Mauricio de Souza/ Estadão Contéudo
Mauricio de Souza/ Estadão Contéudo

Tradicional, o Jabaquara é a paixão do bairro da Caneleira

Time vive basicamente com amor dos torcedores vizinhos ao clube

Luiz Alexandre Souza Ventura, O Estado de S.Paulo

24 Agosto 2015 | 07h00

Muitas histórias podem ser contadas em 90 minutos. Casos pitorescos fazem parte da trajetória de todos os times  de futebol, de qualquer tamanho, e alimentam a paixão em torno do esporte mais popular do País. Na Quarta Divisão do Campeonato Paulista, os "causos" que atravessam gerações e mantêm viva a memória das equipes, revelam um amor fiel, incondicional e inabalável pelo "time do coração". 

Na partida realizada às 10h do último domingo no Estádio Espanha, no bairro da Caneleira, em Santos, litoral sul de São Paulo, pela segunda fase da competição, aproximadamente 300 torcedores compareceram para ver o Jabaquara - dono da casa - empatar por 0 a 0 com o time de Taboão da Serra.

Antes do jogo, tudo corre conforme o figurino, praticamente igual a qualquer partida da série A. As equipes  fazem o reconhecimento do gramado, que está em bom estado, e partem para o aquecimento. A primeira diferença é notada na arquibancada, ainda vazia e silenciosa. Torcedores vão chegando aos poucos, com calma, encontrando  amigos, trocando abraços e perguntando sobre conhecidos ausentes. É quase um encontro familiar.

No campo, os jogadores voltam aos vestiários e, minutos depois, entram novamente, enfileirados e uniformizados,  enquanto as escalações são anunciadas no alto-falante, equipamento que também alerta o dono de um veículo  estacionado em frente ao estádio que o vidro do carro está aberto.

O Espanha tem capacidade para pouco mais de oito mil pessoas e, segundo funcionários, neste ano, com o bom  desempenho do Jabaquara no campeonato - o time está na segunda colocação -, chegou e receber dois mil torcedores  em um único dia. A quantidade de frequentadores é, certamente, uma grande fonte de histórias. "Nosso estádio é o  maior do mundo. Sabe por quê?", pergunta o barbeiro Hilário Garcia Carvalho, de 81 anos, considerado o  torcedor-símbolo do Jabuca. "É o maior do mundo porque nunca enche'', diz, sorrindo.

Após a execução do Hino Nacional, o juiz dá o apito inicial. Os torcedores mais empolgados gritam orientações,  xingam, chamam jogadores pelo nome e vibram a cada lance. Enquanto isso, na mesma arquibancada, uma  particularidade. Dois cachorros correm entre as pessoas e não prestam qualquer atenção a chamados e assovios. Em  determinado momento, deitam onde há sombra e ficam observando a movimentação, sem ninguém para incomodá-los.

A frequência de moradores do bairro da Caneleira é fundamental para apoiar o time, na opinião do vendedor Wellington Aparecido, o "Muriçoca", que aproveita o movimento na porta do Espanha para oferecer espetinhos de  churrasco, antes e após o jogo. "O bairro acolhe o clube. E isso faz a diferença, mesmo com o ingresso caro (R$  20,00). Mas tem dias que eu chego aqui e nem espero o primeiro tempo acabar, porque não tem quase ninguém. Cheguei e ver jogos só com cinco torcedores", afirma.

Dentro do estádio, Hilário Jabuca conta mais uma história. "Em uma partida contra o time de Guarujá, eu cheguei  aqui um pouco mais cedo e não havia ninguém. Chovia muito e, conforme o tempo passava, percebi que seria o único  torcedor presente. Um pouco antes do jogo começar, fui até a bilheteria e comprei outro ingresso. O bilheteiro  me perguntou: 'Para quem é esse ingresso'. E respondi que era para eu não ficar sozinho", sorri mais uma vez o  barbeiro.

Ele recorda outra história que viveu "graças'' ao Jabuca. "Houve uma vez que fui a Presidente Prudente (no interior de SP) e não havia nenhum torcedor do Jabaquara. Então, eu falei com uns rapazes que encontrei por lá, e perguntei se eles topariam entrar no estádio  para torcer pelo Jabuca. Em troca, eu compraria duas garrafas de cachaça. Os rapazes aceitaram e fizeram uma  baita festa", lembra.

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