Paulo Liebert/Estadão
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Tragédia

Gustavo Scarpa parece ter perdido completamente o brilho dos primeiros jogos

Ugo Giorgetti, O Estado de S.Paulo

12 Agosto 2018 | 04h00

Não entendo e jamais procurei entender as filigranas jurídicas do caso Scarpa. As decisões ou indecisões da Justiça brasileira não são coisa para amadores. Estou um pouco cansado de ouvir falar tanto em recursos, apelos, liminares, etc., etc. O fato em si não é complicado: um jovem jogador, uma das pouquíssimas revelações de um futebol pobre, miserável, medíocre, está impedido de exercer sua profissão em paz. Impedido talvez não seja a palavra adequada, o que há é que sua carreira é atrapalhada a cada dois jogos, a cada decisão judicial.

A disputa é entre Fluminense e Palmeiras. O Fluminense, aparentemente, não tem dinheiro para pagar o jogador ou talvez ache que ele não precisa receber e toma como pagamento de seu trabalho a honra de vestir a camisa de clube tão glorioso. O Palmeiras, por seu lado, parece esbanjar dinheiro e por isso pode comprar o que lhe der na cabeça, não tomando conhecimento de preço e outras circunstâncias.

Ouvi dizer que o jogador parado custa um bom dinheiro ao Palmeiras, mas creio que isso não está fazendo efeito algum na vontade de resolver o caso. Se não há prejuízo financeiro para Scarpa, e isso é apenas uma possibilidade, é enorme o prejuízo profissional. Essas perturbações fizeram um jogador que começou no clube de maneira mais do que animadora se transformar num reserva que entra no fim do jogo para o time ganhar um pouquinho de tempo.

Scarpa parece ter perdido completamente o brilho dos primeiros jogos e quando joga é só pra reforçar a velha frase de Didi: “Treino é treino, jogo é jogo”. Realmente a carreira desse jogador parece em perigo a poder de treinos. O grau de desgaste psicológico também deve ser enorme. Várias hipóteses devem passar pela cabeça desse jovem: perder definitivamente a posição privilegiada que tinha no futebol brasileiro, ser impedido de jogar por um tempo descabido com todos os danos decorrentes, ver aparecer na equipe concorrentes inesperados que vão lançá-lo cada vez mais longe do time titular e, o pior de tudo para um jogador, a ameaça do esquecimento.

Não queria estar na pele desse jogador. Também, por motivos diferentes, não queria estar na pele dos dirigentes que o disputam e que, certamente, não pensam em nada, a não ser em suas vantagens, isto é, as vantagens que podem tirar, no fundo, do jogador. Nele, como ser humano, aparentemente, nenhuma preocupação.

Um episódio como esse, onde um homem é atirado daqui pra lá sem ter sobre seu destino o menor poder de decisão é inacreditável. Mais incrível ainda é que, num país com mais de 13 milhões de desempregados, um trabalhador empregado não possa exercer sua profissão livremente.

Outra tragédia, essa de muito maiores proporções, vem relembrada no filme Para sempre Chape, que acaba de estrear. Confesso que não tinha muita vontade de ver o filme. O assunto me parecia esgotado e achei que sabia tudo o que devia saber sobre ele. E, de fato, tudo o que eu já sábia estava lá, mas, para minha surpresa, foi o que me fez gostar do filme.

A tragédia da Chape se recusa a ser tema esgotado. Ao contrário, no meio do filme, me peguei vendo imagens já vistas como se fosse a primeira vez. E há também algumas novas: a coincidência da tempestade espantosa sobre Chapecó no exato instante da tragédia, sobre a qual também chovia nas montanhas da Colômbia, ou a presença de personagens como a jovem mulher que perde o marido e aparece por diversas vezes no filme, sempre com dignidade notável e um estoicismo sem lágrimas, e por isso mais comovente ainda. 

O diretor, o uruguaio Luis Ara, teve a feliz intuição de só revelar seu talento através de pequenos fatos. O resto ele deixou para a tragédia que fala por si. 

 

 

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