o Gaúcho venceu por 2 a 0. Na volta, o Santa Cruz ficou com um a menos no começo do jogo. Mesmo assim, abriu o placar. No entanto, o adversário empatou no fim do primeiro tempo e virou no início da etapa final. Ocorre que o Santa Cruz contava com um jogador à espera de virar herói: Leylon. Ele saiu do banco para empatar aos cinco, virar aos oito e ampliar aos 11 minutos, com direito a golaço de bicicleta. Nos pênaltis, o goleiro Diego defendeu duas cobranças e garantiu o improvável título.

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