Kieran Dodds/The New York Times
Kieran Dodds/The New York Times

Torcedores ingleses se unem em prol da solidariedade antes de jogos

Em várias cidades os torcedores, muitos deles rivais, se unem na porta dos estádios em ações em prol dos necessitados

Rory Smith, The New York Times / Newcastle

07 Fevereiro 2019 | 04h30

Bill Corcoran está em seu lugar de sempre, à sombra do estádio Saint James Park, em frente ao bar do Shearer, chacoalhando seu balde de moedas e notas, quando um grupo de dezenas de fãs do Manchester United desfila. Vestem casacos pretos, capuzes levantados para afastar o frio.

Assim que chegam a Corcoran, lançam um profundo e pouco lisonjeiro canto profano sobre o homem que dá seu nome ao bar: Alan Shearer, filho favorito de Newcastle, a cidade, e Newcastle, o time. Alguns fãs locais zombam em resposta. O barulho só faz os intrusos cantarem ainda mais alto.

Na parte de trás do grupo, um homem vê Corcoran e se vira em sua direção. Ele tira a carteira do bolso e folheia um punhado de notas. “Para quem você está coletando, companheiro?”, ele pergunta. Seu sotaque é de Manchester. “Para o banco de alimentos dos torcedores de Newcastle”, responde Corcoran, com suas vogais inconfundivelmente do nordeste.

O homem faz uma pausa. Embaralha as notas e escolhe uma nota roxa de 20 libras. Ele a desliza para dentro do balde e corre atrás do grupo. Retoma o refrão sem esforço. Ele está de volta a Shearer e Newcastle, antes mesmo de Corcoran ter tido a chance de agradecer.

Durante a hora seguinte, dezenas de fãs param no mesmo local. Alguns doam dinheiro. Alguns vêm trazendo sacolas de mantimentos, cheias até a borda com frutas enlatadas, cereais matinais e macarrão, para serem deixadas no estande improvisado atrás de Corcoran. Isso acontece sempre que o Newcastle joga em casa. Tão aguda é a fome na cidade agora, tão intensa é a demanda, que Corcoran e um punhado de outros voluntários fazem isso a cada duas semanas.

Tudo o que eles coletam – e eles captaram bastante, algo em torno de 200 mil libras (US$ 258 mil) – é enviado para o West End Food Bank, em uma das áreas mais carentes de Newcastle. É a maior instituição do gênero na Grã-Bretanha. “Não podemos ter pessoas famintas nesta cidade”, disse Corcoran. “É uma insígnia de vergonha.”

Essa terrível situação não é exclusiva de Newcastle. A demanda por bancos de alimentos na Grã-Bretanha disparou nos últimos anos: o Trussell Trust, que administra mais de 400 programas desse tipo, distribuiu cerca de 1,3 milhão de pacotes de mantimentos de seus centros no ano fiscal que termina em março, um aumento de 13%.

A alta, segundo a diretora executiva da entidade, Emma Revie, pode ser atribuída ao fato de muitas pessoas não terem “dinheiro suficiente para cobrir o aumento dos custos de itens como alimentação e moradia”.

E assim, em todo o país, a mesma coisa aconteceu: o futebol, e em particular seus fãs, enfrentam o problema. Newcastle não é a única; Corcoran e seus colegas disseram ter-se inspirado em uma iniciativa semelhante que começou em Liverpool em 2015. Os fãs do Celtic têm uma em Glasgow há anos. Nos últimos meses, torcedores em Manchester, Sunderland e Londres – entre outros – fizeram o mesmo.

Na frente de estádios cheios de astros multimilionários, os fãs assumiram a responsabilidade de ajudar quem mais precisa. “Gosto de sentir que estou fazendo a minha parte para devolver algo”, disse Sandra Farn ao deixar uma doação no estande atrás de Corcoran. Ela e seu filho, Alex, dirigem duas horas de Nottingham para cada partida em casa do Newcastle. Param em um supermercado primeiro e fazem as compras. Isso faz parte do ritual de ir a um jogo.

John McCorry, diretor executivo do banco de alimentos West End, acredita que houve aumento na demanda pelos serviços de sua organização desde que o governo da Grã-Bretanha introduziu uma versão experimental de seu sistema de bem-estar social Universal Credit em Newcastle em 2015.

O programa transfere uma série de pagamentos da previdência social para um benefício, mas os requerentes têm uma espera de cinco semanas para receber seu dinheiro enquanto a solicitação é avaliada. Outros necessitados, segundo McCorry, foram cortados pela tecnologia: o crédito deve ser aplicado online, e nem todos que o procuram têm acesso à internet. “Tais políticas foram concebidas por pessoas que não têm experiência com as realidades da vida para quem é afetado por elas”, disse.

Se o Crédito Universal ajudou a fornecer o incentivo, o Liverpool ofereceu o esquema de como ajudar. Torcedores deram apoio aos bancos de alimentos criados em 2015 por fãs do Liverpool e do Everton, incomodados com a existência de longas filas para um banco local de mantimentos e relatam que estavam lutando para lidar com a demanda, de acordo com Dave Kelly, um dos fundadores.

Kelly – fã do Everton – e Ian Byrne, torcedor do Liverpool, fizeram parte de uma campanha para convencer a Premier League a limitar os preços dos ingressos, e seu sucesso os convenceu de que os fãs tinham um poder ainda inexplorado. Eles promovem seu trabalho sob o slogan “A fome não usa cores de clube”; seus voluntários coletam alimentos antes de qualquer jogo em casa seja no Anfield, o lar do Liverpool, ou no Goodton Park, do Everton.

“No primeiro jogo no qual fizemos a coleta de alimentos, estávamos em frente ao Winslow Pub, em frente ao Goodison, e as doações acabaram indo para uma lixeira”, disse Kelly. “Agora, temos a logística para transportar alimentos e armazená-los nos armazéns. Tudo o que fazemos é auditado. O crescimento é incrível”. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

 

 

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