Paulo Liebert/Estadão
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Tragédia como de hábito

Ocorridos como os de Brumadinho e do CT do Flamengo parecem naturalmente desumanizar o País

Ugo Giorgetti, O Estado de S.Paulo

10 de fevereiro de 2019 | 04h30

Não se escapa da tragédia. Não do fato em si, mas dos relatos. Mesmo quem não tem o hábito das redes sociais, quem se isola ou evita o que pode as novidades, prevendo que são geralmente desagradáveis, não escapa delas. Estava eu andando e pensando que tinha encontrado um bom tema para esta coluna de domingo quando, ao passar pela banca de jornais, o jornaleiro meu amigo não me disse sequer bom dia, foi logo dizendo: “Você viu o que aconteceu no Flamengo?”

Não, não tinha visto, e pelo tom da voz do meu amigo deduzi que não queria ver. Mas ele me contou tudo em poucas e exatas palavras.

Mais uma das desgraças que parecem não deixar o horizonte do Brasil. É Brumadinho, com mortes e mais mortes, vendaval no Rio de Janeiro, que também teve vítimas, esse incêndio no Flamengo, terrível por atingir adolescentes quase crianças.

Meu primeiro sentimento foi de raiva da própria tragédia que vinha interceptar grosseiramente minha ideia inicial da coluna. Se eu me deixar impressionar por todas as tragédias do Brasil, não consigo mais escrever sobre outra coisa. Às vezes é preciso se desviar cuidadosamente da realidade para poder pensar em algo melhor. Tentei. Fiquei com a minha ideia da coluna, mas notei que ela já se tinha apagado um pouco da minha mente. Mais alguns minutos e tinha desaparecido. Não me lembrava mais de nada da minha bela e criativa futura coluna. O incêndio do Flamengo tinha desabado sobre ela implacavelmente.

Para minha própria surpresa fui à internet, talvez procurando alguma coisa que tornasse essa nova tragédia diferente das demais. Não era. Era apenas uma combinação de falta de sorte e de atraso que nos persegue, ou melhor, persegue quem é alvejado por essas tragédias. Está lá todo o nosso atraso.

Não precisei nem ler para saber que as instalações não eram impecáveis. O que é impecável neste País quando se trata de assegurar direitos? Essas instalações estavam a ponto de ser abandonadas pelos meninos, que seriam transferidos para lugar supostamente melhor. Em outros tempos tinham sido instalações do time profissional do Flamengo, o que demonstra que os garotos ocupavam lugar de segunda mão, provavelmente ultrapassado e com problemas. 

Vi, no entanto, o depoimento de um garoto que, inquirido, respondeu que as instalações eram muito boas e ofereciam todo o conforto. Antes que eu pensasse que o garoto mentia por medo de represálias, me ocorreu que ele falava a exata verdade. As modestas instalações que pegaram fogo certamente eram bem melhores que às que o menino estaria acostumado nas periferias do Rio de Janeiro ou de São Paulo, ou de qualquer cidade. Comparadas com o lugar que provavelmente vivia, as instalações que queimaram eram boas e confortáveis.

No fundo, não interessa muito o que aconteceu. Não adianta repetir a lenga-lenga de sempre, culpar os dirigentes pela milésima vez, falar de irresponsabilidade geral, descaso, desmando. Eu, particularmente, não aguento mais isso tudo.

Uma coisa, porém, conseguiu me deixar surpreso, desagradavelmente, é claro. Já enfronhado no assunto, topei com um site que apresentava outros depoimentos de meninos sobreviventes. Um deles continha um depoimento absolutamente ininteligível de um garoto desesperado e aos prontos. Não tinha, aliás, nenhuma importância o que ele dizia. O assombroso era o desespero e o choro convulsivo.

Isso tudo eu vi depois porque, ao acionar o depoimento do menino, a primeira coisa que entrou foi um alegre, vibrante e colorido comercial das Casas Bahia, seguido do depoimento do menino em lágrimas. Tudo era uma única peça: o comercial de ofertas e o testemunho desesperado. Poucas vezes vi algo que mostrasse tão claramente o processo de desumanização a que estamos sendo submetidos. Até as tragédias já vêm com patrocínio.

 

 

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