Torcedores ingleses expulsam um cidadão negro do metrô de Paris. Clube será penalizado?

Com o enorme escândalo provocado por torcedores do Chelsea flagrados enquanto espancavam um parisiense negro, na noite de terça-feira, indubitavelmente alguém terá de ser punido.

Colette Davidson, The Christian Science Monitor - Tradução de Anna Capovilla, O Estado de S. Paulo

20 de fevereiro de 2015 | 18h54

A polícia francesa abriu uma sindicância no caso, com a ajuda da polícia metropolitana de Londres, para encontrar os responsáveis. O Chelsea F.C. definiu os atos como “abomináveis”, acrescentando que “não têm lugar no futebol ou na sociedade”, e prometeu apoiar toda ação criminal contra os torcedores. A Football Association, o organismo que regulamenta o futebol inglês, declarou ser favorável ao afastamento dos envolvidos dos estádios.

Mas quem deveria ser punido: os baderneiros ou o próprio Chelsea? E no caso deste último, ajudará restringir este comportamento dos torcedores, sobre os quais o clube não tem controle direto? Os especialistas afirmam que é possível, mas que a responsabilidade dos clubes pelos torcedores só vai até ali. Imagens captadas pelo vídeo amador, na terça, mostraram um negro sendo repetidamente esmurrado e empurrado para fora de um trem do metrô parisiense, quando torcedores do Chelsea se dirigiam para uma partida da Liga dos Campeões contra o Paris Saint-Germain. Minutos mais tarde, os torcedores foram vistos cantando: “Nós somos racistas, nós somos racistas e é disso que gostamos”.

Paul Nolan, um inglês que mora em Paris e filmou a cena em seu celular, a descreveu como “horrível” e “muito agressiva”. O homem que estava sendo empurrado, identificado apenas como Souleymane pelo jornal francês Le Parisien, disse: “Estas pessoas, estes ingleses deveriam ser encontrados, punidos e presos”.

Há décadas, o racismo é um aspecto muito negativo do futebol, afirma Bernadette Hetier, copresidente da organização antirracismo MRAP, sediada em Paris. Entretanto, ela diz que são os clubes que determinar as regras de conduta cabe aos clubes.

“O que vimos em Paris é abominável e chocante, mas sempre assistimos a este tipo de coisa nos esportes”, ela disse, e acrescentou: “Em parte o problema decorre dos treinadores que tomam excessivas liberdades em seu discurso, fazendo comentários racistas como se tivessem a permissão da sociedade para fazê-lo”. De fato, esta semana, o ex-treinador Arrigo Sacchi disse ao jornal Gazzetta dello Sport que “há pretos demais no futebol”, e que, “atualmente, não há dignidade e nem orgulho no futebol italiano, porque tem estrangeiros demais jogando nos times jovens”. Vamos criticar o clube?

No passado, a Uefa - a União das Associações Europeias de Futebol - tratou rapidamente de responsabilizar o time pelos torcedores malcomportados, proibindo a venda de ingressos e aplicando multas.

Em abril de 2013, o Dynamo da Ucrânia foi considerado culpado pela conduta racista dos seus torcedores durante os jogos contra o Paris Saint-Germain e o Bordeaux, e foi obrigado a jogar a partida seguinte pela copa da Europa num estádio vazio. O clube espanhol Villarreal foi multado em 12 mil euros (US$ 13 mil ) em maio do ano passado, depois que um torcedor atirou uma banana no jogador Dani Alves do Barcelona. E na segunda-feira passada, o clube italiano da Lazio foi proibido de jogar diante dos seus torcedores depois que estes cantaram hinos racistas num jogo contra o Genoa.

Mas embora punir comentários racistas, ou o hooliganismo dos torcedores num estádio seja bastante comum, a tarefa se torna mais complexa quando ocorre um incidente relacionado ao futebol fora do campo.

“Tecnicamente, o clube não se responsabiliza pelo comportamento dos seus torcedores que estes viajam e não se encontram num estádio”, diz Anthony King, professor de sociologia especializado em esportes e futebol na Universidade de Exeter.

Maurice Roche, professor emérito de sociologia e esportes na Universidade de Sheffield, disse ao Monitor que, “Considerando a postura assumida pelo Chelsea”, que condenou claramente o comportamento dos torcedores em Paris, “não está claro o que mais se poderá esperar que o clube faça nesta situação”.

OS LIMITES DA PUNIÇÃO

No entanto, observa o professor King : “O clube deve dar o exemplo, e o tom que ele adota influi em alguns dos seus torcedores”. Além disso, punir o clube pode contribuir para que os torcedores desistam do seu mau comportamento. O tumulto gerado no estádio de Heysel, em Bruxelas, em 1985, por exemplo, envolveu torcedores do clube inglês Liverpool e provocou a morte de 39 pessoas. Em resposta, a UEFA impôs a todos os clubes de futebol ingleses a proibição de participarem de todos os jogos da competição europeia.

“A proibição funcionou porque não houve nenhum jogo, portanto os torcedores responsáveis pelos atos deixaram de comparecer aos estádios”, diz King. “Logo, este tipo de punição pode ter definitivamente um efeito positivo para os que aderem ao hooliganismo”. Ele afirma ainda que mesmo quando se trata de torcedores que só querem fazer baderna, as sanções podem ser eficientes, principalmente para um time como o Chelsea, que tem uma longa historia de péssimo comportamento e racismo.

O professor Roche observa que o futebol inglês tem feito muito na luta contra o hooliganismo e o racismo, e que os torcedores que procuram baderna representam apenas uma pequena minoria. A “grande maioria de torcedores normais é composta de um número crescente de mulheres e de minorias étnicas, e também de crianças e famílias. Sua presença, além das vigorosas campanhas contra o racismo, explica em parte o fato de, hoje em dia, o discurso e o comportamento racistas serem uma raridade nos estádios de futebol na Inglaterra”.

Na realidade, Roche acrescenta: “É muito improvável, na minha opinião, que estes torcedores cantassem estas frases racistas nos seus estádios, porque eles sabem que existe um controle neste sentido e que seriam punidos pelo clube”.

Nos últimos tempos, segundo King, as punições tanto legais quanto esportivas, têm ajudado a manter os hooligans na linha. “Eles não querem ser fichados pela polícia e querem poder ir aos estádios e ver o futebol”.

 

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