Paulo Pinto/Estadão - 27/10/2004
Serginho morreu durante a partida São Paulo e São Caetano Paulo Pinto/Estadão - 27/10/2004

TRAGÉDIA COM ZAGUEIRO SERGINHO COMPLETA 10 ANOS

Jogador do São Caetano sofreu uma parada cardiorrespiratória aos 30 anos; Estado ouviu 14 personagens daquela fatídica noite

Ciro Campos e Diego Salgado, O Estado de S. Paulo

27 de outubro de 2014 | 07h00

A disputa de bola ocorreu na linha de fundo, quando o placar da partida São Paulo e São Caetano marcava 0 a 0. Segundos depois, o zagueiro Serginho, de 30 anos, abaixou-se, levou as mãos aos joelhos e caiu no gramado do Morumbi. Até o goleiro Silvio Luiz cobrar o tiro de meta foi preciso esperar uma semana e passar pela dolorosa experiência de assistir à morte de um jogador em plena atividade. Há exatos dez anos, problemas no coração de Serginho o levaram à morte após uma parada cardiorrespiratória em campo.

Mesmo com o processo arquivado pela Justiça, o caso está longe de ser completamente esclarecido. O Estado entrou em contato com 14 personagens daquela noite para reconstruir o episódio. Os relatos trazem à tona versões diferentes sobre o que teria acontecido nos meses anteriores à morte do jogador, além do paradeiro de pessoas ligadas a Serginho. Entre eles os médicos, o promotor do caso, o empresário, os jogadores que estavam em campo naquele dia e a família de Serginho. Dez anos depois do episódio, além das indefinições, restou o trauma de quem acompanhou de perto a morte do zagueiro.

A família, alheia às polêmicas, reuniu-se para relembrar os bons momentos. Neste domingo, em Serra (ES), na casa dos pais de Serginho - Ana e Virgílio, ambos de 78 anos -, os dez irmãos vestiram camisas para homenageá-lo. O fato, porém, não apagou uma brusca ruptura. A viúva Helaine Cunha e o filho, Paulo Sérgio, não compareceram.


A morte dividiu em "dois lados" a família de Serginho. Helaine, que não respondeu aos pedidos de entrevista do Estado, perdeu o contato com os ex-cunhados. O clube pagou a ela os salários previstos até dezembro de 2005 (R$ 60 mil mensais). Com parte dos ganhos, ela ajudou a pagar por quatro meses o plano de saúde dos pais de Serginho. "Ninguém pensou em entrar na Justiça por causa disso. Isso não iria trazer o Serginho de volta. Os dez irmãos continuaram suas vidas. Ninguém queria dinheiro. Nos juntamos para pagar o plano de saúde dos meus pais", afirmou Daniel Ribeiro, irmão do zagueiro.

Daniel também relembrou os meses que antecederam a tragédia. De acordo com ele, Serginho se mostrava tranquilo quando visitou a família, em julho de 2004, meses antes da fatalidade. "Ele nos disse que fez o exame e foi constatada uma pequena arritmia, mas sem gravidade. Ele continuou tomando a medicação e jogando futebol. Se falassem do problema grave, ele pararia de jogar", acredita.

VERSÕES

A descrição dos fatos que levaram à morte de Serginho tem versões variadas. Depois do ocorrido, o promotor Rogério Zagallo denunciou o então presidente do São Caetano, Nairo Ferreira de Souza, e o médico do clube, Paulo Forte, por homicídio com dolo eventual. Nessa condição, os autores assumem o risco de produzir o crime. "Em 2005, o STJ (Superior Tribunal de Justiça) reclassificou o caso para homicídio culposo, sem intenção de matar. Mas depois o caso foi arquivado", contou o promotor. As únicas punições aplicadas foram pelo Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD).

No Brasileirão de 2004, o São Caetano perdeu 24 pontos. O presidente ficou dois anos sem poder exercer suas funções e o médico, por quatro. Tempo depois, a pena de ambos foi reduzida à metade e a dupla atualmente retornou ao clube e desempenha as mesmas funções de dez anos atrás. Nairo ressalta que não sabia da gravidade e afirmou que o problema ocorrido com Serginho no Morumbi não havia sido detectado nos exames realizados em fevereiro daquele ano, no Incor, quando foi apontada uma arritmia leve apenas. A causa da morte, segundo os médicos, foi uma cardiomiopatia hipertrófica. "Os exames que detectam tal doença estavam normais em fevereiro de 2004", disse Forte, em nota, ressaltando que a doença se desenvolveu após os testes.

Segundo o presidente do São Caetano, a punição foi injusta, porque nada foi apurado. O dirigente e o médico Paulo Forte classificam a morte como "fatalidade", mas Nairo criticou a conduta do Incor, pois, de acordo com ele, após a morte do jogador os médicos mudaram o discurso ao dizer que Serginho não estava apto a jogar. Procurado pelo Estado, o médico Edimar Bocchi, responsável pelos exames do Incor, não quis voltar ao assunto e disse apenas que o zagueiro "estava no céu e o caso, encerrado".

Para os colegas de São Caetano, os possíveis problemas do defensor nunca foram explicados. "O Serginho costumava ficar ausente de alguns treinos na época para fazer exames. Mas nunca soubemos do perigo de morte", disse o ex-lateral-direito Anderson Lima. Já o zagueiro Dininho elogiou as condições físicas do companheiro. "Ele era um 'leão' e se dedicava muito aos treinos."

Com a investigação pela morte arquivada pela Justiça, as únicas ações que ainda tramitam são contra seguradoras. Em uma delas, em 2012, o advogado da viúva do jogador, Marcelo Robalinho, ganhou o processo na Justiça contra as empresas, que se negavam a pagar seguro de vida por entenderem que Serginho fraudou o acordo porque sabia ter problemas cardíacos e mesmo assim, jogava futebol. "São quatro ações contra seguradoras. O número parece grande, mas é normal, pois há uma divisão de apólices", disse Robalinho.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

'Se ele soubesse a gravidade, parava na hora', diz irmão

Daniel Ribeiro é um dos dez irmãos que perderam Serginho há dez anos. Ele fala sobre a dificuldade da família e o legado do zagueiro

Entrevista com

Daniel Ribeiro

CIRO CAMPOS E DIEGO SALGADO, O Estado de S. Paulo

27 de outubro de 2014 | 09h42

Os dez irmãos e os pais do zagueiro Serginho continuam com avida simples que sempre levaram em Serra (ES). A morte do jogador ainda é umtrauma insuperável e as imagens causam mal estar nos familiares, que sereuniram neste domingo para homenagear o defensor. Em entrevista exclusiva aoEstado, o irmão de Serginho, o comerciante Daniel Ribeiro, contou que ozagueiro não tinha noção da gravidade do seu problema cardíaco.

O São Caetano continuou pagando salários por 14 meses, atédezembro de 2005. Vocês receberam alguma coisa?

Nunca procuramos ninguém para isso. Nossa família é muitosimples. Todo mundo continuou vivendo aqui. Todo mundo trabalhando.

Como é a vida de vocês hoje?

Está todo mundo bem, a gente vive bem. Somos unidos.

Vocês pensaram em recorrer à Justiça?

Ninguém pensou em entrar na Justiça. Isso não iria trazer oSerginho de volta. Os dez irmãos continuaram a suas vidas. Ninguém  queriadinheiro. Ninguém vivia do dinheiro do Serginho. Todo mundo tinha o seuemprego. Ele ajudava com o plano de saúde e com alguma coisa que precisasse.

Pediram algo para a Helaine (viúva de Serginho) depois damorte?

A gente pediu que ela continuasse ajudando a pagar o planode saúde dos nossos pais. Depois de três, quatro meses, ela parou de ajudar edisse que estava com  dificuldades. Nos juntamos aqui e continuamos apagar. Pagamos por oito anos. No ano passado paramos, porque o plano aumentoudemais.

É difícil para você relembrar tudo isso?

A vida segue. Ele mora no fundo do coração. Temos de lembrardo que ele foi. Do legado dele. Vamos fazer uma reunião aqui para lembrar.Minha sobrinha decidiu fazer uma camisa. Vamos fazer uma oração e lembrarum pouco dele. É bom lembrar.

Qual legado ele deixou?

Que quem batalha, quem quer um sonho, consegue. Ele mostrouque com simplicidade, honestidade, consegue chegar onde quer. Ele deixou umlegado muito bonito.

Os seus pais estão longe do filho do Serginho. Como encaramessa situação?

Eles sentem falta do neto, mas não tem como viajar para SãoPaulo e vê-lo.

Vocês têm mágoa de alguém?

Não existe mágoa alguma. Somos religiosos.

Você tem algum trauma?

Só temos trauma de ver a imagem. Mas sempre que vejo acamisa azul, o São Caetano jogando, eu torço.

Seus pais tiveram quantos filhos?

Eram 11 irmãos. Agora somos dez. Na verdade, somos 11 ainda.

Como o Serginho começou a jogar futebol?

Serginho ficou aqui em Serra até os 19 anos. Ele jogavacampeonatos de várzea. Nunca jogou profissional aqui. Ele viajava para ondeaparecia uma oportunidade. O patrão dele liberava e dizia para ele procurar osonho dele. Ele foi para Itu, Matsubara.

O que ele fazia?

Ele trabalhava em uma empresa de pias aqui em Serra.

Ele já se destacava?

Muito. Eram quatro irmãos na várzea. Eu era zagueiro ao ladodele. Eu já jogava e ele começou a jogar com 14 anos. Já era grandão, bom debola, magrelo e sempre disposto a jogar. Era um monstro. Disciplinado. Elejogava muito sério, não tinha meio termo com ele.

E como conseguiu ir para um clube e jogar profissionalmente?

Ele foi visto e conseguiu ir para o Serrano, de CoronelFabriciano. Ele disputou a segunda divisão do Campeonato Mineiro. O São Caetanocomprou o Serginho por R$ 200 mil, quando ele saiu do Araçatuba.

Vocês se falavam bastante?

Nos falávamos por telefone constantemente. Nossa família eraafastada dele por causa da distância. Mas fomos ver alguns jogos dele,como na final da Libertadores (em 2002), na semifinal do Brasileiro contra oAtlético-MG (em 2001). Meu pai e minha mãe foram em alguns aniversários doneto. A gente ia quando dava. E ele voltava para cá nos fins de ano.

Onde você estava no dia da morte?

Eu estava chegando de um curso. Fiquei sabendo que ele foipara o hospital. Mantive a calma e todos nós corremos para a casa dos nossospais. Todos, os  filhos e netos.

Alguém foi para São Paulo?

Não. O corpo foi para Coronel Fabriciano. Ela (Helaine) nãoliberou o corpo, que foi para Minas. Papai e mamãe insistiram, mas ela nãoliberou. Começou aí o desentendimento. O velório poderia ser aqui e o enterrolá. Família toda aqui, os dez irmãos. Nós tivemos que viajar, alugamos umônibus e fomos para Minas Gerais. Ele tinha de ser enterrado aqui, perto dafamília, onde cresceu.

Qual foi a última vez que você o viu pessoalmente?

Ele esteve aqui em julho. Nós tiramos fotos aqui em casa.Ele disse para nós que fez o exame e foi constatada (a arritmia), mas semgravidade. Passaram  os remédios. Ele continuou tomando a medicação ejogando. Se falassem do problema grave, ele pararia para fazer tratamento. Elejá tinha alguns terrenos já.  Tinha de ter dito que o coração dele estavaenorme. Quando há dinheiro no meio, é complicado.

Ele se mostrou preocupado?

Ele estava tranquilo. Ele sabia que tinha algum problema,mas não sabia da gravidade. Ele continuou jogando. Para ele era uma arritmiapequena. Ele fez o  cateterismo. Isso que passaram para ele: com oremédio, ele poderia continuar. Mas ele estava com o coração explodindo. Sefalassem, ele pararia de  jogar futebol. Ele me disse tudo issopessoalmente.

O Serginho tinha planos para o futuro?

Ele me disse que tinha cinco propostas boas da Europa. Eramcertas, para sair no fim do ano. O salário era muito bom. Ele queria jogar maiscinco anos, fazer o "pé de meia" na Europa e encerrar a carreira paracuidar do filho. Iria juntar mais dinheiro, montar um negócio em CoronelFabriciano e viver a vida.

Vocês ainda têm contato com a Helaine ou a diretoria do SãoCaetano?

O vínculo com eles acabou mesmo depois do falecimento doSerginho. Se ela (Helaine) ligar, a gente conversa. Ninguém guarda rancor. Elanão precisava se afastar. Se o filho dele aparecer, meus pais ficariammaravilhados. Eles ficariam perto do neto. Minha sobrinha tem contato pelainternet. A gente fica sabendo dessa forma.

Tudo o que sabemos sobre:
futebolSerginhoSão Caetanotragédia

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

'Foi muito difícil o retorno', afirma Fabrício Carvalho

Atacante, que estava em campo na trágédia, teve de se afastar dos gramados por 2 anos por arritmia: 'Tive medo de passar mal'

Entrevista com

Fabrício Carvalho

CIRO CAMPOS E DIEGO SALGADO, O Estado de S. Paulo

27 de outubro de 2014 | 09h29

O atacante Fabrício Carvalho estava em campo pelo SãoCaetano na partida contra o São Paulo, em 2004, e viu o colega de time, ozagueiro Serginho, morrer depois de uma parada cardiorrespiratória. O jogadorsó não imaginava que três meses depois seria ele o foco das preocupaçõesmédicas do clube, ao apresentar uma arritmia em exames da pré-temporada de2005, problema que lhe afastou dos gramados por dois anos. Ao retornar,precisou superar o trauma e o medo.

Como foi enfrentar o período na carreira em que ficouafastado por problemas cardíacos?

Foi um período turbulento da minha carreira. Vivia umproblema excelente antes e depois fiquei impedido de jogar por dois anos porconta de uma alteração exibida em um exame. Acredito que por ter sido depois docaso Serginho, tenha existido alguma influência, porque todo mundo fiquei meioressabiado e receoso. Os times passaram a fazer exames mais rigorosos nosatletas. Por tudo o que ocorreu, time muitas dúvidas, sobre o caso do Serginhotambém, se ele sabia ou não desse problema. Infelizmente logo após essafatalidade fiquei impedido de atuar, o que me deixou bastante preocupado. Issome deixou em baixa, me prejudicou muito e fiquei triste demais, até pelofalecimento do Serginho. Lembro com alegria dos momentos que passamos juntos.

Você sentiu algo anormal no Serginho nos meses queantecederam a morte ou mesmo durante o jogo?

Pelo contrário. Ele tinha uma vitalidade acima do normal,jogava pelo grupo, honrava a camisa do São Caetano e a gente até se assustoumuito da forma como ele veio a falecer, até pelo que ela era. Na parte física,nunca reclamou de nada, nem de nenhum treinamento, era muito dedicado. O que eusei da questão clínica dele, é que fez um exame uma semana antes desse jogo eque nos foi passado por ele é que não houve nada de anormal. Depois surgiramalgumas versões que alguns jogadores sabiam do problema dele, mas nãoparticipei de nenhuma reunião em que foi mencionado o problema dele.

Quando foi detectado o seu problema cardíaco?

Foi na pré-temporada, em janeiro de 2005. Fiz o exame e omédico me falou que houve um problema e precisaria repetir o exame, que foifeito no HCor. Daí repeti, foi constatada a arritmia. Foi melancólico para mime durou dois anos a minha pausa.

Durante esses dois anos, como foi a sua rotina?

Eu me condicionei fisicamente, como os médicos sempredisseram. Fiquei inativo mesmo, comendo e dormindo, e repetia os exames a cadatrês meses. Foi assim durante mais de um ano. Sem nenhuma atividade física,desiludido totalmente. Depois comecei a achar estranho o meu caso, porquenenhum médico me disse com exatidão o que era e o que causava essa arritmia.Depois, procurei o Constantino Constantini, o mesmo médico do atacanteWashington. Ele me indicou um médico em São Paulo, o Beny Schmidt. Não tenhonada a reclamar do São Caetano, que sempre pagou o meu salário. Fiquei chateadoquando tomei a decisão de não fazer os exames e eles quiseram me encostar e meaposentar. Os médicos que estavam conduzindo a minha situação não me passavamtranquilidade. Depois da consultado com o Beny Schmidt comecei a me exercitaraqui na minha cidade, Andradina, ia para a academia. Depois o pessoal do Goiásentrou em contato comigo e fui para Goiânia. Passei três meses fazendo exames,mas de forma diferente. Treinava, sendo monitorado e depois o médico meliberou. Até a família dele achou que ele estava louco na época por causadisso.

Quando o São Caetano ameaçou te encostar?

Foi quase em 2006. Foi quando eu disse que não queria maisfazer exames com eles e queria procurar outros especialistas. Fiquei em casamesmo, saí do São Caetano.

Você conseguiu se sentir seguro quando voltou a jogar?

No início fiquei com medo. Mesmo com diagnóstico, fiqueiinseguro. Nos treinamentos mesmos tinha medo. Com dois anos parado, senti muitadiferença na coordenação motora e tempo de bola. Foi muito difícil o retorno,traumático. Tive medo de passar mal. Eu vi o Serginho em campo, passava umfilme na cabeça. Meu caso foi complicado porque o médico não assinaria minhaliberação de forma alguma. Saí de São Paulo para poder alguma pessoa diferente,com outro olhar, para me ver não como jogador, mas como paciente, alguémnormal. Graças a Deus o médico teve a ousadia e me liberou.

E fisicamente, como você estava quando voltou?

Engordei 11 kg no tempo parado. Foi algo bem complicado.Fiquei acima do peso por um bom tempo. Tive muita dificuldade, de ficar até 4kg acima do peso, tive que me superar. Falo do tema sem problema algum.Enquanto eu tiver força, saúde e as pessoas continuarem me ligando, voucontinuar jogando. Tenho uma história forte, que vale a pena ser contado, eu mesuperei. O caso me atrapalhou profissionalmente, mas Deus me ajudou.

Depois de voltar a jogar, você sentiu algo de anormal?

Eu nunca senti nada, nem no São Caetano. É um caso tãoestranho e tão raro que é difícil até de falar. Nunca tive desmaio e nem passeimal. Só senti algo quando estava 10 kg acima, mas aí é normal.

Você acredita que houve erro médico?

É difícil falar com exatidão Era complicado. Eu olhava para um exame e o médico falava que tinha alteração. E como se vai contra um diagnóstico? É difícil. Eu preferi lutar e procurar outro especialista. Estava na mão do São Caetano, que estava bancando os exames no HCor, com contrato em vigor. Tive que acatar as ordens, mas chegou ao meu limite, não aguentava mais ficar parado e viver uma vida de rato de laboratório, eram exames atrás de exames, repetia sempre. Os médicos estava atordoados. Entendo a situação deles, mas sou ser humano e precisava mudar. Fiquei chateado com o HCor pela forma como eles conduziram, porque expuseram a minha imagem ao colocar a minha ficha de internação nos jornais. Não tinha nada de novo. Utilizaram de forma sensacionalista.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Para Marco Aurélio Cunha, patologia foi maior que o socorro

Ex-dirigente do São Paulo acompanhou de perto o atendimento ao zagueiro Serginho e relembra momentos da tragédia no Morumbi

Entrevista com

Marco Aurélio Cunha

Ciro Campos e Diego Salgado, O Estado de S. Paulo

27 de outubro de 2014 | 07h00

Marco Aurélio Cunha, superintendente do São Paulo entre 2002 e 2011, acompanhou de perto o atendimento ao zagueiro Serginho minutos antes de ele morrer após uma parada cardiorrespiratória. O dirigente, que também é médico, estava no vestiário do Morumbi quando o atleta do São Caetano desabou no gramado aos 14 minutos do segundo tempo. Em entrevista ao Estado, Marco Aurélio Cunha disse que houve mudança em relação aos exames dos jogadores após o episódio. Para ele, no entanto, muitos dirigentes ainda reclamam com os custos que a medida traz. O ex-superintendente também relembrou os momentos de tensão durante a tragédia. Segundo ele, o atendimento a Serginho no estádio foi rápido - em três minutos, o atleta foi atendido na ambulância já com o desfibrilador. "Foi um prazo de ouro. A patologia foi maior do que o socorro."

O que mudou na medicina esportiva desde a tragédia com Serginho?

A medicina vai evoluindo e certamente exames vão surgindo. E cada vez mais sofisticados. O mais importante foi a compreensão dos dirigentes esportivos na investigação dos atletas, que é preciso investir na avaliação plena. Não é só um eletrocardiograma de repouso, uma esteira que vai determinar se ele está bem. Existem hoje provas muito duras para o atleta. A exigência cardiovascular é muito alta. E isso não é detectado em um exame comum.

Foi um divisor de águas no futebol do País?

Sim, foi um grande 'chacoalhão'. Um grande momento de reflexão, responsabilidade e valorização do ser humano. Com a penalização dos dirigentes do São Caetano e o desgaste, além, claro, da perda do Serginho, que é a maior de todas, todo mundo ficou preocupado e o dirigente passou a ser mais permeável às solicitações dos médicos. Porque ele não quer que algo igual ocorra no seu clube.

Como esse assunto era visto antes da morte do jogador?

Clubes grandes sempre fizeram trabalhos exemplares. Mas a detecção de um atleta que tinha uma alteração muito pequena e investigar aquilo a fundo não era tão feito. Hoje, se há uma pequena dúvida de um atleta na função miocárdica, haverá diversos exames. Vai esmiuçar até dizer que ele está bom. Isso não havia. Havia um patamar mais baixo das investigações.

Em relação ao investimento, há alguma reclamação dos clubes?

Quando os exames começam a ficar sofisticados, o dirigente reclama, acha caro. Ele não acha caro, por exemplo, quando quer vender o jogador por R$ 10 milhões e consegue R$ 8,5 milhões. Ele não liga de perder R$ 1,5 milhão. Mas quando um exame custa R$ 5 mil ou um aparelho que custa R$ 20 mil, ele reclama e fala que não tem dinheiro.

Aquele dia foi o pior momento que você passou no futebol?

Foi. Já passei apuros. Mas aquele dia foi o mais difícil. Fomos vencidos. Eu não tinha responsabilidade sobre o caso, mas aconteceu na minha casa, no Morumbi.

Onde você estava quando Serginho caiu no gramado?

Eu lembro de cada pedaço. O primeiro tempo eu assisti na cativa. Estava muito frio e eu estava febril. Preferi ver o segundo tempo no vestiário, pela televisão. Quando mostrou o Serginho caído, vi que era uma parada cardiorrespiratória. Saí correndo e fui para o ambulatório, avisei que havia um jogador com parada cardíaca no campo. Passei na ambulância no campo e dei um tapa no vidro para alertar o médico. Era importante chamar apoio. E corri para lá, onde já estavam o Dr. Sanches e o Dr. Paulo Forte tentando reanimá-lo. Isso durou três minutos.

Achou eficiente o primeiro atendimento?

Foi rápido. Foi uma atendimento rápido em um ambiente não-hospitalar. Não era adequado. Não teve como durar menos. Em três minutos, ele estava na ambulância, com o desfibrilador. Foi um prazo de ouro. A patologia foi maior do que o socorro. Não tem como prever uma parada cardíaca. Não tinha como reverter.

Todos ficaram chocados. O que mais te impressionou?

O mais impressionante foi o público. Gritaram o nome dele. Foi uma noite de comoção. Todo mundo foi embora em absoluto silêncio. Foi um velório. Todos saíram cabisbaixos, pois havia presenciado uma morte em campo.

Teme outros casos graves como o de Serginho?

Ainda vai ter morte súbita no futebol. Não dá para imunizar tudo. Às vezes, ele tem no campo de futebol um problema que não foi detectado. O jogador pode ter uma patologia que nunca se manifestou. E por azar será em um jogo. É o improvável. 

Muitas pessoas culpam o Dr. Paulo Forte? O que você acha disso?

Ele não teve culpa. Foi injusto, porque ele foi muito criticado. Eu sei o que ele passou. A investigação que ele pôde fazer foi apoiada em terceiros. E fora tudo que ele passou, havia o envolvimento dele com o jogador. Ele foi uma vítima também.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Partida marcada pela morte de Serginho foi reiniciada 7 dias depois

Jogadores que assistiram à morte do zagueiro do São Caetano entraram em campo e disputaram os 31 minutos restantes do jogo

Ciro Campo e Diego Salgado, O Estado de S. Paulo

27 de outubro de 2014 | 07h00

Uma semana depois da tragédia com Serginho, os jogadores precisaram voltar ao Morumbi no mesmo horário da partida disputada no dia 27 de outubro. Os 21 atletas que viram de perto a morte do zagueiro do São Caetano entraram em campo e disputaram o restante do confronto válido pela 37.ª rodada do Campeonato Brasileiro, conforme determinou a CBF.

Muitos companheiros de Serginho, entretanto, não queriam entrar em campo naquela noite. "A maioria foi contra. Não tínhamos condições emocionais de jogar, não era um ambiente ideal. Teve jogador que pediu para não atuar. Fomos obrigados, pois poderíamos perder mais pontos na temporada", relembra Dininho, que jogou dois anos ao lado de Serginho na zaga do time paulista.

Segundo o técnico Péricles Chamusca, que estava à frente do São Caetano à época, a comissão técnica montou uma estratégia para tentar amenizar a situação em relação às lembranças da tragédia. "Trocamos o hotel da concentração, chegamos mais em cima para hora do jogo do que o normal e subimos mais cedo para aquecer no campo", disse.

Um fato, contudo, acabou prejudicando os jogadores: o São Paulo fez uma homenagem para o zagueiro, colocando uma música no momento em que os atletas subiram ao gramado. "Desmoronou todo o emocional do nosso time e tudo o que havia sido trabalhado", afirmou.

Dininho era um dos mais emocionados naquele dia. De acordo com o ex-jogador, a cena de Serginho caído na grande área o perseguiu durante os 31 minutos. "Via aquela imagem, aquele desespero. Foi uma atitude insensível. Poderia ter sido um pouco mais para frente", ressalta. Anderson Lima, um dos primeiros jogadores a pedir ajuda no dia da morte, também era contra a continuação da partida. O ex-lateral conta que o time do São Caetano honrou Serginho ao não desistir de jogar as outras partidas do ano. "Foi absurdo. Jogamos o restante do campeonato para honrá-lo."

O árbitro Cleber Wellington Abade, por sua vez, precisou recorrer à experiência para apitar os lances finais da partida. "Trouxe lembranças do fato, mas a função de árbitro exige que se tenha um preparo psicológico para tomada de decisões em ambientes anormais", explica. De acordo com ele, não havia embasamento jurídico para encerramento da partida, pois o regulamento da competição determinava que um jogo suspenso antes dos 75 minutos deveria ter sua continuidade para completar os 90 minutos.

O jogo foi reiniciado com um tiro de meta cobrado por Silvio Luiz, exatamente no ponto onde Serginho teve a parada cardíaca. Jonas, lateral-esquerdo que hoje defende o Atlético-GO, entrou no lugar de Serginho. Em 31 minutos, o São Paulo fez 4 a 2 no abatido São Caetano. Ninguém, no entanto, comemorou a vitória são-paulina naquele noite de quarta-feira marcada por lembranças ruins.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Condição cardíaca dos atletas ganhou mais atenção após tragédia

Outras medidas foram adotadas, como a adoção do desfibrilador no banco de reservas e a intensificação dos exames feitos pelos atletas

Ciro Campos e Diego Salgado, O Estado de S. Paulo

27 de outubro de 2014 | 07h00

A tragédia com Serginho deixou em alerta o futebol brasileiro. A condição cardíaca dos atletas começou a ganhar mais atenção e os estádios passaram a ter desfibriladores, equipamento que utiliza choques elétricos para restabelecer o ritmo cardíaco em paradas cardiorrespiratórias. "Com o caso do Serginho, houve a adoção do desfibrilador no banco de reservas, a intensificação dos cuidados e a melhoria das salas de atendimento nos estádios", explicou José Luiz Runco, médico e ex-integrante da comissão técnica da seleção brasileira.

As modernas arenas construídas para a Copa do Mundo de 2014 também contribuíram a dar mais segurança aos jogadores em caso de emergência. Todas possuem uma estrutura com ambulatório e salas de atendimento capazes de recuperar casos mais graves.

"A detecção de um atleta que tinha uma alteração muito pequena e investigar aquilo a fundo não era tão feito. Hoje, se há uma pequena dúvida de um jogador na função miocárdica, haverá diversos exames", disse o médico Marco Aurélio Cunha, superintendente de futebol do São Paulo em 2004 e um dos que prestaram socorro a Serginho.

Outro médico presente na ocasião, José Sanches, também do São Paulo, destaca o aumento do rigor das entidades que organizam os campeonatos. "Foram criados elementos para melhorar os atendimentos de emergência. Um jogo não começa hoje se não tiver um desfibrilador e uma ambulância no estádio". O pronto crescimento na preocupação com os jogadores teve a primeira repercussão dentro do próprio São Caetano. O atacante Fabrício Carvalho, que estava em campo no jogo da morte do zagueiro, ficou dois anos sem atuar depois que exames da pré-temporada, em 2005, mostrarem que ele tinha uma arritmia.

Insatisfeito com o diagnóstico e em dúvida sobre sua condição, Fabrício deixou o clube depois de um ano parado e foi se consultar com outros médicos. Aos poucos, foi liberado para retomar atividades físicas leves. "No início, eu fiquei com medo. Foi muito difícil o retorno, traumático. Tive medo de passar mal em campo. Eu vi o Serginho morrer e passava um filme na minha cabeça", contou ao Estado.

Em 2007, o atacante foi contratado pelo Goiás e retomou a carreira. Fabrício garante não ter sentido nenhum problema cardíaco em nenhum momento da sua vida, mas disse que compreende a preocupação do São Caetano, principalmente pelo exame ter sido realizado meses depois da morte de Serginho.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

'Senti medo de morrer. Passava um filme da morte do Serginho'

Atacante ex-São Caetano teve arritmia detectada logo após colega falecer e precisou ficar dois anos sem jogar

Entrevista com

Fabrício Carvalho

Ciro Campos, Diego Salgado, O Estado de S. Paulo

27 de outubro de 2014 | 07h00

O atacante Fabrício Carvalho estava em campo pelo São Caetano na partida contra o São Paulo, em 2004, e viu o colega de time, o zagueiro Serginho, morrer depois de uma parada cardiorrespiratória. O jogador só não imaginava que três meses depois seria ele o foco das preocupações médicas do clube, ao apresentar uma arritmia em exames da pré-temporada de 2005, problema que lhe afastou dos gramados por dois anos. Ao retornar, precisou superar o trauma de ter perdido o colega, além do medo sobre suas condições físicas.

Como foi enfrentar o período na carreira em que ficou afastado por problemas cardíacos?

Foi um período turbulento da minha carreira. Vivia um problema excelente antes e depois fiquei impedido de jogar por dois anos por conta de uma alteração exibida em um exame. Acredito que por ter sido depois do caso Serginho, tenha existido alguma influência, porque todo mundo fiquei meio ressabiado e receoso. Os times passaram a fazer exames mais rigorosos nos atletas. Por tudo o que ocorreu, time muitas dúvidas, sobre o caso do Serginho também, se ele sabia ou não desse problema. Infelizmente logo após essa fatalidade fiquei impedido de atuar, o que me deixou bastante preocupado. Isso me deixou em baixa, me prejudicou muito e fiquei triste demais, até pelo falecimento do Serginho. Lembro com alegria dos momentos que passamos juntos.

Você sentiu algo anormal no Serginho nos meses que antecederam a morte ou mesmo durante o jogo?

Pelo contrário. Ele tinha uma vitalidade acima do normal, jogava pelo grupo, honrava a camisa do São Caetano e a gente até se assustou muito da forma como ele veio a falecer, até pelo que ela era. Na parte física, nunca reclamou de nada, nem de nenhum treinamento, era muito dedicado. O que eu sei da questão clínica dele, é que fez um exame uma semana antes desse jogo e que nos foi passado por ele é que não houve nada de anormal. Depois surgiram algumas versões que alguns jogadores sabiam do problema dele, mas não participei de nenhuma reunião em que foi mencionado o problema dele.

Quando foi detectado o seu problema cardíaco?

Foi na pré-temporada, em janeiro de 2005. Fiz o exame e o médico me falou que houve um problema e precisaria repetir o exame, que foi feito no HCor. Daí repeti, foi constatada a arritmia. Foi melancólico para mim e durou dois anos a minha pausa. 

Durante esses dois anos, como foi a sua rotina?

Eu me condicionei fisicamente, como os médicos sempre disseram. Fiquei inativo mesmo, comendo e dormindo, e repetia os exames a cada três meses. Foi assim durante mais de um ano. Sem nenhuma atividade física, desiludido totalmente. Depois comecei a achar estranho o meu caso, porque nenhum médico me disse com exatidão o que era e o que causava essa arritmia. Depois, procurei o Constantino Constantini, o mesmo médico do atacante Washington. Ele me indicou um médico em São Paulo, o Beny Schmidt. Não tenho nada a reclamar do São Caetano, que sempre pagou o meu salário. Fiquei chateado quando tomei a decisão de não fazer os exames e eles quiseram me encostar e me aposentar. Os médicos que estavam conduzindo a minha situação não me passavam tranquilidade. Depois da consultado com o Beny Schmidt comecei a me exercitar aqui na minha cidade, Andradina, ia para a academia. Depois o pessoal do Goiás entrou em contato comigo e fui para Goiânia. Passei três meses fazendo exames, mas de forma diferente. Treinava, sendo monitorado e depois o médico me liberou. Até a família dele achou que ele estava louco na época por causa disso.

Quando o São Caetano ameaçou te encostar?

Foi quase em 2006. Foi quando eu disse que não queria mais fazer exames com eles e queria procurar outros especialistas. Fiquei em casa mesmo, saí do São Caetano. 

Você conseguiu se sentir seguro quando voltou a jogar?

No início fiquei com medo. Mesmo com diagnóstico, fiquei inseguro. Nos treinamentos mesmos tinha medo. Com dois anos parado, senti muita diferença na coordenação motora e tempo de bola. Foi muito difícil o retorno, traumático. Tive medo de passar mal. Eu vi o Serginho em campo, passava um filme na cabeça. Meu caso foi complicado porque o médico não assinaria minha liberação de forma alguma. Saí de São Paulo para poder alguma pessoa diferente, com outro olhar, para me ver não como jogador, mas como paciente, alguém normal. Graças a Deus o médico teve a ousadia e me liberou.

E fisicamente, como você estava quando voltou?

Engordei 11 kg no tempo parado. Foi algo bem complicado. Fiquei acima do peso por um bom tempo. Tive muita dificuldade, de ficar até 4 kg acima do peso, tive que me superar. Falo do tema sem problema algum. Enquanto eu tiver força, saúde e as pessoas continuarem me ligando, vou continuar jogando. Tenho uma história forte, que vale a pena ser contado, eu me superei. O caso me atrapalhou profissionalmente, mas Deus me ajudou.

Depois de voltar a jogar, você sentiu algo de anormal?

Eu nunca senti nada, nem no São Caetano. É um caso tão estranho e tão raro que é difícil até de falar. Nunca tive desmaio e nem passei mal. Só senti algo quando estava 10 kg acima, mas aí é normal.

Você acredita que houve erro médico?

É difícil falar com exatidão Era complicado. Eu olhava para um exame e o médico falava que tinha alteração. E como se vai contra um diagnóstico? É difícil. Eu preferi lutar e procurar outro especialista. Estava na mão do São Caetano, que estava bancando os exames no HCor, com contrato em vigor. Tive que acatar as ordens, mas chegou ao meu limite, não aguentava mais ficar parado e viver uma vida de rato de laboratório, eram exames atrás de exames, repetia sempre. Os médicos estava atordoados. Entendo a situação deles, mas sou ser humano e precisava mudar. Fiquei chateado com o HCor pela forma como eles conduziram, porque expuseram a minha imagem ao colocar a minha ficha de internação nos jornais. Não tinha nada de novo. Utilizaram de forma sensacionalista. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.