Márcio Fernandes/ Estadão
Márcio Fernandes/ Estadão

Com abaixo-assinado, torcida tenta salvar Canindé e a Portuguesa

Torcedores lançaram abaixo-assinado para que o complexo esportivo do clube seja reconhecido como patrimônio histórico

Andreza Galdeano e Paulo Beraldo, O Estado de S.Paulo

30 de março de 2018 | 07h06

Torcedores da Portuguesa iniciaram nesta semana um abaixo-assinado para pedir o tombamento do complexo esportivo Doutor Osvaldo Teixeira Duarte, um espaço com 102 mil m² ao lado da Marginal do Tietê. O objetivo dos torcedores é impedir a venda do patrimônio do clube de 98 anos para investidores.

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O documento já foi assinado por cinco mil pessoas e destaca que a Lusa está “sob ameaça de desaparecimento’’. De acordo com Beto Freire, um dos líderes do movimento pelo tombamento, o objetivo é alcançar 50 mil assinaturas e convencer os órgãos públicos a tombar o espaço e manter vivas as tradições da grande colônia portuguesa em São Paulo.

“A Portuguesa é um bem do País, representa nossos descobridores e tem importância nacional’’, diz. Segundo Freire, o esporte é apenas a “ponta do iceberg’’ do clube, que tem almoços, jantares, danças e celebrações da colônia portuguesa com frequência há décadas. Há, ainda, uma estação de metrô com o nome da agremiação e uma das maiores rodoviárias do mundo nas proximidades. “Se o poder público não fizer nada, vão demolir a história, porque a Portuguesa já faz parte da paisagem urbana’’, argumenta.

Para um imóvel ser reconhecido como patrimônio cultural é preciso identificar sua relevância, seja histórica, arquitetônica, ambiental, social ou afetiva, informa o Departamento de Patrimônio Histórico de São Paulo.

O arquiteto e urbanista José Geraldo Simões Junior, professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, explica que para um tombamento ocorrer é preciso justificar a relevância de um local e compará-lo com outros lugares semelhantes, para entender se há um valor “excepcional’’ no bem a ser tombado. “É preciso entender os atributos que justificam um tombamento, o que pode abranger só uma parte da construção ou todo o terreno’’, exemplifica.

O especialista, que já foi presidente do Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo (Conpresp), explica existir também o tombamento imaterial, caracterizado quando há aspectos relevantes para a cultura e a memória de uma comunidade.

Uma vez recebida a proposta, o órgão municipal, estadual ou federal deve avaliar e concluir se as justificativas são suficientes para um tombamento.

No caso do Canindé, o local pode ser analisado a partir de parâmetros como a importância do clube para a formação da região em que está inserido, seu projeto arquitetônico, sua história em relação à história da cidade e aos fatos esportivos de São Paulo, entre outros.

Em 2016, a torcida tentou ação semelhante, que não foi adiante porque o clube não enviou os documentos necessários para o processo ocorrer. Procurada, a diretoria da Portuguesa informou que não vai se manifestar sobre o abaixo-assinado atual.

Em campo, o time vive momento difícil, mas conseguiu se manter na Série A2 do Campeonato Paulista nesta semana após vencer o Guarani por 2 a 1. 

Nacional conseguiu tombamento de seu tradicional estádio

Outro clube histórico de São Paulo, o Nacional, conseguiu recentemente aquilo que a torcida da Portuguesa busca. Cobiçado por empreiteiras da Barra Funda, bairro da zona oeste de São Paulo, o estádio Nicolau Alayon foi tombado em dezembro de 2017 e agora vive dias mais tranquilos. Localizado em terreno valorizado na rua Comendador Souza, teve uma de suas arquibancadas e o gramado tombados pelo Conpresp. 

Ayrton Santiago, presidente do Nacional, diz que um ponto positivo do tombamento é o “sossego’’ do clube. “Não vai nos atrapalhar no futuro e facilitou nossa convivência com as imobiliárias’’, conta. “Sempre nos procuraram, mas nunca tivemos o interesse em se desfazer do estádio.’’

Caso chegue à elite paulista, o clube, hoje na A2, pretende ampliar a capacidade do estádio para 22 mil lugares. “Esse projeto já contava com a possibilidade de tombamento, então iríamos usar o espaço atrás do gol e depois o ao lado das piscinas, deixando o local mais moderno internamente e com a mesma estrutura’’, explica Santiago. 

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