Hélvio Romero/Estadão
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Trabalho x Dinheiro

E se o Santos tivesse todos os jogadores do Palmeiras, mas com o técnico Sampaoli?

Mauro Cezar Pereira, O Estado de S.Paulo

22 de julho de 2019 | 04h00

Melhor, mais rico e farto elenco do Brasil, reflexo do alto faturamento alcançado pelo clube (primeiro do ranking nacional com nada menos que R$ 654 milhões registrados em 2018), o Palmeiras é o atual campeão brasileiro e líder da Série A. Mas não é de hoje que joga menos do que seu estrelado grupo, em tese, pode apresentar.

O jogo é rústico, de rejeição à bola (o time chegou à parada para disputa da Copa América em primeiro nos pontos ganhos e último na média de passes trocados), calçado em defesa feroz, muitas ligações diretas e briga pela sobra após disputas aéreas. Na mediocridade que impera no futebol praticado por aqui foi o bastante por um bom tempo. Ainda é?

Essa é a pergunta que palmeirenses passaram a fazer depois da derrota para o Internacional, que custou a eliminação na Copa do Brasil. Indagação acentuada após o time perder a invencibilidade de 33 jogos no Campeonato Brasileiro com os 2 a 0 impostos pelo Ceará, sábado, em Fortaleza. A equipe finaliza, faz gols, vence seus jogos, mas não tem repertório.

O subaproveitamento do material humano colocado à disposição de Luiz Felipe Scolari é evidente. Como esse estilo bastou para a conquista do Brasileirão passado, o tema ficou arquivado, salvo por um ou outro, como este que vos escreve, que se atrevia a abordar o assunto. Fato: se o roteiro não for perfeito, o Palmeiras tem problemas.

O time precisa abrir o placar para em seguida se apoiar na defesa, marcando em frente à própria área. Na atual gestão de Felipão, que completará um ano no próximo dia 8, o Palmeiras não virou um jogo sequer e perdeu quatro partidas em 2019 (para Corinthians, San Lorenzo, Internacional e Ceará) que evidenciaram essa deficiência. Não pode levar o primeiro gol. 

Falta repertório ao Palmeiras, que não constrói jogadas pelo chão, usa o goleiro para chutões que dão aos homens de frente a missão de brigar pela bola perto da área inimiga. Hoje, somente o CSA tem média de passes certos inferior à do líder, que troca 215 por jogo. Sobram talentos, mas falta (bom) futebol há tempos, embora muitos prefiram fechar os olhos para isso.

A quarta eliminação em menos de dez meses abriu a ferida, escancarou os problemas de um time forte que não se desenvolve, não evolui. Quando os certames de clubes foram interrompidos para a disputa da Copa América, muito se dizia que os times precisavam usar o período para se ajustar e ao Palmeiras bastava manter o que fazia. Um erro. Sempre é possível melhorar. E no caso, é necessário.

Em contrapartida, o Santos, com dívidas de sua gestão, sem orçamento poderoso, colocando em campo elenco inferior e acostumado a salários atrasados, chegou à quinta vitória consecutiva no Brasileiro. Só fica atrás dos palmeirenses na classificação por causa do saldo de gols. O time de Jorge Sampaoli é a antítese da equipe de Luiz Felipe Scolari. Joga, gosta da bola, quer vencer. Sempre.

Se o Palmeiras libera jogadores quando quer, como na venda de Moisés ao futebol chinês, o Santos perde atletas, como Jean Lucas, emprestado pelo Flamengo, que o vendeu ao Lyon durante a Copa América.

Mesmo assim, segue sua marcha pela ponta da tabela. Depois que os times voltaram a jogar, os palmeirenses fizeram um ponto, os santistas seis. Fora de casa!

Não custa imaginar como seria o elenco mais forte sendo trabalhado por um treinador capaz de variar a forma de atuar e de tirar proveito das virtudes dos atletas. É possível jogar futebol de diversas formas, a questão é que o elenco mais rico, financeira e tecnicamente, tem apenas uma. E se ela bastou no Brasileiro passado, nos mata-matas tem passado longe de ser suficiente. Ainda será em pontos corridos?

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