Tostão

Um craque escritor é uma coincidência das mais improváveis, mas inesquecível

Ugo Giorgetti, O Estado de S.Paulo

16 Outubro 2016 | 05h00

Primeiro, uma lembrança. No meio dos anos 60, por aí, numa quarta-feira, matei umas horas de trabalho e com um colega fui ver Palmeiras x Cruzeiro. Naquela tarde, fui dramaticamente apresentado a Piazza, Zé Carlos, Dirceu Lopes, Natal e Tostão, que não conhecia. Era um time simplesmente assustador e Tostão o melhor de todos, o que já diz tudo. A partida acabou 1 a 1, com a torcida em pé no velho Parque pedindo o fim do jogo, depois de milagres do goleiro, bolas na trave e gols perdidos.

Corte para hoje. Tempos vividos, sonhados e perdidos, um olhar sobre o futebol é o subtítulo do livro de Tostão que acaba de sair pela Companhia das Letras. É um olhar sobre o futebol e muito mais do que isso. Um craque escritor é uma coincidência das mais improváveis mas, quando acontece, inesquecível.

Tostão escreve em voz baixa. Mansamente, como um sorriso discreto, seu relato parece vagar de um assunto para outro, de uma lembrança para outra, e, no meio desse caminhar incerto “por uma estrada de Minas, pedregosa”, topamos com frases, descrições e perfiz de grande criatividade sobre personagens do nosso futebol. O leitor, meio sem se dar conta, vai sucumbindo ao encanto do livro e quando percebe já está pela página 70.

Como chegamos lá faz parte do mistério da boa literatura, sobretudo da mineira. Falo de literatura porque é do que se trata. O craque Tostão é, como todos sabem, médico, e médicos frequentemente produzem alta literatura. Aliás, por falar em médico, é tempo de assinalar que estamos diante de um ser humano múltiplo, mutante, que não hesita em se desfazer do que fez até ontem, para começar de novo uma diferente etapa da vida.

É impressionante a quantidade de acontecimentos extraordinários que se acumularam no decorrer de apenas uma vida. Titular de um grande clube aos 16 anos, primeira Copa disputada antes dos 20, campeão mundial aos 23, carreira encerrada brusca e definitivamente aos 26. 

Mas não esperem drama ou lamentações. O incrível e banal lance responsável pelo encerramento de sua carreira não toma mais do que uma linha. Aos 26, nasce um novo homem, que nada mais tem a ver com o craque e sua carreira encerrada; estuda. E poucos anos depois estamos diante do doutor Eduardo Gonçalves de Andrade, médico e professor de medicina. Durante anos limitou-se a exercer sua profissão enquanto em seu interior inquieto se mexiam sentimentos contraditórios e tensões.

Um belo dia o doutor Eduardo larga a medicina e volta ao futebol como comentarista. Sobre essa decisão escreve: “Não sei se estaria mais contente e melhor do que estou hoje. Como na passagem de jogador para médico, perdi e renasci com o retorno ao futebol. Fiz o caminho inverso. Todo encontro é um reencontro com o que vivemos, imaginamos, sonhamos, deixamos de viver ou com o que perdemos’’.

O antigo Tostão que definitivamente nunca tinha deixado o doutor Eduardo está aí até hoje, escrevendo crônicas brilhantes. Até quando? Não sei se esse homem que passa a vida procurando a si mesmo vai se demorar muito no futebol. Tenho dúvidas. Um indício, quase um sutil aviso do que pode acontecer, é o excelente e terrível capítulo do livro que Juca Kfouri se encarregou de escrever sobre as condições morais do futebol, aqui e no exterior.

Quanto a mim, confesso que o que mais me impressionou no livro não foi o Tostão, mas o dr. Eduardo. O livro fala muito de futebol, é claro, afinal o famoso e conhecido é o Tostão. Mas o mais interessante para mim é o doutor Eduardo, sempre mais entrevisto do que visto no decorrer do livro, e talvez por isso sei sobre ele muito menos do que gostaria. 

Quem sabe se um dia Tostão, ao se cansar mais uma vez do futebol, não resolve nos falar mais do doutor Eduardo. Quem sabe não aparece um dia – por que não? - um livro de memórias, no modo de Pedro Nava, médico como ele, mineiro como ele.

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