TORCIDAS DA UCRÂNIA SE MOBILIZAM PARA LUTA CONTRA RUSSOS

TORCIDAS DA UCRÂNIA SE MOBILIZAM PARA LUTA CONTRA RUSSOS

Estádios são usados para recrutar soldados e arrecadar fundos para milícias formadas por jovens que se alternam entre as arquibancadas e as trincheiras

JAMIL CHADE - ENVIADO ESPECIAL A KIEV , O Estado de S. Paulo

11 de outubro de 2014 | 17h00

Na porta do moderno Estádio Olímpico de Kiev, enquanto milhares de pessoas se encaminhavam para acompanhar Dínamo x Steaua Bucareste, no último dia 2, pela Liga Europa, um grupo chamava a atenção. Eram torcedores que, ao lado de uma bandeira militar e urnas, recrutavam soldados e pediam dinheiro para que a população ajudasse a financiar a compra de armas para milícias que lutam pela Ucrânia contra soldados russos. Dentro do estádio, uma ala inteira da torcida do Dínamo entoava hinos em apoio a seus soldados.

O estádio que recebeu a final da Eurocopa de 2012 (Espanha 4 x 0 Itália) atualmente divide suas funções entre arena esportiva e ponto de encontro de torcedores, milícias e a população de um país em guerra.

O Estado acompanhou um desses grupos de milícias, conversou com seus membros e percorreu a trilha desses jovens que se alternam entre as arquibancadas e as trincheiras. São todos ultranacionalistas, flertam diariamente com o fascismo, falam pouco inglês e muitos estão desempregados. Encontram na mistura entre futebol, ideologia e nacionalismo uma motivação em um país em crise econômica.

Na última semana, essa relação ficou uma vez mais evidente em um jogo entre as seleções de Ucrânia e Bielo-Rússia. As torcidas rivais se uniram para entoar cantos contra o presidente russo, Vladimir Putin. Ao todo, 130 torcedores foram presos (cem ucranianos e 30 bielo-russos). O motivo não foi uma briga entre eles, mas o fato de terem xingado Putin.

O incidente apenas confirmou que a guerra no leste da Ucrânia transformou o futebol em um ator do conflito e, assim como dezenas de setores da sociedade, o esporte também foi obrigado a modificar suas fronteiras por causa da invasão sofrida pelo país.

A atual temporada do Campeonato Ucraniano começou com 16 times. O torneio perdeu dois clubes da Crimeia, supostamente parte da Rússia, e cinco equipes de cidades em conflito foram obrigadas a abandonar suas sedes e se tornaram itinerantes.

Na Ucrânia, o futebol foi engolido pela política. Em julho, o presidente do Vorskla Poltava, Oleg Babaev, foi assassinado. No fim da temporada passada, jogos na cidade de Odessa tiveram de ocorrer a portas fechadas pelo temor de confrontos entre torcedores. Esses mesmos torcedores são investigados por suspeita de estarem por trás da morte de 40 pessoas que defendiam tendências separatistas.

Por causa da guerra no leste do país, clubes como Olimpik Donetsk, Dnipro Dnipropetrovsk e Shakhtar Donetsk abandonaram suas cidades e passaram a viajar pelo país, sem torcida e sem a renda de seus estádios.

É nas arquibancadas que o impacto da guerra pode ser sentido de forma mais palpável. Durante os protestos que levaram à queda do governo de Viktor Yanukovich, em fevereiro, parte do apoio aos manifestantes foi dado por torcidas organizadas, várias delas com conotações nacionalistas e, para muitos, fascistas.

A solidariedade entre os torcedores ficou clara quando, no jogo entre os rivais Shakhtar e Dínamo, as torcidas se uniram para protestar contra os separatistas pró-russos.

Na região em disputa, torcedores dos clubes locais, como o Kharkiv e o Dnipro, apelaram pela unidade da Ucrânia. Na Crimeia, os torcedores do Sevastapol emitiram um comunicado apoiando Kiev, e não Moscou. Apesar disso, o clube e o Tavriya foram obrigados a disputar o Campeonato Russo depois da anexação da Crimeia.

Em Kiev, o fanatismo da torcida está voltado para a guerra. Fora do estádio, os integrantes do grupo que coletava dinheiro disseram ao Estado que não poderiam aparecer nas fotos e nem ter os nomes revelados. O motivo, segundo um deles, é que seu batalhão matou pessoas no leste do país e ninguém quer ser identificado. “Vivemos uma guerra e não há como deixar espaço para os inimigos nos identificarem”, contou o jovem que carregava a urna, enquanto as pessoas o interrompiam para colocar dinheiro. O valor arrecadado é destinado ao Batalhão Azov, grupo paramilitar de extrema-direita descrito por alguns como patriota e por outros como neonazista.

TRINCHEIRAS

Dentro do estádio, a guerra marca os espíritos. O centro do apoio às milícias vem dos Ultras, a torcida organizada do Dínamo. Com as cabeças raspadas como skinheads, roupas militares e símbolos fascistas, os membros do grupo alternam gritos de apoio ao time e de reconfirmação do nacionalismo. Não faltam ataques a Putin.

As bandeiras do clube perderam espaço e agora precisam dividir as arquibancadas com a polêmica bandeira negra e vermelha do Exército Insurgente Ucraniano. Trata-se de um grupo paramilitar criado na Segunda Guerra Mundial para defender a independência da Ucrânia.

O exército foi estabelecido em 1941 em um acordo primeiro com a Alemanha nazista. Em troca de dar seu apoio a Hitler e reforçar os ataques contra os soviéticos, o grupo armado pedia que a independência do país fosse assegurada contra Stalin. Anos depois, o grupo passou a lutar justamente contra os alemães.

“Usamos essa bandeira porque ela representa a Ucrânia independente”, explicou um dos torcedores, uma vez mais pedindo para não ser identificado. As cores da bandeira simbolizam o sangue do povo sobre a terra negra da Ucrânia.

A ação, no entanto, vai muito além das arquibancadas e dos símbolos. Os Ultras passaram a ser fornecedores de jovens para lutar entre as milícias. Ao Estado, representantes da torcida explicaram que os Ultras têm estrutura montada de apoio aos torcedores/milicianos. O membro do grupo que parte para a luta fica nas trincheiras por três semanas, enquanto suas despesas são cobertas. Quem fica em Kiev tem de trabalhar para coletar recursos.

Na fria noite de outono de 2 de outubro, em Kiev, os torcedores saíram do estádio satisfeitos com a vitória por 3 a 1 sobre os romenos. Mas quem saiu com urnas repletas de dinheiro foram os representantes do Batalhão Azov, que enviarão as doações para a compra de armas.

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Brasileiros do Shakhtar Donetsk ficam sem seus carros durante guerra

Máfia russa ocupa a cidade em meio ao conflito e imóveis da região são tomados por separatistas; Clube não conta com torcida

Jamil Chade - ENVIADO ESPECIAL A KIEV , O Estado de S. Paulo

11 de outubro de 2014 | 17h00

Os jogadores do Shakhtar Donetsk tiveram seus carros levados pela máfia russa, que ocupou a cidade em meio ao conflito, enquanto muitos deles perderam seus apartamentos, uma vez que os imóveis foram tomados pelos separatistas.

O clube de Donetsk foi um dos mais afetados pela guerra, pois sua cidade foi tomada pelo conflito. Atualmente, o Shakhtar não conta com sua torcida, nem com sua sede, e acaba de lançar campanha para convencer torcedores de outras regiões da Ucrânia a ir aos estádios para vê-los jogar.

A nova sede do time é um hotel de luxo no centro de Kiev, mas seus jogos são realizados em Lviv, cidade no oeste do país. O clube é propriedade do oligarca Rinat Akhmetov, o homem mais rico da Ucrânia, que, no início da guerra, manteve-se sobre o muro quanto à posição que adotaria. Publicamente apoia a união da Ucrânia e garante ser contra os separatistas que tomaram sua cidade, mas as suas relações com o governo anterior, de Viktor Yanukovych, ainda deixam brechas para duras críticas.

O Estado esteve com atletas e comissão técnica do Shakhtar na capital ucraniana e, se para alguns a situação é ainda de crise, outros elogiam a atitude do clube de isolar os jogadores dos problemas para que possam atuar.

O meia Marlos, transferido em meados do ano do Metalist Kharkiv para o Shakhtar, diz que o clube tem se esforçado para isolar os jogadores da crise. “Não temos muita informação do que ocorre em Donetsk”, disse o jogador, um dos 13 brasileiros do time ucraniano. “A comissão técnica prefere nos deixar tranquilos para jogar”, afirmou ele. “O que sabemos é que em Kiev estamos tranquilos.”

Marlos já estava na Ucrânia quando o conflito começou e não esteve entre os brasileiros que ameaçaram não voltar ao Shakhtar, em julho. Apesar de estar vivendo um bom momento, ele admite que sabe que a torcida, nas arquibancadas, tem usado os jogos para se expressar sobre a guerra e criticar o presidente russo, Vladimir Putin.

“Vemos que existe algo”, comentou. “Nós não sabemos o que é. Mas as torcidas vão aos estádios e soltam algum tipo de energia que está presa. Ali elas têm a possibilidade de dar um grito.”

O artilheiro do Campeonato Ucraniano, o ex-palmeirense Cleiton Xavier, do Metalist Kharkiv, admite: “O país está passando por uma difícil situação financeira”.

Antonio Carlos, ex-zagueiro da seleção e auxiliar técnico no Shakhtar, diz que muitos jogadores tiveram seus carros roubados. Ele conta que vários atletas tiveram suas casas confiscadas, mas os brasileiros não foram atingidos.

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