Treinadores transmitem a paixão pelo futebol como herança aos filhos

Filhos de Oswaldo de Oliveira, Pepe e Zagallo seguem a carreira dos pais, mas buscam a própria identidade

Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

22 de fevereiro de 2014 | 17h00

SÃO PAULO - Pai e filho trabalham juntos na comissão técnica do

Com a mesma canhota potente do pai, que foi apelidado de Canhão da Vila, Pepinho tinha de tentar ser jogador. O pai conta que os treinadores teimavam em escalá-lo fora de posição – era meia e queriam que ele jogasse na lateral – e a carreira não vingou. Depois de uma bem-sucedida loja de discos, que virou referência em Santos, Pepinho quis ser treinador no fim dos anos 90. Decisão de gente grande, que encaixou o sonho de ser jogador no recipiente da vida adulta. Mais importante ainda foi decidir iniciar a carreira fora do Santos. “Havia uma cobrança grande e até uma desconfiança. Afinal, todo mundo sabia que eu era filho do Pepe.” Um parêntese histórico: José Macia,o Pepe é o segundo maior artilheiro do Santos, com 405 gols. Considerando que Pelé é hors concours, ele é o cara.

Depois de 15 anos de carreira e 14 clubes, Pepinho voltou ao Santos preparado. Ganhou títulos importantes com os jovens, como a Copa São Paulo de Futebol Júnior, e já preparou uma nova fornada de Meninos da Vila, formada por Stéfano Yuri, Diego Cardoso, Lucas Otávio e Serginho. Ele saiu-se tão bem que já foi sondado pela diretoria para fazer um plano de carreira e se especializar na formação de novos talentos. Continua a ser o filho do Pepe, mas trilhou seu caminho, como ele mesmo diz. Antes disso, chegou a trabalhar com o patriarca em três clubes, inclusive na campanha histórica da semifinalista Portuguesa Santista no Paulistão de 2003. “Eu fico mais nervoso assistindo aos jogos do time dele do que aos meus, quando eu era treinador”, confessa Pepe, hoje com 79 anos, que conquistou vários títulos como treinador, como os Paulistas de 1973, pelo Santos, e 1986, pela Inter de Limeira, e o Brasileirão daquele mesmo ano, pelo São Paulo.

NOME PRÓPRIO.

Paulo Zagallo conta que sua carreira de treinador começou ainda na infância, quando via seu pai preparar a seleção que foi tricampeã no México, em 1970. “Aquelas cenas ficaram na minha mente, foram fixadas, e tenho muito orgulho de tudo o que aprendi com ele.” Aqui entra aquela história de continuidade e ruptura. Apesar da influência do tetracampeão mundial (duas vezes como jogador, uma como técnico e outra como coordenador), Paulo se prefere ser chamado pelo primeiro nome. Foi assim em todos os clubes em que passou, como Madureira, Tupi (MG) e Aquidauanense (MS). Agora, procura uma oportunidade no futebol paulista. “Os clubes de São Paulo têm boa estrutura e, apesar de ter feito muitas outras coisas, como ser gerente de banco e comerciante, minha profissão é técnico de futebol. Está no sangue.”

A psicóloga Katia Rubio, professora da Escola de Educação Física da USP, explica que essa identificação é forte não só no futebol, principalmente se o patriarca estiver disponível para transmitir o seu legado. “Existe um modelo pedagógico baseado na mimese, ou seja, aprendemos vendo os outros fazendo”, explica Katia, que absolve Oswaldo de Oliveira pelo silêncio. “Para muitas pessoas, principalmente no futebol, o ambiente de trabalho não tem espaço para a intimidade de uma relação pai e filho.”

COMPARAÇÕES COM TELÊ.

Renê Santana, filho de Telê Santana, um dos mais importantes treinadores do futebol brasileiro, falecido em 2006, tem um grande projeto para 2014: fundar um time de futebol em Minas Gerais, onde mora. Com a chancela do Instituto Telê Santana, entidade que preside, o apoio da iniciativa privada e das leis federais de incentivo ao esporte, Renê quer montar e coordenar uma equipe com jogadores de várias cidades mineiras, inicialmente nas categorias juvenil e júnior.

O projeto nasceu porque Renê ficou exigente, como ele mesmo diz. Após passar por clubes do interior de Minas, São Paulo e Paraná, como Ipatinga, Matsubara, Mamoré e Sãocarlense, e atuar como comentarista de tevê, resolveu dar um passo à frente. “A não ser por um milagre, não temos oportunidade de ser campeões. A maioria dos times do interior carece de condições de trabalho. Assim, estou com esse projeto, que ainda está na fase inicial.”

Além da exigência crescente, o treinador também teve dificuldades de relacionamento com dirigentes exatamente por causa do sobrenome famoso. “Vários dirigentes contrariavam minhas determinações apenas para demonstrar poder, mas nunca me curvei. Se me escolheram pensando no Telê, escolheram errado.”

Uma das lembranças mais marcantes da infância de Renê aconteceu em 1969, no Fluminense. O clube determinou que os jogadores de futebol deveriam sair pela porta dos fundos do clube para não se misturar com os sócios. Telê seguiu a norma, por se sentir parte do grupo, mas achou a porta fechada. Como não havia ninguém para abri-la, pulou o muro – foto que estampou os jornais da época. E os jogadores, então, voltaram a usar a porta da frente. “Ele nunca se limitou às lições dentro das quatro linhas. Para ele, caía bem o título de professor. Ele sempre foi mesmo melhor técnico”, elogia o filho.

Renê conquistou alguns títulos do Módulo II do Campeonato Mineiro, mas nunca dirigiu uma grande equipe. Seu pai foi técnico da seleção brasileira nas Copas de 1982 e 1986. Após duas eliminações, amargou por vários anos a fama de pé-frio, que só foi superada com dois títulos da Copa Libertadores e do Mundial Interclubes com o São Paulo, em 1992 e 1993.

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