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Torcedores do Brasil

O futebol, finalmente, se manifestou, e a favor da democracia

Ugo Giorgetti, O Estado de S.Paulo

07 de junho de 2020 | 05h00

Não é sempre que torcedores organizados conseguem me entusiasmar. Conseguiram domingo passado na Avenida Paulista. Aliás, onde escrevi torcedores organizados, deveria ler-se torcedores desorganizados, já que as diretorias das quatro maiores torcidas de São Paulo deixaram completamente a critério de seus integrantes participar ou não da manifestação.

Isso é importante porque a partir daí a reunião de torcedores passou a pertencer não a uma torcida, mas à consciência individual de cada participante. A democracia partiu já dessa decisão. De fato, pouco se distinguia a proveniência da maioria dos torcedores. O fato é que se viu, pela primeira vez, um protesto que vinha diretamente das ruas. Aliás, não se tratava de um protesto, mas de uma reivindicação.

Não era uma manifestação contra, mas pró. E tinha uma só exigência: democracia. Essa foi a palavra mais ouvida na Avenida Paulista no domingo. E ouvida, por uma vez, filtrada pelo som rouco das vielas e becos. Vozes impuras e delirantes das quebradas, com o sotaque inconfundível dos estádios. A palavra democracia não vinha cantada, mas berrada. Aos urros, como se estivessem ali pertinho, no velho Pacaembu, os manifestantes faziam soar sua proclamação. Quando começaram a marchar com a agressividade de todas as torcidas nas grandes comemorações antes ou depois dos jogos, realmente deram medo. Mas estavam agredindo alguém? Estavam falando muito alto?

Gosto muito de manifestações pacificas. Gosto quando vejo pais levando crianças pela mão e mães sorridentes, felizes de estar ali se manifestando. Mas devo confessar que não sou nem um pouco indiferente quando vejo realmente uma manifestação de outra espécie, com outra gente, manifestações de outras épocas, que mostram que ninguém está ali para brincar, mas que a coisa é séria.

Quem sai para a rua em eventos como esse deve saber que tudo pode acontecer. Mesmo as mais pacíficas manifestações podem acabar na truculência e na baderna. Assim eu pensava vendo aquela turba caminhando pela Paulista carregando uma enorme faixa onde estava escrito DEMOCRACIA.

Devo fazer uma confissão pessoal. Por um momento me senti orgulhoso de ser parte da imprensa esportiva, de escrever sobre futebol, de poder considerar, portanto, minha gente, aqueles que faziam estremecer a avenida com seus berros. Deu o que tinha que dar e não me causou surpresa.

A Polícia Militar estava ali, e todos sabem que PM e torcedores de futebol não se amam exatamente.

Um acontecimento trivial, de poucas, ou nenhuma, consequências desencadeou e, desculpem o termo, coroou a manifestação. A PM aproveitou o incidente e partiu para cima dos torcedores. Não acredito, ou por outra, não há nenhuma prova que a PM tenha atacado os torcedores por motivos políticos. Afinal, quem não quer democracia? Hoje neste País são todos democratas, até os que pretendem destruí-la. A PM foi para cima talvez por velhas contas a ajustar, desencontros anteriores, rixas ancestrais das arquibancadas, porque, afinal, sempre foi assim.

Os torcedores sabiam o que ia acontecer, ouso até dizer que queriam que acontecesse. Porque há coisas mal resolvidas entre PMs e torcedores. Eles não se surpreenderam nem um pouco com a ação da PM. Sabiam como lidar com ela, foram recuando aos poucos, ateando fogo em caçambas, usando seus foguetes, pedras e o mais que tinham.

A PM, com suas bombas de gás e seus escudos, tentava fazê-los sair da avenida caminhando devagar em direção dos que recuavam, sem nunca atacar definitivamente.

Coisa comum, ninguém se feriu gravemente. Ou muito me engano ou os torcedores voltarão a sair, agora em maior número. Feitos os devidos reparos à truculência de ambas as partes, assistimos a uma verdadeira manifestação pacífica, que não deixa vítimas nem quebradeira, mas é coisa séria, não tenham dúvidas. O futebol se manifestou, finalmente.

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