Matthew Childs/Reuters
Matthew Childs/Reuters

Tottenham, Mauricio Pochettino e a excelência diária

Equipe tem mostrado evolução desde que o treinador assumiu, mas ambos ainda têm de enfrentar desconfianças

Rory Smith / THE NEW YORK TIMES / LONDRES, O Estado de S.Paulo

02 de março de 2019 | 04h30

No início de fevereiro, Lionel Messi bateu novo recorde. Quando converteu um pênalti contra o Valencia, alguns minutos antes do fim do primeiro tempo, esse foi seu 20.º gol na Liga dos Campeões da temporada. Ele tem atingido essa marca todo ano nos últimos 11 anos. Nenhum jogador fez isso antes. Naturalmente é algo comum Messi bater um recorde. Dois outros ocorreram em dezembro, quando atingiu o máximo de vitórias para o Barcelona, superando Xavi e se tornando o primeiro jogador a marcar 10 gols na liga em 13 temporadas seguidas. Novembro, ao contrário, foi um mês tranquilo: ele quebrou apenas um recorde, pelos gols marcados para um único clube na Liga dos Campeões.

Às vezes Messi grava seu nome em conquistas significativas – o maior artilheiro da história do futebol espanhol; o maior número de gols num ano – e outras vezes seus feitos são mais particularidades estatísticas, triviais: nenhum jogador marcou dois gols em mais jogos da Liga do que Messi. Todos os recordes, contudo, testemunham a sua grandeza. Cada um deles é mais uma prova da consistência do seu brilho.

E quanto mais recordes ele quebra mais surpreendente sua carreira se torna, e menos impacto tem cada nova marca. Para Messi, reescrever os livros de história é a ordem natural das coisas. Sua excelência é algo que passou a ser normal.

Se a pior consequência do fenômeno, para Messi, é que seu esplendor às vezes é um pouco subestimado – algo que é mais uma perda para os que o assistem do que para ele – no caso de outros personagens do futebol, ao sofrerem a mesma fadiga do gênio, as consequências são mais severas. 

Um exemplo é o Tottenham, dirigido pelo argentino Mauricio Pochettino. Nesse caso, a diferença entre vencer ou perder é tão tênue que um pequeno deslize pode ser fatal e mais uma vez condenar Pochettino e sua equipe a acusações de que não inovam, não têm quilate para brilhar dentro da elite. 

Pochettino, assim como Lionel Messi, vai sofrer exatamente por causa dos padrões que estabeleceu. 

Mas vale a pena considerar como era o Tottenham quando Pochettino assumiu o time em 2014: uma equipe totalmente na sombra de seus dois rivais mais fortes: Arsenal e Chelsea; um time que só ocasionalmente jogou na Liga dos Campeões; que poucos, entre os seus mais fervorosos torcedores, o consideravam um real competidor ao título inglês.

Durante as quase cinco temporadas de Pochettino no clube, tudo se transformou. Hoje o Tottenham é certamente uma equipe melhor do que Arsenal ou Chelsea – está à frente de ambos na classificação da Premier League. Tem uma posição fixa na Liga dos Campeões, com um lugar nas quartas de final desta temporada bem ao seu alcance.

Desde que Pochettino assumiu como técnico somente um time, o Manchester City, conquistou mais pontos na Premier League. Nesta temporada, ele conseguiu seguir as pegadas do City e do Liverpool, ambos com mais pontos nesta etapa da temporadas do que quase todos os times da história.

Diante dessas circunstâncias, a temporada até agora pode ser uma das mais excelentes teve até hoje. Quando foi encerrada a fase de transferências em 31 de janeiro o Tottenham foi o primeiro time na história da Premier League a não incorporar um único jogador no curso de uma campanha inteira. 

Se essa parcimônia foi extrema ela não foi atípica. Desde que ele chegou ao clube, em maio de 2014, o Tottenham gastou quase a metade do que o ter City e o United pagaram prodigamente para seus esquadrões. A venda do meia Mousa Dembélé em janeiro significou que, desde a chegada de Pochettino, o clube investiu menos de US$ 30 milhões, líquidos, em transferências.

Em várias ocasiões nos últimos meses, isto parecia limitar as ambições do clube. Pochettino teve de passar várias semanas sem Harry Kane e Dele Alli, as estrelas do seu ataque, por causa de lesões.

Em janeiro, perdeu Son Heung-min, capitão da equipe nacional da Coreia do Sul, para a Copa Asiática, também.

E infelizmente o clube continua a disputar seus jogos domésticos em Wembley, depois de uma série de atrasos na conclusão do seu novo estádio, que agora, provavelmente, será inaugurado em abril, o mais cedo em termos de previsão.

Mas ele sugeriu este mês que será “difícil” jogar ali antes do início da próxima temporada, o que representará atraso de praticamente um ano em relação à previsão inicial. 

Pochettino, como Messi, mudou os parâmetros. Fez do extraordinário algo ordinário. Antes era impensável que o Tottenham pudesse ser um concorrente ao título. Hoje não só essa possibilidade é aceita, mas quase esperada. Na verdade, a pergunta feita com mais frequência para ele é se a sua equipe não está satisfazendo porque ainda não tem um troféu para mostrar seu progresso.

Pochettino não conquistou um título ainda, mas criou um clube que espera – e é esperado – que isso ocorra no futuro. Ele alterou fundamentalmente a estrutura do lugar que encontrou. Tornou o que era outrora impensável totalmente possível. E tem feito isto com tanta frequência que seu brilho se tornou algo trivial. É fácil pensar que é uma coisa corriqueira. Não é. E a melhor maneira de ver como isto é extraordinário pode bem ser a que ponto parece algo normal.

TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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