Nilton Fukuda/Estadão
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Treinador sem jogador

Futebol brasileiro se apresenta recheado de bons técnicos, no mínimo competitivos, e carente de jogadores que possam fazer a diferença

Robson Morelli, O Estado de S.Paulo

17 de dezembro de 2018 | 04h30

Com o desafio de olhar alguns palmos à frente do nariz, arrisco dizer que temporada de 2019 do futebol brasileiro se apresenta recheada de bons treinadores, no mínimo competitivos, e carente de jogadores que possam fazer a diferença. Isso poderia explicar o tamanho da importância que damos atualmente aos técnicos, uma tendência que também ocorre na Europa, por exemplo, principalmente na Liga Inglesa, onde estão, talvez, os melhores do mundo.

Cito três deles. Pep Guardiola, do Manchester City; José Mourinho (para mim ele continua sendo importante, apesar de jogar demais para não perder e de menos para ganhar com alguma folga), do Manchester United; e Jürgen Klopp, do Liverpool.

Os clubes brasileiros prometem uma briga boa à beira do gramado em todas as competições, nacionais e internacionais. O Flamengo, por exemplo, resgatou Abel Braga. O Corinthians repatriou Fábio Carille. O Santos tem agora Sampaoli, que desembarcou domingo à tarde em São Paulo para conhecer o clube da Baixada. Estas são algumas das caras novas no banco para 2019.

Se juntar a esse grupo outros renomados e que permaneceram em seus respectivos times, como Mano Menezes (Cruzeiro), Felipão (Palmeiras), Levir Culpi (Atlético-MG), Renato Gaúcho (Grêmio) e Odair Hellmann (Inter), não seria demais afirmar que há uma boa safra de técnicos empregados no futebol nacional. Isso é ótimo.

O problema é não ter tantos bons jogadores para cumprir as determinações e ensinamentos desses treinadores. Trata-se de uma triste realidade do futebol brasileiro. O craque não existe mais. O jogador “melhorzinho” passou a ser referência em sua equipe.

Veja o caso de Dudu, do Palmeiras, apontado como o melhor do Campeonato Brasileiro – por mim, inclusive. Dudu é bom jogador, mas não passa disso. Na boa. Quando chegou ao Palmeiras, era chamado de o “novo Edmundo”. Caiu de produção, atuou em outras posições, foi criticado, deu a volta por cima, desapareceu em alguns jogos importantes do time e neste ano ocupou função que era dos grandes craques, aqueles que sempre fizeram diferença e que arrastam legiões de fã.

Assim, se fez subir também todos os outros níveis dos nossos jogadores. O “melhorzinho” virou “craque”, o “médio” se transformou em “melhorzinho” e o “ruim” passou a ser chamado de “médio”. Todos se salvaram. Juntos, o “craque”, o “melhorzinho”, o “médio” e até o “ruim”, quando bem treinados, conseguem levar um time a jogos interessantes e até a conquistas.

De modo a ter apenas uma conclusão de antemão, talvez até precipitada, mas bastante realista, da temporada de 2019: os treinadores do futebol brasileiro, dos times da Série A, têm mais peso do que os jogadores de suas respectivas equipes. André Jardine, do São Paulo, é quem mais se afasta desta concepção. O novato técnico, oriundo das bases de Cotia, ainda tem de comer muito arroz com feijão na nova função para peitar jogadores do elenco como Nenê e Diego Souza.

Na contramão desta realidade, e para que o leitor entenda bem o caso, aponto o Paris Saint-Germain, time francês de Neymar, Mbappé, Di María, Thiago Silva, Marquinhos, Cavani e tantos outros mais que fazem do vestiário um lugar sagrado, tamanha a quantidade de atletas acima da média. Nesse caso, o técnico alemão Thomas Tuchel precisa ter muita personalidade para comandar o time. Ele está longe do prestígio de seus principais jogadores.

No Brasil, teremos de seguir os treinadores, tentar entender o que eles pensam e qual é o caminho que vão escolher para conseguir as vitórias. Porque se não aparecer melhores atletas, serão eles os principais astros do nosso futebol. E cá entre nós, isso não é nada bom.

 

 

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