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Tragédia rodriguiana

A agonia do Maracanã é uma tortura para quem gosta de futebol

Marília Ruiz, O Estado de S.Paulo

06 de julho de 2017 | 07h00

Como se fosse a coisa mais excepcional da história deste país, a CBF anunciou que Fluminense e Botafogo, uau, vão se enfrentar no Maracanã na semana que vem pelo Campeonato Brasileiro.

Uau!

Por mais surreal que pareça, tamanha é a lista de decepções e perdas dos brasileiros, convivemos quase naturalmente com a “implosão virtual” do maior templo do futebol. Ter jogo no Maracanã é agora digno de notícia e de anúncio oficial. Vou repetir: uau. 

Do mais idiota da objetividade*, que lista de cor e salteado, friamente, os problemas do consórcio que administra o estádio e o passo a passo das investigações do Tribunal de Contas do Estado do Rio, até o mais Pacheco* torcedor: todos aceitam essa situação inacreditável de termos o ex-maior do mundo encostado, abandonado, largado agonizante no asfalto à espera do beijo do Arandir*.

A pouca vergonha e o excesso de roubos que se sucederam desde sempre, e mais exponencialmente nos últimos 10 anos, alijaram o Rio Janeiro (o Brasil e o planeta) de um dos maiores símbolos do nosso futebol. O Maracanã só não é mais famoso do que Pelé. E nós conseguimos a façanha de enterrá-lo. Aliás, matamos, mas não enterramos. Estamos com nossas narinas triunfais* velando o cadáver há meses. 

A situação beira ao psicodélico. Como se aquele monstro mitológico de areia, aço e concreto não existisse no meio do Rio. Como se o Maracanã fosse apenas uma lenda, uma miragem. Ou como se fosse algum estádio gringo do qual ouvimos maravilhas e, claro, invejamos, vira-latas* que somos.

Mas o Maracanã está lá. Morto-vivo, mas ainda está. Virou um mendigo deitado no chão nas ruas frias de inverno de quem desviamos o olhar constrangidos.

Pode existir morte mais triste para o futebol? 

Pode existir canalha maior do que aquele que não respeita nem a cunhada* nem o Maracanã?

Enquanto nossos canalhas se escondem nos palácios de governo, nas empreiteiras, nos clubes, na CBF e em Bangu (uau), ouvimos dirigentes dando entrevistas sobre o quão importante será a construção de mais estádios. Mais!

Ontem foi a vez de a dupla rival Flamengo e Fluminense anunciar, com apoio da prefeitura carioca, que quer as suas arenas modernas, multiúsos e quase “autolimpantes”. E a plateia? À la Boca de Ouro*, aplaude, urra, infla-se.

A bola pune, diria o filósofo. A força da burrice* é ainda mais impiedosa e voraz. 

O já falecido João Havelange, nunca muito identificado com a cultura brasileira, mas por muitos anos mandatário da CBF (então CBD) e da Fifa, disse antes da quarta reforma seguida do Maracanã (1999, Pan-2007, Copa-2014 e Rio-2016) que o melhor era implodi-lo. Uma imbecilidade inacreditável. Mas teria sido menos melodramático do que a morte não morrida que foi decretada.

 

​W.O.

Com impasse, seleção também se afasta do Maracanã

Já classificada para a Copa do Mundo da Rússia, no ano que vem, a seleção brasileira dirigida pelo técnico Tite se despediria das Eliminatórias, em casa, contra o Chile, em outubro, no Rio. Mas o jogo agora vai acontecer em São Paulo ou em Brasília. A CBF dá de ombros para a tragédia... 

 

INSPIRAÇÃO

Nelson Rodrigues desenhou com palavras a alma do estádio

Todos os asteriscos desta coluna dizem respeito a expressões e/ou personagens do grande dramaturgo Nelson Rodrigues. Morto em 1980, ele era torcedor fanático do Fluminense, irmão de Mário Filho, que dá nome ao Maracanã – personagem central das crônicas esportivas rodriguianas. 

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