Daniel Teixeira/Estadão
Paulo Castilho defende sufocar as organizadas, mas vai propor torcida mista nos estádios Daniel Teixeira/Estadão

Torcida única em clássicos paulistas pode se tornar mista

Projeto em fase inicial de estudo pelo Ministério Público vai propor a clubes, federação e à área de segurança adoção de medida nos moldes do Gre-Nal

Almir Leite, O Estado de S.Paulo

12 de março de 2017 | 06h00

A adoção da torcida única nos clássicos do futebol paulista como maneira de evitar a violência das torcidas organizadas completa um ano no próximo mês, sem data para acabar – inicialmente, a medida iria vigorar até dezembro passado, mas foi prorrogada até o fim deste ano. No entanto, surge uma possibilidade de flexibilização. Está sendo formulada, em fase inicial, proposta para a introdução da torcida mista, nos moldes do que ocorre no Rio Grande do Sul no clássico Gre-Nal.

Adotada em 4 de abril de 2016, dia seguinte à morte de um senhor de 60 anos no bairro de São Miguel Paulista horas antes de um Corinthians e Palmeiras disputado no Pacaembu – era transeunte e levou um tiro durante briga entre organizados –, a torcida única tem “aprovação constrangida’’ de autoridades e dirigentes. A medida é considerada necessária para conter a violência. Mas também há concordância de que tira o brilho dos estádios e vai contra a cultura do futebol.

A iniciativa de propor a criação de espaço nos estádios a ser dividido por torcedores de duas equipes é do Ministério Público, órgão que bancou, junto com a secretaria de Segurança Pública de São Paulo, a introdução da torcida única. “Estamos estudando como buscar alternativa para trazer o torcedor de volta e poder ter duas torcidas nos estádios’’, revelou ao Estado o promotor do Juizado Especial Criminal, Paulo Castilho.

Ele afirmou que “em breve’’ vai se reunir com o secretário de Segurança Pública, Mágino Barbosa Filho, com o presidente da Federação Paulista, Reinaldo Carneiro Bastos, e com dirigentes, e sugerir que se crie essa “zona mista’’. O encontro, ainda sem data, pode ser o primeiro passo para a flexibilização.

MAL NECESSÁRIO

Os defensores da torcida única encaram a restrição como um mal necessário. Citam números positivos, como a melhora do público. De acordo com Castilho, após a medida, aumentou em 11% a presença de mulheres e crianças nos clássicos, em 20% a média de público e o efetivo policial envolvido nos jogos foi reduzido em 150 homens. A Secretaria de Segurança Pública, em nota, afirmou que foi observado queda de 75% nos embates de torcidas.

A restrição também visou mexer no caixa das organizadas. “As pessoas analisam a torcida única como o simples fato de ter apenas torcedores de um time no estádio e não como um todo’’, queixa-se Castilho. “Só a torcida única não resolve o problema, mas tem outras implicações: num dia de clássico a torcida visitante ganha muito dinheiro com a caravana, com os ingressos que ela pega mais barato ou até ganha do clube, com camisas que vende... Então, primeiro já os penaliza no bolso.’’

Ele considera que, hoje, a situação está “favorável, controlada’’, pois os confrontos entre os organizados passaram a ser esporádicos. Uma morte por briga entre torcedores foi registrada em setembro: um corintiano foi espancado por palmeirenses. O crime foi em Itapevi, 60 quilômetros distante do Itaquerão, onde os rivais jogaram.

Para Castilho, o grande problema é o esgotamento do formato atual de torcida organizada. “O modelo sucumbiu. Eles estão ligados à violência. Tem gente do crime organizado infiltrada em torcida. Não dá para defender o indefensável.’’

A FPF, porém, diz aceitar a determinação a contragosto. “A Federação Paulista de Futebol não enxerga na aplicação de torcida única a solução para o problema da violência no futebol’’, posicionou-se por nota, em que informa ter pedido ao MP a revisão da medida, “sem sucesso’’.

Os clubes mordem e assopram. “O fato positivo é que de imediato parece que resolve’’, diz o diretor de futebol do Corinthians, Flávio Adauto. “Mas o que importa é o longo prazo, aí vem o negativo. Não se está plantando para o futuro algo que vai dar estabilidade. Acho que deveria ter as torcidas juntas.’’

Para o presidente do São Paulo, Carlos Augusto de Barros e Silva, a medida “acabou sendo uma solução que a segurança (pública) encontrou para tentar equacionar a problemática da violência’’. No entanto, define a situação como “lamentável’’ e gostaria de jogos com duas torcidas. Maurício Galiotte, presidente do Palmeiras, diz ser “esportivamente contra a torcida única’’, mas que “é muito difícil argumentar contra os números que apontam queda importante da violência’’.

*COLABORARAM CIRO CAMPOS, DANIEL BATISTA E PAULO FAVERO

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No Rio, clubes se unem e lutam contra a proibição

Final da Taça Guanabara aconteceu com torcidas de Flamengo e Fluminense

Almir Leite, O Estado de S.Paulo

12 de março de 2017 | 06h00

Mesmo com os corriqueiros confrontos ocorridos em dias de clássico, os dirigentes dos grandes clubes do Rio de Janeiro lutam contra a adoção da torcida única. Há, no Estado, uma liminar com essa determinação, mas a medida já foi suspensa em duas ocasiões: nos jogos do Flamengo contra Vasco e Fluminense, respectivamente, pela semifinal e decisão da Taça Guanabara.

Nessas duas ocasiões não foram registrados incidentes graves entre torcedores, ao contrário do que ocorreu em fevereiro em partida de Botafogo e Flamengo, quando um botafoguense foi morto com espeto de churrasco.

Em Minas Gerais, Cruzeiro e Atlético fizeram alguns clássicos com torcida única, principalmente na época em que o Mineirão estava em obras para a Copa do Mundo. As brigas entre torcedores diminuíram nesse período.

Mas neste ano, num confronto pela Copa da Primeira Liga, o Mineirão foi dividido – 39.811 torcedores de ambas as equipes foram ao estádio e não houve brigas violentas.

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ONG cria campanha e pede o fim da restrição

Minha Sampa organiza protestos nos estádios e também pressão sobre Federação Paulista e secretário de Segurança

Almir Leite, O Estado de S.Paulo

12 de março de 2017 | 06h00

A manutenção da proibição do acesso da torcida visitante aos clássicos do futebol paulista neste ano levou a ONG Minha Sampa a lançar campanha contra a decisão. O movimento, pedindo a volta ao estádio dos torcedores de ambos os times que se enfrentam tem ações pela internet e também em dias de jogos, por meio de faixas de protesto levadas às arenas.

A ONG argumenta que a medida, além de discricionária, é inócua. Sustenta que desde 1988 apenas nove das 275 mortes registradas como ligadas ao futebol ocorreram dentro de estádios. E que 80% das brigas acontecem do lado de fora, a maioria delas bem longe do local do jogo.

“A insistência na política de torcida única não passa de atestado de incapacidade do poder público em lidar com os problemas de segurança que envolvem o futebol’’, entende Ricardo Borges, ex-diretor executivo do Bom Senso FC e integrante da Minha Sampa. “Surpreende como os clubes e a Federação Paulista aceitam passivamente uma medida autoritária e segregacionista como essa.’

A federação alega ser contra a torcida única e que já pediu, sem sucesso, ao Ministério Público que a medida fosse revogada. “A FPF prega maior rigor na aplicação da legislação vigente para pôr fim à impunidade que ronda os casos de violência no futebol’’, informa a entidade.

A ONG, porém, criou um mecanismo em seu site pelo qual quem é contra a torcida única pode expressar, por e-mail, seu desagrado ao presidente da Federação Paulista, Reinaldo Carneiro Bastos, ao secretário de Segurança Pública estadual, Mágino Alves, e à ouvidoria da FPF. Até a noite de sexta-feira 1.738 mensagens haviam sido enviadas. / A.L.

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DEBATE: Torcida única nos clássicos é uma medida válida?

Especialistas opinam sobre o assunto

Ulisses Augusto Pascolati Junior e Mauricio Murad, O Estado de S.Paulo

12 de março de 2017 | 06h00

SIM - Ulisses Augusto Pascolati Junior - Juiz auxiliar do anexo de Defesa do Torcedor

Às portas de completar um ano da medida restritiva chamada “torcida única”, as perguntas que fazemos são: tal medida é realmente necessária? Ou ainda: é eficaz? Pois bem. Em 3 de abril de 2016, um domingo, antes e após o clássico entre Corinthians e Palmeiras, vários eventos violentos eclodiram na cidade de São Paulo, todos protagonizados por integrantes de torcidas organizadas de ambos os clubes. No dia seguinte, o Poder Público deliberou acerca de algumas medidas para a contenção da escalada de violência, dentre elas a torcida única.

Em primeiro lugar, é preciso salientar que o Estatuto de Defesa do Torcedor, em seu artigo 1.ºA, dispõe que a prevenção da violência é de responsabilidade do Poder Público e de todos aqueles que, de qualquer forma, participam do evento esportivo.

Assim, cumprindo seu dever legal, o Poder Público nada mais fez do que implementar uma medida (e não se trata de sanção) para minorar a prática da violência organizada.

Portanto, acredito que a medida é eficaz – a violência vem diminuindo – e, como nenhum tipo de medida no ordenamento brasileiro pode ter caráter de perpetuidade, conforme o comportamento dos torcedores a restrição pode e deve ser aos poucos flexibilizada em prol do espetáculo esportivo.

NÃO - Mauricio Murad - Sociólogo, autor de livros sobre o tema

Autoridades de São Paulo afirmam que a torcida única reduziu os conflitos em mais de 70%. Pode-se concluir então, estatisticamente, que quase 30% dos confrontos acontecem dentro da mesma torcida, o que mostra um furo dessa proposta. Outro: 90% das violências são fora dos estádios, longe, em horas e dias diferentes dos jogos. Mais um: o público aumentou e a família retornou. A torcida mista no Rio Grande do Sul também aumentou o público, as famílias voltaram, e sem agredir a cultura do futebol e o direito da cidadania.

Festejam economia de 40% no policiamento, mas políticas públicas, como saúde, educação e segurança são caras, se quisermos qualidade e respeito ao contribuinte. Falam que a violência passa pelas organizadas, mas não dizem que os autores são minorias infiltradas e que estas gangues é que devem ser reprimidas.

O sentido jurídico, pedagógico e ético da punição é demarcar quem fez e quem não fez e não punir o todo, torcedores comuns, inclusive, por causa das ações de uma parte delinquente. Com esforço, até dá pra entender a intenção imediatista, considerando a gravidade do cenário. Mas não se trata de avaliar intenções e sim de analisar fundamentações. E o que se vê, quase um ano depois, é que sobra intenção e falta fundamentação.

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