Cesar Magalhães/Ag. Pará/Divulgação
Cesar Magalhães/Ag. Pará/Divulgação

Torcida organizada do Paysandu, Alma Celeste não dá vez à homofobia

Grupo luta contra o preconceito e é agredido por outra facção por seu posicionamento

Carlos Mendes, especial para o Estado, e Marcio Dolzan, O Estado de S.Paulo

20 de julho de 2017 | 07h00

A violência como instrumento de intolerância nos estádios brasileiros encontrou um adversário na Alma Celeste, uma das facções do Paysandu. Por fazer campanha contra a homofobia, a torcida teve vários integrantes agredidos por membros de outra torcida organizada do clube, que acabou denunciado pelos atos homofóbicos. Na quarta-feira, o Papão foi absolvido pelo Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) – recebeu multa de R$ 7,5 mil por causa do tumulto, ocorrido no estádio da Curuzu. Mas a posição firme da Alma Celeste contra o preconceito tornou-se ainda mais conhecida.

A organizada, porém, teve de vencer o próprio preconceito e banir os gritos homofóbicos contra o maior rival, o Clube do Remo, para que sua ideologia inclusiva começasse a ser notada, inclusive fora do Estado do Pará. Na Parada LGBT, de junho, em São Paulo, a torcida foi homenageada por sua postura nas arquibancadas.

Sempre presente em campanhas de doação de sangue, órgãos e alimentos, visitas a hospitais e asilos, a Alma Celeste também tem de conviver com a intolerância dos pares.

Como ocorreu no fim de junho, durante partida contra o Luverdense (MT), pela Série B do Campeonato Brasileiro, no estádio da Curuzu – confronto que levaria o Paysandu aos tribunais. O gol do adversário no fim, empatando o jogo, revoltou integrantes da Terror Bicolor, facção banida dos estádios pela Justiça paraense, mas hoje sob o nome de Torcida Bicolor. 

Muitos torcedores já haviam deixado o estádio quando alguns integrantes da Alma Celeste foram agredidos fisicamente por membros da Torcida Bicolor. O caso acabou na polícia.

"Nós repudiamos não apenas a homofobia, mas qualquer forma de preconceito, seja racial, religioso ou contra idosos", disse ao Estado Suane Azevedo, da Banda Alma Celeste, sempre presente nos jogos do clube paraense.

A torcida foi criada há 10 anos e nas redes sociais já possui mais de 90 mil seguidores.

Para Suane, o episódio das agressões já foi superado e jamais deveria ter ocorrido. "Sei que ainda há medo e algumas ameaças que nossos companheiros sofrem pelas redes sociais, mas não desistiremos de frequentar os estádios e incentivar o time que tanto amamos."

Na partida de terça-feira, no Mangueirão, contra o Náutico, pela Série B, o time do Paysandu entrou em campo com uma grande faixa, afirmando que o clube rejeita "toda e qualquer forma de preconceito". 

Mas o tumulto no jogo com o Luverdense rendeu duas denúncias ao Paysandu. O clube foi enquadrado pela procuradoria do STJD por deixar de tomar providências capazes de prevenir e reprimir desordem, cuja pena poderia chegar a dez perdas de mando de campo e multa de até R$ 100 mil.

O motivo da briga também foi levado em conta, transformando-se no primeiro caso de julgamento de clube no futebol brasileiro por homofobia. Os termos da denúncia enquadravam o clube paraense em punições que variavam de multa, perda de pontos e até mesmo exclusão de campeonato.

No julgamento, porém, os auditores da terceira Comissão Disciplinar do STJD decidiram absolver o Paysandu da acusação de atos homofóbicos. E os R$ 7,5 mil da multa aplicada pela desordem serão revertidos em cestas básicas para a Apae de Belém, embora o clube possa recorrer da punição.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.